09/10/2003
Número - 335
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Marciano Vasques
O PÚBLICO NÃO É OTÁRIO!
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Aviso aos navegantes: O público não é palhaço, muito embora a comparação
seja imperfeita, pois o palhaço é um extraordinário profissional que
encantou a minha infância de poucos, mas inesquecíveis circos: Arrelia,
Piolim, homens que embelezaram a minha infância com raras aparições, nas
quais com a simplicidade de suas palhaçadas, me punha em riso largos e
longos. Piolim: lembro apenas da menção do seu nome.
Talvez fosse mais adequado dizer: o público não é otário.
A televisão surgiu em minha casa na noite em que minha irmã desembestou
gritando meu nome, procurando por mim em toda parte, e justamente lá
estava eu assistindo a tevê na casa de um amigo quando ela entrou em
disparada: O pai comprou a televisão!!!
Surgiu para divertir a família, impôs-se dramaticamente substituindo as
conversas serenadas nas varandas. Deixei de correr como toda a meninada
para não perder um segundo que seja de “Juvêncio, o Justiceiro do Sertão”,
que passava todos os dias na Piratininga. Não queria mais o rádio como
antes, apenas a televisão e não via a hora de chegar o fim do entardecer
para assistir ao primeiro programa infantil. Depois vinha a Caravana, e
depois a Bonanza.
Lembro-me das primeiras visões da família reunida na sala diante da
televisão. Minha irmã no chão, eu também, minha mãe, meu pai, todo
orgulhoso por ter dado à família aquele presente. E o silêncio se impunha.
Mas havia o respeito. A televisão era respeito.
Depois o tempo foi sendo transformado, conquistas foram deturpadas, e
chegamos ao final do XX, estagnados na cultura da tela pequena.
O que era só alegria e diversão, lazer domesticado, caseiro, foi pouco a
pouco transformando-se num arsenal sem ética, numa agressão gratuita, a
família foi perdendo o sentido diante da tela, o império das bundas
substituiu o bom senso e a diversidade cultural que tentava educar, mesmo
que às vezes conservadoramente, nos dias em que papai sabia tudo.
A televisão se foi, lentamente agonizando, até tombar no palco do recém
–inaugurado XXI. E cá estamos, senhor Gugu. Que pena...
Para alguns “cérebros”, que entendem muito de audiência, parece que
televisão é sinônimo de besteira. Não é. Ao contrário, nasceu sim, para
ser fonte de lazer, de diversão familiar, mas também para educar, para ser
um instrumento poderoso na agilização da informação, moderno e conivente
com a mentalidade da época. A televisão precisa de amor!
Quando o apresentador de programa de auditório transforma o que realmente
poderia ser um domingo legal numa enxurrada de besteiras, para não dizer
baixarias, ou, para não exagerar, quando permite que o público seja
novamente feito de otário, ao exibir matéria sensacionalista e mentirosa,
ficamos temerosos e nos sentimos reféns da necessidade de uma ampla
campanha nacional pela retorno da ética. Pela salvação da televisão.
É claro que não apenas o público familiar foi ofendido, claro que não
apenas o público caseiro, mas também, e principalmente, todos os
profissionais do jornalismo e das comunicações.
A maior agressão foi exatamente contra os que exercem com amor e fé o
verdadeiro jornalismo, foi contra cada profissional da comunicação, que
viu a sua profissão ser zombada, ser brutalmente manchada justamente no
ainda maior veiculo de comunicação da contemporaneidade.
Autênticos jornalistas, honestos profissionais que querem com o seu
idealismo sincero levar ao público leitor ou televisivo as informações
corretas para que cada cidadão seja inserido no mundo, para que cada um
possa se sentir parte da época em que vive, para que cada um possa ter a
confiança da segurança de informações verdadeiras, e assim então poder
exercer o seu papel de sujeito crítico e atuante.
A profissão chamada jornalismo é gloriosa, senhor Gugu. Ela tem história a
preservar. E a televisão precisa ser um veiculo respeitoso, criativo e
honesto, para que adquira credibilidade, e possa entrar em todos os lares.
Que coisa estúpida! Não importa de quem tenha sido a culpa, se da
produção, se da própria emissora, é claro que cada um vai tentar jogar a
culpa para o outro, mas foi feio.
Quem comanda um programa na televisão, qualquer tipo, jornalístico, de
debate esportivo, show, não importa o tipo do programa, mas quem comanda
precisa ter a consciência da sua imensa importância. Isso não pode
acontecer mais.
Quem permanece horas diante da televisão quer viver momentos felizes, e
certamente não tem condições para estar num cinema ou num teatro ou
viajando ou lendo um livro e escolheu a televisão para preencher as suas
horas de vida. Merece respeito, merece carinho, merece atenção. Não pode
ser feito de otário.
A televisão não suportará outras manchas assim, melhor cuidar dela, e
pensar não apenas na audiência, pois afinal ela virá tranqüilamente com a
qualidade.
Bem, que tenham todos um domingo realmente legal e que ninguém se esqueça
de um detalhe: o público não é otário.
(09 de outubro/2003)
CooJornal no 335
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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