09/07/2004
Número - 376
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A EXCLUSÃO DO PROFESSOR
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O certificado de validade das idéias coletivas. Isso eu não tenho. Idéias
próprias podem ser contestadas. A identificação é a do leitor. Eis uma
idéia antiga, ainda em voga em muitas cabeças “pedagógicas”. O aluno é
reflexo do professor. Sempre. Uma idéia antiga e incompatível, mas não
ultrapassada. De qualquer forma pode ser considerada uma idéia coletiva.
Muita gente acostumada a não pensar muito antes de falar afirma isso. O
aluno é sempre reflexo do professor. O sempre não cabe aí. O aluno às
vezes é reflexo do professor. Às vezes. Na filiação o mesmo pode ser dito.
Filho de peixe às vezes peixinho é.
O professor, herói anônimo, acostumou-se a ser vítima de idéias
preconceituosas ou descabidas.
É costume se dizer que o aluno bagunceiro é reflexo do professor. Essa
afirmação está no inconsciente coletivo dos que medram em anseios
ditatoriais. Defesa velada do tradicionalismo. Em bocas que em eventos da
Educação costumam falar de construtivismo, citar Paulo Freire, Rubem
Alves, e assim é.
O professor pode ser um ser poético, estar em estado de poesia, e os
alunos continuam a bagunçar na aula. O professor “deixa tudo?”
Ele não consegue trabalhar, não consegue levar em frente o seu projeto de
uma educação poética, por causa das circunstâncias. Seus sonhos tolhidos,
arrancados, ele trucidado, como a cigarra da fábula, ou como Orfeu, e às
vezes em plena sala de aula. E ainda leva a culpa. Até quanto suportará a
postura de ser o culpado de tudo? Trucidado pelo desgoverno da sociedade
atual, pela realidade brutal que estende seus tentáculos para dentro da
sala de aula. Ele vive intensamente o desmonte da harmonia cultural...via
televisão- e não apenas. As crianças vítimas do horário nobre são as que
estão na sala de aula, diante de um professor, que por mais que possa ter
um coração de giz poético, está indefeso e acuado, sem amparo, sem
estrutura, e isso é assim em plena cidade educadora.
O que se chama de inclusão pode às vezes ser exclusão.
Manter alunos com problemas gravíssimos de aprendizado e até problemas
mentais numa sala de aula de quarenta ou mais crianças ou adolescentes
agitados e desorientados, impossibilitando o professor de agir
educativamente, uma ação educativa verdadeira. Isso é inclusão?
Alunos na quarta serie que não sabem ler, que não conhecem as letras do
alfabeto..., a incompreensão do ciclo, isso é inclusão? Esperar que o
professor da quarta série reprove o aluno, pois na quarta ele será
reprovado, isso é inclusão?
E o pobre professor nem sempre tem autonomia, por causa da necessidade de
estatísticas, pois se ele não rende votos, estatísticas rendem. E elas
contestam o direito do professor ser coerente e justo com o educando.
Se tudo isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor, que
certamente em algumas regiões do país já se sente excluído faz tempo.
Professor sempre é culpado pelo fracasso escolar. Já se ouviu muito isso.
Não se deve tirar um milímetro sequer de culpa do profissional sem
consciência educadora, mas ele é a minoria. Sendo assim, se o professor
continuar com essa suposta humildade acabará virando minhoca.
A visibilidade eleitoral, a divulgação de feitos extraordinários, os
gastos com construções, os tais gastos com educação, que, entre outras
coisas, raramente passa pelo holerite do professor. Eis uma situação
entristecedora.
Seria válido e interessante se ao educador fossem oferecidas as condições
de trabalho (concretas, objetivas); mesmo que ele faça cursos, isso não é
o suficiente. Ele é o profissional que não pode ficar apenas no plano da
teoria.
Um vaso etrusco não modifica a natureza do excremento. Assim se diz. Uma
ação enérgica e eficiente, verdadeiramente saudável, que produziria um
resultado imediato e eficaz, tirando o professor de um sufoco extenuante,
seria a redução da quantidade de alunos na sala de aula. As salas assim
lotadas representam uma contradição com os discursos progressistas, que
acabam reduzidos em poeira da retórica.
Se a lotação entretanto fosse uniforme, no mínimo o trabalho do professor
seria gratificante, pois haveria uma situação decente do ponto de vista
pedagógico, se me faço entender. Quero dizer que: se as classes fossem
lotadas, mas todos os alunos pudessem acompanhar o desenvolvimento dos
estudos, o professor conseguiria um resultado plenamente satisfatório.
Mas...
Existem várias classes dentro de uma única, e a sala transforma-se numa
espécie de depósito, sendo que o professor, equilibrista, precisa se
desdobrar para conseguir dar um mínimo de sentido ao seu ideal.
Se isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor.
(09 de julho/2004)
CooJornal no 376
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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