18/09/2003
Número - 332
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Marciano Vasques
A ONDA CÔNCAVA DO MAR PROFUNDO
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Chove e a chuva trás de volta as coisas que não podem morrer. Pensa-se que
se dissipa, mas é como a fumaça do trem da minha infância. A locomotiva
não está mais sobre os trilhos, mas a fumaça sobre um céu de oliva
buscando lilases, nunca se foi.
Eu trago de volta as coisas. Tornou-se um hábito, uma espécie de refúgio,
uma proteção da alma. Trago àquela que não ofereceu sua poesia em bandejas
de prata, mas em pratinhos de porcelana do XIX. Trago a porcelana, e trago
a estampa, e a estampa me leva ao imenso artista que foi o japonês.
A associação do japonês à imagem do científico e da tecnologia está ligada
à sobrevivência, é um fenômeno de transformação de culturas que ocorre sob
o imperativo da sobrevivência, tem a ver com pós-guerra, com destruição e
com reconstrução. São grandiosos na ciência, mas que artistas foram na
estampa!
Para onde vão as culturas?
E uma delas, que me é tão superior, e à chuva trago-me de volta. Para onde
terá ido? Que distância imensa teria eu que percorrer para penetrar no
âmago de tantas confluências coloridas, tantos losangos magníficos,
borboletas, flores, formas e cores que nunca teriam fim.
As estampas japonesas desenhando os séculos em cenas de sentires
superiores, narrando histórias e momentos. Eis o povo da estampa, que
beirou rios com suas flores amarelas, que sobrevoou azuis com seus
pássaros brancos. Para onde terá ido essa cultura que tanto me
impressiona?
Por que me vem assim tão desatenta numa tarde chuvosa de setembro?
Para onde irá esse setembro, se me falta a pintura da estampa? Três jovens
passeando sob cerejeiras floridas numa tarde de primavera. Foi preciso
essa chuva para que eu pudesse compreender o quanto a região onde vivo é
importante pelo fato de ter as cerejeiras dos japoneses.
Uma cortesã japonesa vestida com tecidos belos, um carvalho sendo
admirado, duas jovens ao luar de outono, uma outra prendendo um poema de
amor a uma cerejeira e os magníficos motivos no tecido. Maravilhosos
artistas japoneses!
Jovens amantes sentados na esteira de uma varanda contemplando o luar, a
impressionante harmonia de uma jovem de sombrinha exalando em cores plenas
de delicadeza, rosas à beira-rio, calmo entardecer à beira-rio, como temos
que aprender com as estampas japonesas!
Arte milenar, obras-primas de uma cultura inimitável, derivadas de uma
arte popular, a pintura japonesa, mãe da impressão.
“Pinturas do mundo que passa”. Nunca esqueci da palavra Ukiyo (mundo que
passa), um mundo repleto de significados, mas sobretudo todos convergindo
para o conceito budista de tristeza diante do efêmero da natureza, da
transitório das coisas que são. Momento que passa, qual é o seu nome?,
tamborila-me os versos de Cecília, pois tudo se amalgama.
Estampas japonesas. Onde as vi pela última vez? Chovia, por acaso? Mas o
acaso não passa de colmos da planta trepadeira que vai entrelaçando tudo e
atingindo o cume do muro para então se tornar portadora da visão
esplendorosa das culturas que retornam com as chuvas.
Ukiyo-e (pinturas do mundo que passa), melancolia budista de um tempo
longínquo; conceitos sofrem transformações, o que ousa denominar-se
moderno se instala vigorosamente, pois ninguém desrespeita a força motriz
do tempo. E o “mundo que passa” passou a designar um modo particular de
vida, uma busca desenfreada dos prazeres, naturalmente transitórios.
Nada sei da gigantesca e indecifrável beleza da cultura oriental que
aparentemente se foi, apenas recordo algumas estampas japonesas, tão
lindas, que devo ter visto em algum livro empoeirado, em alguma
biblioteca.
(18 de setembro/2003)
CooJornal no 332
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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