04/06/2004
Número - 371
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Marciano Vasques
DESAFIO CHAMADO VIDA
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“VIVER É ADAPTAR-SE”
Euclides da Cunha
O impulso epistemológico que nasce com o bebê acompanha o ser humano
durante toda a sua vida. Sonhar mais um sonho impossível (Miguel de
Cervantes) talvez seja a forma de não se virar minhoca (lembrei-me de Ilma
Fontes), ter um sonho como companheiro, fazer desse companheiro um
camarada, como faz da poeira o cantador (Geraldo Vandré). Estar aberto ao
sonho, ser esse sonho parte integrante da curiosidade, manter os olhos
curiosos para o mistério do mundo, o que significa, para a abertura da
vida.
Ter os olhos para o mistério do mundo é conservá-los como olhos de
meninos: o olhar do menino é o olhar do poeta, ele vê as coisas do mundo
sempre como novidades. O mundo é a novidade que não se esgota. Adaptar-se
pode ser reencontrar esse olhar perdido no tempo da rotina das coisas.
Sentir necessidade, provocar o desequilibro, essa é a fonte da evolução,
cuja deusa mãe é a curiosidade. Então a teoria piagetiana da motivação (a
provocação do equilíbrio) faz-se notar na adaptação do individuo ao mundo,
o que não significa o acomodamento, o acomodar-se, ao contrário, significa
o enveredar do individuo na ampliação do conhecimento, ou seja, num
processo interacionista (homem e natureza) o exercício do domínio do
primeiro a partir da compreensão do mundo (da vida) como uma oferta para
uma longa conquista.
Viver é adaptar-se, mas isso significa: encontrar a felicidade na
realização do Ser, através da vivência de situações que exigem a busca de
desequilíbrios, situações que busquem a estimulação pelo ato de ser, num
caminho de assimilação (aprender a viver no mundo, penetrar em seus
labirintos, aceitar os seus desafios).
O Ser certamente desenvolverá a sua potência de construtor de si mesmo
através do cultivo da curiosidade.
A curiosidade de Piaget foi tentar decifrar, ou seja, compreender o
nascedouro, a genealogia, e mais que isso, a construção do conhecimento,
como o conhecimento se constrói, como ele é construído pelo e no Ser. De
que forma isso ocorre, e como isso afeta a vida.
Na medida em que o Ser constrói o conhecimento na interação com o meio (a
natureza, o mundo) ele se adapta: vai moldando o mundo (o conhecimento)
aos seus interesses, ao seu prazer. A alma se alimenta do conhecer, da
luz, e o Ser se realiza em sua incompletude, no sentido de que a
curiosidade (a busca do desequilíbrio) é incansável, no sentido de que o
Ser continua vivo, e isso quer dizer: continua em busca da satisfação da
necessidade. Viver é estar pleno de necessidade. Eu sou um feixe de
necessidades!
Adaptar-se é também aceitar essa condição, e assim buscar a possibilidade
de harmonia, não a harmonia da aceitação conformista de imobilidade, da
imutabilidade das coisas que são, mas a harmonia da nervura do
desequilíbrio que provoca o crescimento.
Crescimento que significa conviver com o desafio chamado vida.
(04 de junho/2004)
CooJornal no 371
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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