12/03/2004
Número - 359
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Marciano Vasques
A MÚSICA DAS MULHERES DE MARÇO
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Enquanto uma só oprimida no mundo houver haverá algo que nenhum discurso
de quaisquer povos poderá afirmar, mesmo que autêntico e sincero se
declare. Mas quero falar das mulheres que cantam.
Alguns homens são mulheres também. Estava em Brasília no meu carro quando
fui obrigado a chorar. Pus-me pela primeira vez uma canção muito dolorida
e ao ouvir a voz do Renato Russo cantando “Longe do meu lado” chorei no
volante olhando para a catedral. A canção triste tomou conta de mim, eu
que já tinha ouvido “A Via Láctea”. Como é possível um moço cantar tanta
dor? Então ela surgiu, a curiosidade. O acompanhamento musical de fundo
lembrou-me uma outra melodia, singela.
A canção chamada “Devolva-me” que me foi devolvida na melodia do pranto do
Renato Russo, eu a ouvi depois “naquela estação” cantada na voz de Adriana
Calcanhotto. Meu Deus! “Quero que sejas bem feliz/junto do seu novo
rapaz”. É a recuperação das formas simples da Jovem Guarda.
Então chega o dia 8 de março, e comecei a vasculhar os canteiros da minha
memória, buscar a voz da mulher. As diversas vozes, timbres encantados. E
então me dou conta de que poderia passar a velhice física que dentro de
alguns anos em mim estará, ouvindo a música das mulheres de março, ou
seja: as diversas vozes femininas que cantaram as mais doces canções que a
vida generosa me ofertou. Como é bom ouvir uma mulher cantando.
This is my song. Será que eu gostaria tanto dessa canção de Charlie
Chaplin, ou melhor, será que teria prestado a devida atenção se não a
tivesse ouvido pela primeira vez na voz de Petula Clark? Nunca saberei ao
certo, interessa-me apenas ficar na voz de Petula.
Gigliola Cinquetti cantando “Quando m’ innamoro”, as duas mulheres fofas
do “The Mama”s & The Papas” cantando “Monday, Monday” numa segunda-feira
feira que não é uma qualquer quando se trata de um 8 de março.
La partita di pallone. Rita Pavoni cantando alegremente o drama “italiano”
de mulheres que ficam sozinhas no domingo por causa do futebol.
Saudade da voz de Joan Baez. Timbre doce cantando Diamonds and Rust.
Quisera ouvir todas as cantoras que nos embalam durante a vida com suas
canções que falam essencialmente de amor.
Veinte Años. Agora é querer ouvir a voz de bolero de Omara Portuondo. O
que é da alma de Cuba sempre será, isso se aplica a qualquer lugar do
mundo.
Dulce Pontes, portuguesa, cantando “Estranha forma de vida”. Como gosto
dessa canção! Também a ouvi muitas vezes com Caetano.
No tic–tac do meu coração estou indo em frente, lembrando de outras
mulheres cantoras. Momentaneamente penso em falar das mulheres que foram
cantadas, como a Carolina e outras do universo de Chico Buarque, ou as de
Tom Jobim.
O “tango da Raquel”, que em troca de pinga um homem sofrido cantava no
tempo das ruas largas, Amanda, de Taiguara, e Ana, do Roberto. Todo tempo
que eu vivi procurando o meu caminho...
Bravo Pour Le Clown. Viva para sempre Edith Piaf. Que cantem todos os
pardais.
Mas quem era aquela cantora cantando Pierrô Apaixonado? Depois, bem
depois, noutra canção, ela me diz: “Não tenha medo”. Maria Bethânia, que
nasceu porque o irmão ouvia Nelson Gonçalves.
Três apitos. Elizeth Cardoso cantando a música que fala da fábrica. Viva
todas as cantoras que cantaram Noel Rosa...
“Ài, Moraria”. Que beleza ouvir Angela Maria. Tenho uma vontade louca de
ver essa gente no palco. Há coisas grandiosas que o brasileiro desconhece.
Penso num show com Angela Maria, Caetano, Agnaldo Timóteo, Caubi Peixoto,
essa forma de sentir reunida num único palco. É o Brasil com saudade dos
pedaços da sua alma.
Vou deitar e rolar, quaquaraquaqua. A nossa Elis, que tantas canções de
dor e de liberdade cantou, tão alegre nessa canção estava. Às vezes penso
que o Brasil nunca mais vai ter essa alegria. Mas isso é apenas um
pensamento de nuvem, pois alguns aprendizados são duros e o Brasil talvez
esteja aprendendo o que Epicuro ensinou no passado: não se encontra a
felicidade na política. Como é uma lição súbita (comparado aos longos anos
de sonhos e esperanças) fica-nos a sensação estranha de que o riso de Elis
presente nessa canção nunca mais estará nas ruas e nos corações do Brasil.
Cogitei inicialmente homenagear as mulheres neste Dia Internacional delas,
mas penso que estou mesmo é homenageando o meu coração ao recordar a
Música das mulheres de março.
(12 de março/2004)
CooJornal no 359
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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