10/09/2004
Ano 8 - Número 385

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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

 
CELINA

 

 

Quando você passou por nós pela primeira vez na noite de 16 de agosto de 2004 plantou em cada um o sorriso de gosto festivo, espetáculo de gargalhadas.

Estava sendo levada para o berçário.

Ligamos para dar a boa nova aos outros membros da família. Celina Nasceu!

Saímos do Santa Helena como saltimbancos a colher ramos das luzes de agosto.

Depois, já em sua casa, a vi no seu quarto a dormir. Calma harmoniosa a me lembrar alguém.

A vida é um sopro, disse-me entre tangos o cantor.

Ao ver o tempo a você se apresentando pus-me a pensar no seu sorriso, quando estiver olhando uma dúzia e meia de bichinhos.

Celina Nasceu.

Veio na condição de irmã da menina que transforma mochila em molicha.

Estão algumas preciosidades no velho baú da minha memória: o pequenino pião do eucalipto com o inesquecível verde claro do chiclete, os cabelos alisados da espiga num avermelhado dourado que mais tarde lembraria Isolda; o alumínio lindo a brilhar no sol da manhã, refletindo a claridade do dia, e tantas coisas...

Tudo será seu.

Fecha os olhos e estenda as mãos. Abra os olhos. Celina Nasceu!

Quando for apresentada aos personagens que a criatividade humana criou para embelezar os caminhos infantis (um Pepe Legal, um camundongo orelhudo dizendo que já é hora de dormir, que as horas nem cabem mais no relógio) você verá quanta generosidade há no coração do artista.

E então, bem mais tarde, um poema de Neruda, as cores de Tarsila, a voz de Edith Piaf, a melodia de Wagner, Petula, Armstrong...

Tudo estará ofertado para encantá-la, para levar ao seu peito a possibilidade mágica do espanto: a coruja, a formiga vermelha, a águia, a espuma branca das águas esverdeadas se debatendo contra os rochedos em limo, e o pequeno pardal...

Depois quando você estiver adolescendo, eu, se ainda estiver por aqui, quem diria! Sexagenário, não hei de permitir que o menino se vá.

O mesmo que colhia pirilampos e abria as mãos para o verde claro da luz. Que noites que se foram...

As palmeiras em plena silhueta numa noite do luar com luz alaranjada descendo no horizonte com riscos lilases. Tudo na palma da mão cabendo.

Celina, Celina, Celina.

Febres, girassóis, bailarinas, soldadinhos, bombons, lápis...

Todas as cores, todos os gizes, num mundo que gira num espaço sem fim.

E você aprenderá que para ser feliz é preciso fazer amizade com os pinheiros, os vendavais e as cantigas.

Olhar acima da copa da árvore e ver no palco a brincar a sua Daniela.



(10 de setembro/2004)
CooJornal no 385


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br