26/03/2004
Número - 361

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Marciano Vasques
  


CORAÇÃO VALENTE NO CINEMA

 

É que o Mel Gibson tem o coração valente.

Penso agora na consciência humana. Ela cresce circularmente, em espirais. É assim que eu a vejo. Pode ser que alguém acredite que ela cresça em linha reta, verticalmente, num impulso único, lento que seja, mas sempre em linha reta. Não é assim. O seu crescimento é de translação porque ao redor de um eixo central, um núcleo.

Rotação porque ao redor de si mesma. Esse girar ao redor de si mesma faz com que a consciência esteja sempre frágil, envolta em recaídas. Às vezes os pensamentos são libertadores, às vezes reacionários. Às vezes defendem-se coisas boas que são sinais de evolução humana, às vezes defendem-se idéias que mais aprisionam o ser.

Como a consciência em espiral age sobre o ser diferentemente de como agiria uma consciência de crescimento ereto, é possível que pessoas que lidam com os saberes pedagógicos vez por outra possam se colocar em conversas de lazer em posições estranhas. Professoras podem comentar que as mulheres de uma vila de ocupação, um lugar de pobreza extrema, abram as pernas para qualquer homem, sem critérios, e com esse tipo de comentários repetir o velho ritual da própria mulher preconceituosa contra a mulher, sem se dar conta de que a cada um deve ser respeitada a sua circunstância, pois como nos lembrou o filósofo: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.

E sempre é bom lembrar que as circunstâncias materiais geralmente são adversativas.

Mais grave do que as mulheres pobres e sem “cultura” da Vila Nova abrirem as pernas pra qualquer homem e terem os filhos um diferente do outro, é um grupo de professores comentando o Big Brother numa sala de reuniões, ou contando piadas, que sempre são preconceituosas, mesmo que façam rir. Rir parece que nem sempre é o remédio ideal.

Engano: é possível um riso de felicidade. O riso da piada é algo que não satisfaz a todos.

Parece-me estranho que grupos evangélicos tenham reservado um horário nos cinemas para assistir ao filme e que depois, após o filme, evangélicos se levantem e comecem pregações assim: “Irmãos! Vocês viram! Esse é o Cristo que sofreu na cruz por nós, para nos salvar...”.

O filme não pede isso, não solicita isso. Aliás, essa atitude é perigosa, pode levar a um empobrecimento da consciência humana, pode nublar a visão.

Tampouco o filme necessita de uma polêmica no sentido de ser declarado anti-semita ou coisa assim, pois é direto, claro e objetivo, imediatamente transparente, límpido, mostra a que veio, mostra o que quis mostrar, aquilo que justifica a sua realização, a sua existência enquanto cinema, afinal isso é cinema.

Não se deve propor debates que possam causar desvios na evolução espiral da consciência. A grandiosidade do cinema é justamente isso, juntar-se a outras formas de arte para favorecer a evolução ou até mesmo o despertar da consciência. Essa é a felicidade da arte. Essa é a felicidade do cinema.

Como o filme não solicita uma pregação religiosa, pois não é essa a sua razão de ser, soa estranho esse nublar. Seria bom se todos fossem livres para poder compreender o que o filme mostra e então cada qual contribuindo num debate maior para uma análise amplamente coletiva sobre as razões da morte de Cristo, no sentido da necessidade do aprofundamento dessa questão judaica, sem que isso possa significar, em hipótese alguma ódio ou qualquer sentimento negativo contra os judeus hoje, da mesma forma que o silêncio covarde, a omissão gigantesca da igreja católica diante do sofrimento dos judeus durante o nazismo, não deve levar a qualquer sentimento contra a igreja atual, pois estamos vivendo no presente.

Todos os sentimentos devem sempre se relacionar ao presente. Isso se aplica na vida das pessoas. O passado não deve ser parâmetro para julgamentos sobre o presente, não que não tenha importância, ao contrário, é por demais importante, pois há de se tornar um guia até para a compreensão dos agires atuais, um alerta para que os erros não se repitam, mas toda a vida deve ser equacionada em torno do que se é atualmente.

A história da humanidade se constrói sobre um edifício de erros, mas também de tentativas de acertos, e o que deve ser combatido duramente, sem fronteiras e sem concessões, é qualquer espécie de fanatismo.

O cinema é uma paixão, a sua felicidade é inconteste.



(26 de março/2004)
CooJornal no 361


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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