30/07/2004
Número - 379
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
CONTRA O ANEURISMA SOCIAL
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Hoje é fácil ser tragado. Entrar numa goela, um tronco, ser aspirado,
sugado, escorrer para dentro de um funil, um canal cada vez mais estreito.
Equilibrar-se numa frágil esteira ao ar exposta. Que a qualquer momento
romper-se pode.
Dias de agressividade. Torcidas que idiotizam a alegria do esporte,
malhação insensata deformando o sentido original da auto – estima para com
o corpo, uma legislação de trânsito que não atende aos interesses insanos
de muitos motoqueiros, escolas cercadas de violência, com salas de aulas
nas quais o professor ocupa seu tempo precioso na defensiva, igrejas
barulhentas a desrespeitar o direito alheio ao silêncio, música agressiva,
o cidadão sendo iludido pelos jogos oficiais patrocinados pelas
instituições financeiras governamentais. No país um governo sem rumo.
Vidas desgovernadas. Famílias que perderam a ponte do diálogo. Um tempo
triste.
Tempo maquiado pela televisão, pelas revistas de celebridades; muita
confusão transformando o cidadão na marionete desejável pelo sistema
obscuro.
Uma saída possível é a preservação dos referenciais interiores. O
confronto amoroso com o outro ajuda a encontrar a sua formulação inicial
na olhar pescado por eles, que preservam o significado mais profundo de
cada fase da vida.
Na infância a literatura infantil, as histórias em quadrinhos, as vozes
que narraram histórias, que resgataram poderes ancestrais: poderes da
palavra oral, sonhos, os desejos mais íntimos, mais profundos, a alma
exposta em fábulas, em contos, em causos, em lendas.
Na adolescência as vozes essenciais, e a música que se ouviu.
Os meus referenciais são de uma importância que não pode ser esquecida, e
aportam no sentido da salvação da alma diante do abismo da agressividade
típica da época.
Contra a instalação da descrença na vida, e para a preservação do tesouro
individual –antídoto contra a violência dos dias que foram ofertados para
o nosso viver-, é seguramente necessário o ancoradouro das referências
individuais.
O deslocamento do coletivo, o pedido de licença para a contemplação da
solidão, a urgente saída para o interior, para o silêncio, para o cultivo
da memória dos referenciais interiores, pode devolver o equilíbrio que
protege.
O exterior não oferece segurança nem garantia, e nos torna reféns do
coletivo, o que significa, distribui a cada um a sua cota de participação
no universo da agressividade atual.
Não importa a cada um quais sejam os seus referenciais, desde que não se
comparem nem se aproximem dos atuais. Os seus referenciais interiores
representarão a fortaleza para que possamos compartilhar de feixes de
luzes isoladas que tentam reverter o quadro coletivo das sociedades
deterioradas que sobrevivem nos escombros da razão amorosa.
Farão isso se tiverem a chance de serem içados e trazerem à tona os seus
benefícios. E representarão aos que se detiverem e por um momento
oferecerem os sentidos para uma fuga e o exercício da atenção, a saudável
oportunidade de uma lapidação, através da exposição do que para você quer
dizer: o melhor, o mais profundo de cada fase de sua vida.
Pense nas vozes que cantaram em sua vida, pense por exemplo nas vozes
femininas, as da sua adolescência. Não se importe se as canções parecerem
bobas, se apenas falarem de amor. Retome isso como algo imenso que poderá
devolver o sentido original da sua vida. As vozes femininas influem
beneficamente na lapidação do ser. São vozes dotadas de endorfinas
sonoras, analgésico aéreo que não se dissipa quando pela alma é captado.
José Lins do Rego nunca se esqueceu da sua contadora de história.
Sherazade salvou a todas as mulheres. E as vozes femininas que cantaram as
doces canções da juventude não podem ser dissolvidas na memória.do
coração.
Quando a delicadeza de uma voz for esquecida algo assustador estará
tomando forma dentro de você, algo que poderá nutrir a criatura horrível
do coletivo, o monstruoso ser da indiferença, por isso de vez em quando
talvez sejam necessários os olhos fechados, a volta para o dentro. Com
eles fechados certamente também as pipas voltarão ao azul.
O menino que brincava com o pai de esconde-esconde e dizia: Já me escondi,
e estava com os olhos fechados, ou seja, ele se escondeu lá dentro, estava
escondido dentro dele, e isso valia na sua lógica, e o pai podia fingir
que o encontrava, para que a brincadeira prosseguisse. Esse menino nem
podia imaginar o quanto tinha de razão dentro dele.
Por isso execute a brincadeira da volta para si, visite novamente o seu
interior, busque as suas lembranças mais suaves, finja que está novamente
ouvindo uma canção antiga, na voz feminina que emocionou a sua
adolescência.
Faça como eu, que escolhi a minha voz. E às vezes me pego a fingir que
ouço a delicadeza da voz da cantora chamada Martinha, que emocionou a
minha adolescência, e penso com tanta alegria que estou diante de doces
canções, como “Eu Te Amo Mesmo Assim”, “Pior pra Você, Bem Pior pra Mim”,
“Você Não Voltou”, e outras, tão singelas, mas que tanto bem me fizeram, e
que hoje, na distância do tempo, são mecanismos internos de defesa,
tesouros da adolescência guardados e a me proteger, e tanto a voz de
Martinha como aquelas canções quando ao ouvido da memória retornam, no meu
caso bem sei que são antídotos, evitam o aneurisma social.
Agem dentro de mim, como outras vozes e outros motivos, um simples objeto
que se tem como lembrança, poderão agir dentro de você, princípio de toda
mudança.
(30 de julho/2004)
CooJornal no 379
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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