15/01/2005
Ano 8 - Número 403
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A INFINITA CHAVE DO TESOURO INSONDÁVEL
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Somos o encontro e o resultado de três realidades da vida a nos compor. A
física, a química e a biológica. O encontro das três “ciências” forma a
vida. E a partir dela ergueu-se um império. O império de vários nomes.
Pode ser chamado de cultural ou de espiritual, por exemplo. Espírito é uma
palavra de amplo espectro semântico. E pode significar coisas diferentes
de acordo com o universo no qual se movimenta. E é uma palavra linda do
acervo humano.
A física a nos movimentar. Somos seres físicos. Nadamos, caminhamos,
corremos, pulamos, dançamos. Movimentamos nossos braços ao imperceptível
sinal emitido pela central física de nosso cérebro.
A química porque somos uma usina de transformação ambulante. O pastel que
comemos, o alimento, o açúcar que ingerimos, o caldo verde da cana, a
frutinha roxa, a carne rósea do peixe, a energia que se transforma em nós,
as transformações ocorridas em nosso organismo com os alimentos e a vida
que se processa em nosso interior. Somos mais do que uma máquina: somos
uma fábrica onde só entram os produtos permitidos para a produção da
coisa. Se comermos sabão ou ingerirmos detergente, poderemos morrer.
Participamos como seres químicos da combustão universal.
Somos biológicos porque não nos diferenciamos de qualquer ser do planeta.
A flor que se reproduz pela polinização, a semente que renasce distante, a
corça que corre na floresta, o pássaro que sobrevoa acima do lago, onde
abaixo da superfície formas de vida se reproduzem. Participamos do
complexo e maravilhoso mundo da vida biológica.Somos parte do espetáculo.
Mas há algo que nos diferencia dos outros seres. Algo que através dos
tempos evolui, algo que na profusão delicadamente harmoniosa dos nossos
neurônios brota. No reino absoluto dos feixes elétricos da nervura dos
entrelaçamentos de milhões e milhões de feixes de luz e sensitivos surgem
as emoções, os sentimentos, as vontades, os sonhos, os ideais...
E é ali, no gigantesco e medonho centro de neurônios formados pela junção
das três “almas” do ser (a biológica, a química e a física) a reproduzir a
sincronia e a harmonia do percurso universal que a maravilha de ser humano
se manifesta.
Há, em nós, todos os elementos do universo. Todos os metais, todos os
minerais, por isso, inclusive, é sábio acreditar que na própria natureza
estão as soluções, as curas e as respostas para todos os males.
Entretanto, o que nos diferencia é o infinito edifício da cultura (o
império) que em nossa mente foi erguido e que é transmitido de geração
para geração. O choro, o medo, a consciência da morte, a alegria, as
sensações diante de uma pintura, o gosto por determinado alimento, as
repressões (invenções humanas), enfim, a cultura que foi erguida dentro do
ser único.
As religiões que foram criadas, as tentativas místicas e esotéricas de se
explicar o inexplicável, ou seja, aquilo que ainda não é compreendido em
determinada época. Os tesouros da mente, acumulado e lapidado nas camadas
do tempo da evolução das coisas que passam. Tudo a compor e a resumir o
que os antigos primordiais do pensamento denominaram alma.
E assim o legado da antiguidade preservado através dos séculos, desde
Hesíodo, os pré-socráticos, os orientais, o platonismo, a patrística, os
povos do continente que os novos habitantes chamaram de América, tudo e
todos. Eis é infinita chave da sobrevivência.
É ela que abre as portas do futuro, e o futuro é uma quimera que vai sendo
devastada, o futuro transforma-se em presente pela vontade da vida que
pulsa. Mas é fortalecido pelo passado, o seu nutriente, o eterno alicerce.
Somente pisando no que era medo o homem abre o futuro, somente pisoteando
as incertezas rasga a cortina do futuro. Somente aceitando o chamado e
deixando-se seduzir pela grande mãe curiosidade, ele torna-se o grande
construtor, e em cada época, o épico de si mesmo.
Por isso a criança é preparada em sua própria constituição, em sua própria
“natureza mental”, e assim é a “alma infantil”, excessivamente curiosa. A
criança naturalmente curiosa ao extremo desvenda a sobrevivência da
humanidade. Essa é a grande generosidade infantil: e extrema curiosidade
por tudo. A criança tem todo o tempo do mundo, mas tem pressa em desvendar
os segredos da vida. A sua infância reproduz a infância da humanidade, por
isso o homem tornou-se educador de si mesmo.
Ao transmitir para a criança o patrimônio mítico, as cantigas, as
histórias criadas pelo espírito humano, ele participa da eterna
reconstrução da preservação humana.
A infinita chave é a transmissão do legado, é a vontade de romper com
todas as cortinas, todos os véus, é a preservação dos saberes acumulados,
é a transmissão do que há de mais generoso na “alma” mental, o que foi
construído sobre camadas palimpsestas – pois que é o homem senão
palimpsesto de si mesmo?-, sobre atritos, conflitos, guerras,
incompreensões seculares, medos memoriais, temores ancestrais; o que se
diz agora é que a generosidade que há na “alma humana” foi lapidada
através dos tempos numa construção que necessita do exercício do pensar
para ser compreendida.
O homem, construtor de si mesmo, é também o construtor do afeto. A
expansão da sua “alma” edificou cidades porque compreendeu num dia
distante que precisava morar, construiu foguetes porque um dia olhou para
as estrelas com um novo olhar, e construiu poesia porque um dia construiu
idiomas, e porque um dia compreendeu que pode conquistar o universo, mas o
tesouro insondável está em seu íntimo, em seu interior, dentro dele mesmo.
É dentro dele que a chave infinita abre as portas do tesouro insondável.
É por isso que um poema sobrevive através dos séculos, é por isso que a
palavra do filósofo jamais será totalmente desprezada, é por isso que o
mítico e o místico jamais devem ser esquecidos, pois ambos se referem às
fases da alma.
(15 de janeiro/2005)
CooJornal no 403
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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