18/12/2004
Ano 8 - Número 399
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
CAMARÃO QUE BOBEIA A MARÉ LEVA
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Se a fundação do provérbio está no título é porque pretendo falar de uma
coisa especial em nossa vida e que a maioria deixa de lado ou até mesmo
desconhece. O cuidado. O zelo.
Atualmente nada parece ser mais precioso do que o cuidado. Mas, afinal, o
que ele é? E porque tão necessário e valioso se tornou em nossos dias?
Se você trabalha numa empresa, numa escola, no serviço público, ou
privado, e se não for portador do cuidado, se não o trouxer embutido
dentro de você, corre o sério risco de morrer na praia, ser levado pela
maré, ou então pelas ondas gigantescas que surgem subterraneamente,
silenciosamente, na maioria das vezes traiçoeiramente, como um réptil que
de sua natureza não podendo se esquivar, se rasteja na obscuridade dos
cantos ardilosos, maliciosos. Sibilando quando já for tarde para a sua
presa.
O cuidado adquire o status de dom, tal a sua preciosidade. Ele pode
tornar-se a defesa máxima que cada um necessita como um preservativo da
alma, a nos impedir que venha a abalar os pilares éticos da nossa vida o
mofo das idéias traiçoeiras emanadas do ciúme e da inveja, -tais
sentimentos humanos que às vezes parecem ganhar status de celebridade no
panteão das coisas da alma.
Mosaico de idéias, valentia extraordinária, competência, habilidades,
participação ativa na “construção amorosa do ser” nada disso parece
oferecer proteção se você não cultivar o seu mais profundo e especial
aliado: o cuidado.
Que deve ser tomado como uma bebida preciosa que favorece, ou seja, ajuda
a transformar em favo, a alegria que nasce da certeza do rompimento dos
bloqueios usuais que impedem o pleno desenvolvimento do ser.
Em qualquer ambiente de trabalho, ou de estudo, ou entre amigos, há uma
solicitação generosa dentro de cada mente para uma atenção para com o
cuidado, que não pode ser desprezada ou passar despercebida no emaranhado
das vicissitudes dos atropelos cotidianos.
Não basta apenas se cuidar da aparência, para isso as indústrias despejam
nas páginas coloridas de cada dia uma produção, um arsenal gigantesco.
Cuidar do rosto, da pele, da aparência, da superfície, e até mesmo da
saúde física é importante, mas não se pode deixar de lado uma coisa tão
básica para a sua própria sobrevivência no universo dos relacionamentos
sociais. O cuidado. Extremo, delicado lapidado, cultivado.
Faça dele, do cuidado, um hábito, pense que está numa arena prestes a ser
devorado pelos leões (e de fato, metaforicamente, está), pense que está
num partido político, isso! Pense que está dentro do universo das relações
políticas partidárias, e isso certamente ajudará e o tornará habilidoso na
manipulação, na manutenção do cuidado.
Não significa em hipótese alguma que devemos nos tornar desconfiados de
todos, e tampouco que nos devemos transformar numa ilha. Não é isso. A
confiança nas pessoas é fundamental para a sobrevivência da vida social, é
coisa principal para relacionamentos saudáveis, todavia, o cuidado
significa a cada um zelar pelo que de mais precioso tem, o sentido ético
de sua existência, e o desenvolvimento da habilidade de se desviar das
teias das intrigas que são construídas nas mentes que precisariam varrer
seus porões ou ler Spinoza, por exemplo, mas disso muito longe estão.
Mesmo que a maioria das pessoas com as quais se convive sejam boas, sempre
se corre o risco de ter no grupo uma ou outra cujo veneno, mesmo que
destilado com sutilezas, seja tão perigoso, que infiltre na alma dos
indefesos. Dos que não desenvolveram dentro de si o hábito do cuidado.
E você, apesar de generoso, de talentoso, de sincero, de transparente,
apesar de possuir uma bondade de Erasmo no coração, apesar de pautar a sua
vida pela ética, apesar de manter dentro de você em privacidade os valores
mais elementares de sua vida, apesar de expandir com a sua presença os
raios solares de sua existência fecunda, apesar de se transformar num
girassol esfomeado de luz, mesmo assim, apesar de tudo isso, se não tiver
o cuidado, poderá ser levado pela maré.
Cujos fiados aquáticos podem estar nas conversas banais, na vulgarização
de idéias preciosas, na falta de ocupação mental, na descrença em seus
poderes interiores, na falta de objetividade para com as coisas que querem
ser.
Cuide-se, diariamente, a cada momento, saiba como preservar o seu tesouro
interior. Não se deixe levar nem abater pelas mentes improdutivas que se
tornam as tais oficinas onde são produzidos os venenos, onde são moldadas
as fôrmas para que o ciúme e a inveja possam adquirir forma, e vida, ter
um sentido para si. Ou seja, o sentido da vida desses sentimentos está em
você, no mal que você aceita, no mal que penetrou em você com a sua
permissão a partir do momento em que marcou bobeira, em que se descuidou
do cuidado.
Sem o mal produzido em você, sem o abatedouro humano que tenta dissipar a
luz das coisas benéficas que você produz, a inveja e o ciúme nada são,
nada representam nem sequer têm em suas vidas um sentido que seja.
A tal oficina das mentes improdutivas que produzem as tais fôrmas são
destruídas num terremoto medonho com um simples sopro seu, o sopro do seu
cuidado. A destruição significa o retorno à sua real dimensão, ao que de
fato sempre foram desde o início: nada.
(18 de dezembro/2004)
CooJornal no 399
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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