13/11/2003
Número - 340

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Marciano Vasques
  


DEPOIS DA DESPEDIDA


 

 - Estou positivamente bem, posso continuar seguindo o meu caminho?

Foram essas as últimas palavras do Tom. O médico perguntou: “Como você está?”. Ele respondeu.

A vida do Tom é muito maior do que possa ser imaginada. É, porque ela continuará se expandindo em todos os que acreditam na possibilidade concreta de uma sociedade na qual o humanismo possa existir em sua mais autêntica expressão.

Tom era um humanista. A sua história teve uma trajetória limpa e coerente. Quando padre, foi responsável pela vinda de padres progressistas para o Brasil, ou seja, aqueles que lutaram para que a igreja passasse a ter uma posição mais avançada em nosso país. Tom, o padre Soares, contribuiu muito para o surgimento dessa igreja.

Entre os gritos de saudações que ouvi em seu enterro, um deles foi curioso: - Viva os padres progressistas!

- Viva!

Depois decidiu abandonar a burocracia da igreja e casou-se. Constituiu família e continuou o mesmo humanista, porém não mais no cristianismo.

Tom, militante político, homem generoso, tornou-se querido e amado.

Seu velório foi tão bonito! Alguns momentos altamente significativos, como quando um pastor da igreja Assembléia de Deus também quis prestar a sua homenagem. Isso é algo de profunda importância. Um pastor evangélico cantando numa homenagem a um comunista.

Depois outros tantos momentos, como o casal Dirce e Santos cantando “Naquela Mesa”, e uma mulher cantando uma música sertaneja em homenagem aos enfermeiros, canção dedicada ao meu amigo Nilton Dourado, duas próteses na perna, cuidou do Tom durante seis meses.

Um relatório médico diz que, entre 1200 pacientes, o Tom foi o que recebeu o maior carinho, foi o mais bem cuidado.

Outra mulher cantando. Uma budista cantando uma parte da nona sinfonia de Beethoven, a sinfonia nº9 naquela voz inesquecível.

Quanta coisa bela há por aí.

Também o momento do Hino Nacional, a comovente melodia do nosso hino, tão belo em sua melodia, sempre a me emocionar.

Quem sabe um dia a letra encontrará um sentido e então, entre outras coisas, o gigante pela própria natureza estará deitado eternamente em berço esplêndido.

Se bem que sou um tanto leigo para compreender o que significa ficar deitado eternamente, mas é belo dizer que o Brasil está iluminado ao sol de um novo mundo. Acredito nesse novo mundo, que há de surgir quando a força africana e a força americana se encontrarem. Talvez uma nova mitologia surgirá, a mitologia da liberdade, o encontro definitivo do índio com o negro, formando o colorido maravilhoso que encantará o mundo, numa visão esplendorosa.

Na manhã seguinte o chamado culto ecumênico, ou seja, a missa improvisada por um padre católico. Outro belo momento.

Depois, já no cemitério, a cerimônia de despedida, ao ar livre, embaixo das árvores, sob o sol, como deve ser, do lado de fora da capela, e as palavras dos amigos em sinceras homenagens.

Aprendi com um filósofo, que o filósofo pensa na vida, é para a vida que a sua filosofia pulsa, o verdadeiro filósofo não pensa na morte. Assim também, para mim, é o poeta. Ele e sua poesia, deverão estar sempre direcionados à vida. Só a vida interessa!

Por isso, volto a pensar no vinho da vida, porque ele me leva aos camponeses que dançavam. O vinho e a dor são duas condições da vida.

Acho estranho uma pessoa dizer que não gosta de vinho, sem apresentar um motivo concreto, ou seja, um motivo orgânico.

Sei que ninguém é obrigado a gostar de nada, nem de música! Mas é estranho. É muito estranho.

Como pode ver, Tom, já estou falando das coisas da vida. A tristeza não pode continuar, ela tem que ser decepada com um golpe decisivo. Afinal essa é a minha militância, um cântico à vida.

E como disse há pouco, só a vida interessa.

Fico feliz quando encontro alguém que gosta de vinho. Parece um religar, um reencontro do ser com as suas origens.

Estou tentando me levantar, não é, Tom? Acredito que o mesmo deve estar acontecendo com todos os seus amigos, pois afinal é depois da despedida que fica um véu de tristeza querendo sobreviver, pois a gente não se acostuma facilmente.

Mas quando um ser amado se despede de nós, a gente fica assim mais forte e quer usar o novo acréscimo de força para continuar vivendo, e vivendo passa a ter o significado de luta.

Lutar, lutar, lutar! Incansável luta! Gloriosa luta...

Não posso deixar de registrar aqui o novo encontro com o meu amigo Flávio, que jurou jamais comprar um carro novamente, pois não consegue esquecer de quando comprou um Fiat e o que a polícia fez com ele, pois na região em que morava, um negro aparecer com um Fiat, para a polícia era uma afronta.

Flávio continua magoado, diz que um dia vai provar para este país que um negro também é gente, não animal.

Viu, Tom? Na sua despedida encontrei velhos bons amigos.

Vamos em frente, que depois da despedida, a história continua.



(13 de novembro/2003)
CooJornal no 340


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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