04/12/2004
Ano 8 - Número 397
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A BALSA
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O coração do menino pulsava acelerado diante de cada placa “Ferry Boat”
que lia na margem da avenida “Puglisi” em Guarujá.
O pai desceu a Moji-Bertioga rumo ao litoral movido por um único motivo:
estar na balsa. Atravessar de uma cidade à outra daquele jeito, levando
consigo o filho. Queria mostrar ao garoto um dos lugares mais bonitos do
Brasil. Uma visão inesquecível que toda criança precisa ter antes de
crescer. Iria adquirir para o filho as emoções da travessia de Guarujá
para Santos pela balsa.
O olhar da criança necessita de patrimônios.
Nenhum pintor conseguiria colocar na tela com exatidão, por mais fiel que
fosse, a visão esplendorosa de um entardecer ali.
Aquele amontoado de embarcações como se fossem imensas gaivotas de madeira
e ferro construídas pelas mãos humanas. Navios passeando lentamente diante
da balsa enchendo os olhos do menino.
Impossível ficar ao volante esperando a travessia terminar. O pai sai do
carro e caminha com o filho até a beira para que possam apreciar com mais
carinho a beleza de um entardecer na balsa, lugar que nenhum outro se
atreveria a ser tão bonito.
Ele tira umas fotos e o pequeno encantado olha os navios, os barcos, o mar
e as cidades, uma de cada lado. E ao olhar à frente, o coração quase salta
no pensamento ao pensar para si:
- “É Santos!”
Retornam para o carro. A balsa termina a travessia.
- Pai!
- O que é?
- Faz tempo que quero fazer uma pergunta.
- Faça então.
- Quem é Rosema Branca?
O homem desconcertado responde:
- É uma história que o povo santista mais antigo conta sobre uma enorme
flor azul - claro muito bonita...
- Ela existe de verdade, pai?
- Claro que não. É apenas uma lenda, eu acho.
- E a menina?
- Que menina?
- A que virou flor.
- Onde você ouviu essa história?
- Certa noite eu perdi o sono e ouvi o senhor falar essas coisas para a
mãe. Não deu para ouvir direito...
- É feio ouvir conversa dos outros...
- É que eu perdi o sono e quem perde uma coisa ganha outra.
- Como assim?
- Eu ganhei uma conversa da madrugada...
O pai sorri.
- Sabe, meu filho, quase ninguém mais fala sobre essa história. Acho até
que caiu no esquecimento...
- Mas fale agora pai.
- Não posso!
- Por que?
- Caiu no esquecimento dentro de mim.
Os dois riem muito.
Passaram por todos os canais de Santos e riram sem parar, a risada mais
gostosa naquela tarde na baixada paulista.
Quando chegaram ao canal um, o pai olhou para o rosto do filho e
contemplou ainda as imagens que fizeram morada nos olhos do menino da
balsa.
(04 de dezembro/2004)
CooJornal no 397
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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