05/03/2004
Número - 358
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Marciano Vasques
UM LONG-PLAY NA VIDA DE ALGUÉM
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Insubstituíveis são os benefícios da solidão escolhida. Para mim é uma
cortesia da memória a lembrança desses benefícios. Costumo me buscar nos
vestígios da auto-solidão. Levei comigo um companheiro: Moacir Scliar.
Diz um engenheiro de computação que a coisa está perigosa. É um grupo de
garotos que lida com o computador como um brinquedo, e sítios de bancos
estão sendo invadidos, sítios de pornografia grudam em favoritos, e a
ameaça dos vírus cada vez mais audaciosos obrigando os antivírus a uma
revisão diária para correr atrás do prejuízo. Pobre Internet! Pobre época.
A Mulher que Escreveu a Bíblia. Fui lendo desde o Metrô Itaquera, depois
no ônibus até São Bernardo. Na volta da Universidade Metodista continuei a
leitura. Quando terminei quis recomeçar em seguida.
Ainda é o livro e sempre será.
Aa valorização do livro é a valorização da palavra escrita. Em Borges ela
encontra a sua maior representação contemporânea. Mas ler significa ler o
básico, ou seja, o patrimônio da literatura universal que cada Ser Humano
precisa ler, faz parte do estar vivo, compõe o testemunho da passagem
integral pela vida.
Assim é com a música, e assim também é com o cinema.
Dá pena o massacre do excesso de leitura, da obrigatoriedade de se ler
tudo, e há muita coisa que não precisa ser lida. Bobagem ler por
quantidade.
Cada um talvez tenha que fazer a sua lista individual dos livros que
precisa ler em vida, assim como as músicas que precisa ouvir e também os
filmes que precisa assistir.
Caso contrário é ler o desnecessário, e desaprender a pensar com a própria
cabeça.
Amar e ter paixão pelo cinema não significa assistir a tudo que se produz,
mesmo porque muita coisa nem vale a pena ser mencionada, assim também na
música, e na literatura.
Que prazer ler um livro! Que maravilha ouvir uma música! Que coisa estar
dentro de um cinema assistindo a um filme inesquecível, claro que não
posso me referir ao cinema de Shopping em São Paulo, aonde uma boa parte
do público vai para comer pipoca e fazer barulho com o pacote e também
conversar. É a época.
Mas as listas são pra valer e inevitáveis, principalmente depois de uma
certa idade, como a minha. O curioso é que alguns filmes precisam ser
assistidos diversas vezes, assim como alguns livros devem ser relidos, e,
é claro, algumas músicas serem ouvidas diariamente.
Pelo menos um Long - Play é preciso em cada vida, bastaria um, preciso e
necessário. Porém cada lista é individual, pois cada vida é uma canção.
Mas algumas vozes devem fazer parte de uma felicidade pessoal. Canta
Petula Clark! Quero ir no trenzinho do caipira.
Levei um livro para ler. E fui lendo no metrô e fui lendo no ônibus e
voltei para São Paulo lendo e antigamente (tudo está ficando antigamente.)
as pessoas faziam silêncio dentro do cinema. Acho que estou ficando um
homem de antigamente.
Diante da tela do cinema. Sem o barulho do pacote da pipoca. Quem terá
inventado que pipoca combina com cinema?
Mas levei um livro pra ler, um livro de um escritor gaúcho. E o filme
brasileiro não levou nada no Oscar, não tem importância. O que importa
para um homem de antigamente é o cinema. Ó cinema, não nos deixe, por
favor!
Um livro para ler. Deixe essa garota irresponsável brincar com a
computação. Deixe o tempo passar.
Bastaria um Long-Play na vida de uma pessoa, duas dúzias de filmes pelo
menos e talvez uma centena de livros.
(05 de março/2004)
CooJornal no 358
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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