02/10/2003
Número - 334
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Marciano Vasques
A FLOR DE MURILO RUBIÃO
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Numa manhã de setembro li um conto intitulado “A Flor de vidro”, de Murilo
Rubião. Hoje setembro se vai, é a última manhã do mês que anuncia a
primavera. Setembro não podia partir sem que eu voltasse a pensar nesse
conto, que nunca irá embora.
Nomes brotam da garganta ou do pensamento? Saudade convive com
reminiscência amarga? Seriam gotas do licor dos sentimentos deslizando
pelos verdes da várzea? Gotas impondo-se diante da amargura das
reminiscências, presentes no que teria restado da flor de vidro?
Tal como o “verde dos teus olhos se espalhou na plantação”, da canção de
Lua, o “sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos” e se
espalhava pelo ambiente, pela paisagem cotidiana do conto.
O sorriso dela ia mais longe, acompanhava o trem de ferro, que na
monotonia da sua passagem, trazia num crescendo o seu nome, como se fosse
um sussurro balsâmico, reconfortante.
O conto de Murilo Rubião fala ao leitor de vidas que não se vão,
estilhaços, talvez hematomas, talvez devaneios da alma, que permanecem
inquebrantáveis, como quiçá uma flor de vidro, que sobrevive intacta na
memória das coisas. Metáfora dos fragmentos da memória insistente.
Reencontro de vidas, de corpos que parecem não envelhecer, amores da
fazenda, entre aléias de eucaliptos. Histórias jamais interrompidas,
alimentadas por insônias, noites veladas pelas eternas moscas.
Sonhos que são seivas, que renovam o corpo, que rejuvenescem, que devolvem
o tempo aos amantes, aos que nunca se foram. O texto de Rubião fala dessas
coisas. De pessoas que vagam nos limites dos sonhos, que reencontram o
brilho dos olhos.
Amores vividos intensamente nas matas, entre orvalhos e folhas reluzentes,
fotossínteses de auroras, orlas, trilhas amorosas oferecidas pela amizade
da natureza.
Há um lugar no qual um namorado retorna com uma flor azul. Um lugar que
está num conto, um conto de aguaceiro, do movimento do trem, e a visão da
flor de vidro.
A palavra grávida de sentidos (Góes), nos fala de uma flor de vidro, -de
uma imagem onírica?-, do trem de todas as tardes da janela da fazenda.
O texto solicita a resposta ativa, a recriação pela leitura,
aprofundamentos, profundidades que surgem nas camadas das releituras, pois
cada leitor é um palimpsesto, um velho pergaminho no qual os significados
vão se sobrepondo a cada novo olhar, num texto que sempre se transforma
pela ação do leitor.
Catalisador da imaginação ativa, o conto desperta o leitor para a ação (a
ação do olhar), para a busca de significados, pois “A melhor arte não é a
que se apresenta numa bandeja de prata, mas a que desperta a capacidade do
leitor para a ação” (in Nachmanovitch, Stephen: Ser Criativo, Summus
editorial,São Paulo, 1993).
Época de amores efêmeros, excesso de imagens, contribuições vanguardistas
das tecnologias, é bom retornar ao conto da palavra que segue mansamente
no mato varrido pela chuva, e nos interrompe a corrida cotidiana, para nos
lembrar que o apito do trem de ferro talvez nos queira dizer algo.
Vale a pena o leitor entrar em contato com o conto, passear nele como se
fosse igual aos amores “que terminam na mata”, tentar decifrar o mistério
da “flor de vidro”, estabelecer as conexões, desvendar o aparentemente
insondável, mas sobretudo, ir de encontro a uma linguagem poética, que
busca na simplicidade da narrativa a lapidação dos sentimentos, coisa de
orvalho passando do capim para os pés.
(02 de outubro/2003)
CooJornal no 334
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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