30/04/2004
Número - 366
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Marciano Vasques
A QUE SERÁ QUE SE DESTINA
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“Prefiro investir em livros a fazer um estande”, diz um dos editores que
decidiu não participar da 18ª Bienal do Livro. Outros também não foram
seduzidos pelo espetáculo de mais uma bienal. Algumas editoras importantes
resolveram ficar de fora. Uma delas, a Perspectiva. “A bienal recebe
milhares, mas a maioria não tem relação com o livro” eles dizem.
Quem foi ao grande evento no último feriado, participou do horror de estar
perdido no meio de uma multidão que aproveitou o dia 21 de abril para sair
de casa pensando em se distrair e ver um artista famoso, algum global, ou
como se diz atualmente, alguma celebridade. Desejos não confessos.
No feriado, filas monstruosas. Um carro demorou mais de uma hora para
chegar do Terminal Jabaquara até o local da Bienal, depois o pobre
visitante caminhou lentamente dentro de uma multidão que vagava sem rumo.
O povo quer ver artista. Geralmente o povo vai onde o artista está. A
multidão passou pelo estande onde a escritora estava sozinha em sua mesa.
Justo ela, que já tem uns 100 livros publicados, ali, naquele estande,
sentada, sozinha, diante do seu livro aberto e um pratinho com bolachas.
Ninguém quer ver escritor! A maioria quer ver gente famosa, que aparece na
tela, rostos que estão na mídia. O escritor não é um Caetano. Seu rosto
não é uma imagem, com exceção de alguns, uma minoria.
Um ou outro escritor é tratado como celebridade, outros não existem. Claro
que alguns dos solitários da Bienal depois contam histórias, mentem, dizem
que foi um sucesso, que participaram da Bienal, que a secção de autógrafos
foi uma festa; e isso é bom, a vaidade é algo precioso em todos os tempos.
Já vi autor com mais de sessenta livros infantis publicados, uma autora
respeitadíssima pela crítica acadêmica, com uma considerável produção
infantil. Já vi vários autores, que por motivos éticos não posso o nome
citar, abandonados e desprezados pelo gigantesco público de Bienal do
Livro. Pagar mico, é assim que se diz na linguagem literária.
Por outro lado, o da festa, vi jogador de futebol lançando livro e sendo
assediado pela multidão, ouvi uma gritaria e em seguida uma multidão
perseguindo um ator de um programa humorístico de televisão. Gente
correndo atrás de um astro global. Qualquer artista ou jogador que lance
um livro tem a garantia de público numa bienal, também quem lança livro de
auto-ajuda ou de esoterismo. É assim...
A Bienal, que existe em função das vendas, não é um templo da leitura,
lugar para onde só vai quem é apaixonado por livros, é um lugar de festa,
de espetáculo, de grandiosidade. Quase nada tem a ver com Literatura,
exceto os eventos paralelos, as discussões filosóficas, os debates, as
palestras, os cursos, que evidentemente não atingem a multidão.
O grande público geralmente compra, por exemplo, os clássicos da
Literatura Infantil que são mutilados para que os livros possam ser
vendidos a 1 real ou a 50 centavos. Muita gente sai com sacolas de
brindes, revistas, catálogos e até livros.
Entretanto a profecia de Marshall McLuhan não se concretizou. Não veio o
tal fim da era do livro. A produção livresca aumenta vertiginosamente. A
qualidade editorial é aprimorada com o luxo, o investimento é cada vez
maior. Em 2000 tivemos no mundo quase um livro publicado a cada 30
segundos: são dados que nos revela o poeta mexicano Gabriel Zaid. É algo
impressionante.
Quem publica quer vender. Por isso alguns ainda colocam seus autores nos
estandes para autografar, mas outros editores já compreenderam que Bienal
do Livro não é para isso, a menos que o autor seja uma celebridade.
De qualquer forma, sair de casa num feriado já é uma boa notícia. Estar
numa fila para ir a um evento assim é algo profundamente significativo em
nosso país. A televisão chamou e o público atendeu. Viva!
(30 de abril/2004)
CooJornal no 366
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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