29/01/2005
Ano 8 - Número 405


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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

 
CANÇÕES E CALÇADAS E TESOUROS DA CIDADE

 

 

Tens esse nome por teres sido fundada em 25 de janeiro, data em que Paulo se converteu.

Suas paisagens históricas merecem um passeio dominical. O Monumento à Independência, o Museu do Ipiranga, a Casa do Grito, O museu Memória do Bexiga, o Memorial do Imigrante, a igreja Nossa Senhora Achiropita, o Teatro Sérgio Cardoso e todos os teatros, a Estação da Luz, o belo Jardim da Luz, ao lado da Pinacoteca do Estado.

E a Júlio Prestes, atualmente sede da Secretaria do Estado da Cultura, onde já esteve o antigo prédio do DOPS, símbolo maior da repressão.

A tua Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a mãe preta, bela escultura feita em 1954 no local que foi durante décadas encontro de poetas e intelectuais e gente que refletia a condição do negro em nosso país, o largo do Paissandu, onde está o antigo bar no qual foi criado por um radialista o famoso sanduíche chamado Bauru.

Largo onde funcionou durante anos o circo do famoso palhaço Piolim. E a tua avenida São João, onde em frente ao teu histórico Paissandu, está de volta o cine Olido.

O alegre colorido do bairro da Liberdade, com a grande concentração dos imigrantes japoneses, que teve início em 1908 com a chegada no porto santista do primeiro vapor vindo do Japão.

Teus maravilhosos artistas, teu Lasar Segall, tua encantadora Tarsila do Amaral, teu poeta triste Manuel Bandeira, que um dia escreveu um poema falando de uma utopia, um lugar para onde pudesse fugir. Teu Trenzinho Caipira, a tua polêmica Semana da Arte Moderna que rasgou os véus da época e tornou-se um marco nas letras de Mário de Andrade (Para mim o teu patrono) e nas cores de Di Cavalcanti e outros pintores.

Mário, o anfitrião dos saraus, realizando a palestra “A Escrava que Não era Isaura”. São Paulo grávida de um novo dizer.

E os teus edifícios históricos, alguns que já se foram. Quem nunca viu o Edifício Martinelli desconhece um pedaço da sua paisagem, a da memória afetiva. Alguns que ainda estão em ti, como o belo e imponente edifício Itália, o lindo Copan. Quem nunca entrou no Mosteiro de São Bento? Na tua Catedral da Sé? Quem nunca esteve no Palácio das Convenções do Anhembi? No Museu de Arte Sacra, no Masp, no Ginásio do Ibirapuera, no memorial da América Latina, no Largo São Francisco...

Teus parques verdejantes, o Parque do Carmo, o Ibirapuera.

Quero agora falar de alguns dos seus compositores. Filho de imigrantes italianos, Adoniran Barbosa, nascido em Valinhos, passou a usar o sobrenome de um sambista conhecido como o “rei do chapéu de palha”. Teve as suas músicas cantadas pelo “Demônios da Garoa” (para mim o mais bonito nome artístico de conjunto musical, ao lado de ‘Legião Urbana’, o avesso do avesso do avesso - quem sabe um dia na Paulista legião de anjos se encontre com os demônios e juntos ofereçam uma serenata a ti, numa tarde chuvosa, que afinal é o teu estilo, pois foste durante décadas a “São Paulo da garoa”).

O trem das onze do homem que batucava na caixinha de fósforo tornou-se um hino da cidade que és. Quem o perder perderá o bonde da história. História de uma cidadã repleta de contradições, mas sempre com os braços abertos tal como o redentor.

Paulo Vanzolini, teu compositor querido, autor de Ronda (De noite eu rondo a cidade...), o baiano que compôs Sampa (alguma coisa acontece no meu coração/que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida são João) e o Tom Zé, que sempre dentro do tom compôs a sua linda declaração de amor.

São Paulo das canções e das calçadas, és imensa e a tua imensidão um dia há de refletir-se nas águas cristalinas do teu Tietê. Teu espelho maltratado. Um dia foste a cidade dos bondes, hoje buscas o porto do futuro.

Parece lenda, mas cresci ouvindo nas conversas caseiras meu pai sempre a dizer que “és a cidade que não pode parar”.

Todavia quem sobre ti lançar quiser o olhar da poesia, verá que és uma cortesã e podes parar num passeio ao entardecer, para que a tua beleza e o teu tesouro possam ser apreciados. Eu te amo.


(29 de janeiro/2005)
CooJornal no 405


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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