13/11/2004
Ano 8 - Número 394
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A VILA
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O menino comeu o abacate com leite em pó e disparou-se para o campinho
onde a partida mais importante da semana seria disputada com a velha e
surrada bola de capotão, a única da vila de terra vermelha, que
transformou o seu dono no mais badalado jogador, respeitado pelos dois
times, embora corresse pouco e quase não jogava, chegando até a marcar
algumas vezes gol contra, mas o perdoavam, por causa da bola.
Tudo caía no esquecimento durante o jogo. As nuvens anunciavam um
temporal, mas ninguém percebia isso. Após o jogo todos se atiraram ao rio
e nadaram até a chegada da fome.
Alguns eram surrados quando as mães percebiam que haviam ido ao rio. Elas
proibiam por causa da água que não era totalmente limpa e trazia
micróbios. Mas eles eram aventureiros e a força do rio impedia a
obediência.
Como sempre, naquele dia, o restante das brincadeiras ao ar livre foi nos
quintais: uns armando circos com lençóis, outros construindo grandes
ferrovias com trens de latas de óleo que cortavam serras e atravessavam
valetas transformadas em imensos rios.
As meninas misturavam-se aos meninos e corriam pelas ruas empinando
pandorgas ou brincando de “esconde-esconde”, “duro e mole”, “atira latas”,
imensas rodas de cirandas, “passa – passa anel” e “abraço, aperto de mão
ou beijo”. Umas abriam as balas brancas que vinham com figurinhas. Balas
num instante dissolvidas na boca e figurinhas para sempre coladas na
memória encantada da infância.
Outros transformavam varetas e galhos verdes em espadas e travavam imensas
batalhas no final de tarde de frescor assoviando por entre os capins altos
que mesclavam verdes e dourados.
A voz do peixeiro que passava todos os dias no mesmo horário fazia com que
as mulheres se apressassem a recolher as roupas dos varais e a preparar o
jantar, e a voz do carvoeiro nos portões lembrava a todas o horário da Ave
– Maria no rádio.
Finalmente as nuvens cumpriram o prometido desde a hora do jogo no
campinho e a chuva começou.
Em cada casa, as crianças em seus quartos a brincar, vivendo as aventuras
do dia, preparando os sonhos da noite, estendendo o encantamento da vila
para a paisagem do quarto.
Com o rosto colado na vidraça da janela a menina olhava a chuva que descia
inclinada a bailar com o vento. Colocou a boneca diante do vidro e falou:
“Rosema Branca, olha a chuva lá fora como é linda! O capitão do grande
vento leva as águas para longe”.
As colegas zombavam da estranheza do nome da boneca e perguntavam onde ela
encontrou afinal um nome daquele.
A pequena nunca soube explicar, mas foi assim: numa noite de véspera de
Natal teve uma febre imensa e na madrugada ouviu os pais conversando
qualquer coisa sobre uma tal Rosema Branca.
Na manhã seguinte acordou com a cama molhada de tanto que suou. Correu
para a sala e pegou o pacote que num instante adivinhou que era o seu. Ao
ver a boneca, tremeu mais que na madrugada e abriu a boca num sorriso
gigante. A partir daquele momento nem precisou mais de “Melhoral”. A febre
pode ter sido por causa da ansiedade em ficar acordada para ver se era
verdade a história de que Papai Noel entraria em sua casa para depositar o
presente sob a árvore.
Pôs o nome na boneca.
Seguindo o costume da época, de todas as crianças do lugar saberem dos
presentes que as outras ganhavam, até o final daquele dia 25 de dezembro a
vila inteira já sabia da novidade. Uma menina ganhou uma boneca com nome
diferente.
- “Então a filha do Santista ganhou uma boneca nova!”, brincou o vendeiro
com a menina que escolhia um doce enquanto o pai olhava as castanhas
portuguesas, naquele momento inesquecível de final de ano numa venda no
jardim Lisboa.
(13 de novembro/2004)
CooJornal no 394
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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