02/07/2004
Número - 375

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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  


 
DESAFIOS DO CRESCIMENTO
 

 

“Sinal de maturidade humana é aceitar o desafio do sofrimento”
Jacques Maritan


O desafio é olhar o outro. O processo do crescimento não é linear, mas, pautado por: intervenções culturais, rupturas, fragmentos e incidentes. “No meio do caminho tinha uma pedra”.

A criança é um ser completo, contextualizado. O seu crescimento acontece em meio a vendavais próprios da sua convivência com o outro.

No pensamento do francês Henri Wallon encontramos idéias que sustentam a argumentação de que o desenvolvimento humano está profundamente vinculado ao psíquico da criança. Nele aloja-se o material da vida que se reflete na idéia de que a criança não cresce sozinha, porém com a intervenção do outro, e o outro é mais do que a pessoa, é o próprio universo cultural, sempre em expansão.

Ilusão acreditar que ela poderá desenvolver-se por si mesma, embora haja coisas que poderá descobrir sozinha, que não precisam ser ensinadas, por ser a curiosidade natural para com as novidades do mundo inerente à natureza humana.

Todavia outras coisas –e tantas são!- só podem ser adquiridas e somadas ao patrimônio cultural de uma criança se forem, pelo outro, transmitidas.

Genética e organicamente social. Eis a gênese da inteligência para o pensador que no início do século XX fundou um laboratório destinado à pesquisa e ao atendimento de crianças chamadas deficientes:

A criança possui uma estrutura orgânica que supõe a intervenção da cultura para se atualizar. Com a intervenção cultural no dia a dia, entre tropeços, avanços, retornos, indecisões, sentimentos, como o medo e a insegurança invadindo sua pequena alma, e os acertos e erros, ela se capacita para a autonomia.

Nesse aspecto a cognição é centrada na psicogênese da pessoa completa.

A maturação do ser ocorre no sofrimento do anseio de descortinar o mundo que se apresenta como o outro, que sempre é um enigma posto para ser decifrado. Como a criança não é um fantoche, vai adquirindo a sua autonomia no enfrentamento das procelas que lançam estilhaços em seu ser ávido de crescimento. E a sua educação acontecerá saudavelmente no contato produtivo com as agruras: os eventos diários, contradições e conflitos presentes na essência da ambientação na qual ela se movimenta.

Ser múltiplo porque completo, exige uma educação ampla no sentido de corresponder às necessidades sempre gritantes nas vertentes da própria natureza: uma criança precisa ser educada cognitivamente; e também afetivamente, que é a entrada da intervenção do outro no mundo das brincadeiras, dos tesouros da língua, do faz – de –conta, de parlendas e lendas, das danças e das cantigas; e também no mundo do controle motor, da articulação do corpo, de manifestações e movimentos do organismo: a presença e a fortaleza muscular. Há que se dizer que a criança é uma estrutura maravilhosa, complexa e ampla, e a sua amplitude exige uma lapidação que vem do mundo externo (do outro) em forma universal, de unidade, a envolver as três dimensões da vida que cresce.

Educar apenas cognitivamente causa uma deformação no ser, pois o desenvolvimento do intelecto não garante a felicidade de se descobrir um ser íntegro; é pois necessário, como já dito, se educar também afetivamente, e se priorizar igualmente a educação motora do pequeno ser.

A criança será incompleta se aprender as equações matemáticas ou os conteúdos lingüísticos (no sentido apenas da escrita), sem aprender a movimentar-se ao ritmo da canção, se não tiver ouvidos para os sons da natureza e se não aprender sequer a fazer uma pipa ou a construir um brinquedo. Saltar arcos e valetas é tão importante como manipular o lápis.

Considera-se a determinação do homem fisiológica e socialmente, isso significa: o objeto da ação mental é trazido pelo ambiente, pelo universo cultural, a presença externa, o outro. Assim ele é: moldado, completado pela intervenção social e fisiológica (no sentido de que é um organismo).

Considerando finalmente que a atividade infantil se desenvolve numa expansão universal ilimitada sempre em colisão com o outro (que me lapida ao me oferecer a consciência do meu “Eu”), é possível se afirmar que o ser torna-se autônomo, ou seja, a sua maturação decorre ou se faz diante da aceitação (não passiva, mas interagente) do desafio do sofrimento.

Interagir, lidar com o desafio do sofrimento, tomá-lo em suas próprias mãos, aceitá-lo como um tesouro que pode ser aberto.


(02 de julho/2004)
CooJornal no 375


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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