16/07/2004
Número - 377
-
ARQUIVO VASQUES
|
|
Marciano Vasques
COISA PRA SE GUARDAR
|
|
Quando Etienne de La Boétie morreu, o seu amigo se trancou para sempre
dentro de um castelo de tristeza. Montaigne nunca mais alegre ficou.
O padre que glorificou a razão, Erasmo, escreveu em sete dias uma das mais
belas obras primas da humanidade: O Elogio da Loucura. O livro foi escrito
durante uma semana de profundas dores renais. E nasceu como o mais
poderoso remédio para o seu autor atenuá-las. Ele estava na casa do seu
amigo Thomas More.
Amizades verdadeiras, fortes e indissolúveis atravessam o tempo.
É provável que futuramente o dia do amigo irá tornar-se também uma data
com aspectos comerciais, como o dia da mãe, dos namorados, dos pais. Porém
ela terá em sua razão de existir um componente valioso, de raridade, que
merecerá ser comemorado com alegria no coração: a amizade.
Os quadrinhos são ricos em exemplos de amizades indestrutíveis. Zorro e
Tonto, Batman e Robin, Mickey e Pateta e outros tantos. Amizades que
ultrapassam o universo de interesses mesquinhos e se atiram num mundo de
aventuras. Elas ajudam a formar a consciência e a personalidade das
crianças e dos adolescentes.
O homem elegeu o cão como o seu melhor amigo. E a ele assim se refere.
Entretanto, ponho-me em conta de que talvez essa eleição tenha sido
realizada mais por conveniência do que por reciprocidade, pois nem uma
certeza tem-se de que o homem seja mesmo o melhor amigo do cão.
Talvez o cachorro possua alguns ingredientes, algumas características que
o ser humano considere fundamentais para uma “verdadeira amizade”. A
obediência total e irrestrita. A domesticação. E outras que também
signifiquem submissão.
Se o cão não fosse obediente, seria considerado o melhor amigo do homem?
Uma amizade verdadeira é rica em desprendimentos, é aberta e franca. Não
exige trocas. Não exige fidelidade, pois isso é condição inerente. Ser
fiel, todavia, significa independência e autonomia. A verdadeira amizade
liberta o outro para a sua própria grandeza. Ela comemora e se entristece
em conjunto. Nas vitórias glorifica-se e nas perdas chora-se.
Aquele que tem amigos possui um tesouro de incalculável riqueza. Um
patrimônio ético que assenta as sombras dos obstáculos aparentemente
instransponíveis. Não há na vida, além dos amores materno e paterno,
fortaleza tão desejável por aqueles que necessitam do amparo sincero de
uma amizade.
(16 de julho/2004)
CooJornal no 377
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
|
|