27/08/2004
Ano 8 - Número 383

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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

 
CAI CAI BALÃO

 

 

Estive recentemente na livraria das Manas, em Brasilândia, na RUA DO SABÃO e lembrei-me de Manuel Bandeira. “Pequena coisa tocante na escuridão do céu”. Sim, poema que é música. Cai cai balão. Mas dizem agora que soltar balão é crime. Porque causa incêndio. Confesso-me que tenho olhado para o céu e em épocas juninas visto balões profissionais, aqueles enormes, que não me causam emoções. Balão é igual poesia, bateu os olhos (da alma) emocionou. Um verso apenas, e você está pego para sempre. Experimenta! Com Drummond, com Quintana, com o homem que vive no Pantanal, com Bandeira, com Cecília. Balão é assim também.

Algumas cores ficaram em mim pela impressão primordial do papel de seda.

Afirmar que o roxo é uma delas, posso.

Também asseguro que quem experimentou o roxo, o amarelo, o vermelho, o azul numa folha de papel de seda numa manhã de varanda e vento liso, está poetizado, o que pode significar: em estado de poesia, coisa de latência, algo que pode desabrochar ou ser cultivado um dia, dependendo das condições, das circunstâncias.

O estado de suave embriaguez da poesia não nos abandona, mesmo que estejamos em São Paulo num dia normal.

Um céu repleto de balão é como uma tarde de infância com torta fumegando, ou um livro com imagens coloridas numa manhã febril. Melhor se tiver chuva do lado de fora da vidraça.

Tudo causa a impressão de partir, mas não é bem assim.

Não se promove uma ruptura brusca. A única coisa que admite o brusco é a vida, que é por natureza assim. Porém, nós que nos amamos tanto, que nos protegemos e nos preservamos através da poesia, sabemos que linguagem policial não educa. A única linguagem capaz de educar é a do amor.

É preciso conscientizar o menino que o seu encantamento pode causar incêndio. Que o céu não é mais do balão, assim como a praça não é mais do povo, no sentido que a víamos em São Bernardo do Campo, se me faço entender, mas poderá voltar a ser no sentido do namorado.

Praça no realejo da poesia, na sua realeza.

Gosto de balão. Sou como Portinari, -(Não em talento, não como artista)-, permaneço nas coisas da infância, na minha meninice. Ele e a sua Brodowski, as brincadeiras, as descobertas, seus sonhos de circo, suas alegrias, sua felicidade. Essas coisas jamais deixaram o poeta das cores, essas coisas jamais me deixarão. E o balão está lá.

Assusta-me a linguagem pedagógica utilizada pelos educadores do povo. De qualquer forma, poder-se-ia dizer que em tal dia um grupo de pessoas invadiu o quintal e subiu até no telhado de alguém para pegar um balão, desrespeitando assim a propriedade alheia, inclusive quebrando coisas, destruindo coisas da propriedade, mas isso é outra coisa, é como a tal torcida de futebol que agride, briga, bate, machuca e até mata, isso nada tem a ver com o esporte.

Daqui a pouco soltar pipa poderá ser proibido, e considerado um crime, por causa dos fios elétricos. O progresso é uma coisa boa, mas não podemos nos esquecer da infância.

Bem, cai cai balão, aqui na minha mão. Caia lá, na rua do Sabão, pelo menos. Caia lá onde os meninos soltam papagaios, momento eternizado pelo pintor.



(27 de agosto/2004)
CooJornal no 383


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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