05/02/2005
Ano 8 - Número 406


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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

 
CARTAS ALAGOANAS

 

 

São Paulo, 01 de fevereiro de 2005


Prezado Senhor,

Primeiramente, quero encontrá-lo bem, assim como aos seus.

Infelizmente não posso ler o artigo que saiu publicado, pois não tenho como receber o jornal, mas fico feliz.

Sim, conhecer o povo de Maceió, poder ter estado nas ruas, ter conversado com pessoas, ter conhecido a gente de um bairro chamado Ponta Grossa, ter ouvido um pouco da fala do nordestino, para mim foi uma imensa aquisição, uma valoração do meu patrimônio intelecto&afetivo.

Em verdade já os conhecia, visto que durante vinte anos trabalhei com educação de adultos, suplência, tendo começado como Monitor (professor) de Mobral. E, em média, 70º dos educandos sempre foram nordestinos.

Em meu trabalho como educador (alfabetizador) tive a alegria de encontrar gente de Alagoas, de Palmeira dos Índios, de Maceió, de Olho d’ água das Flores... E de outras regiões nordestinas.

Mas ter estado em Maceió por uns poucos dias (cada vez me convenço de que as viagens curtas são as essenciais. Em um janeiro, fui ao Sul de Minas- Varginha - apenas para abraçar um amigo jornalista. Fui e voltei no mesmo dia) foi para mim um privilégio. Ter estado na Praça do Pirulito num entardecer constituiu-se para mim numa cena inesquecível.

Verdade que perguntei para alguns alagoanos o significado do nome da praça, que deve, penso, estar ligado à alegria, um tipo um circo, algum palhaço, algum vendedor de pirulito, enfim, mas as pessoas não souberam me contar.

Sim, concordo sobre os políticos. É em verdade uma questão cultural, colonial, depredadora, de se levar vantagem sempre e de exploração da boa fé e da bondade de um povo maior.

A utilização do bem público, dos recursos financeiros para acúmulo de riqueza pessoal é uma apropriação, um crime. Esse tipo de coisa tem me afastado da crença na política nacional, visto que ela é um modelo de distanciamento da ética, cujo próprio entendimento está confuso.

A natureza da política está deformada. O seu distanciamento da ética parece fazer parte de um modo de ser contemporâneo.

A estupidez do ministro e a forma como a coisa se desenvolveu, isto é, sem uma punição exemplar, é mais um exemplo de que aos políticos tudo parece perdoável, pois afinal parece que se dá o nome de gafe aos erros (estúpidos) dos ministros e poderosos, o que em se tratando do cidadão comum seria um crime de racismo e coisa assim. O compromisso com a ética deveria começar na fala do político, que afinal é um bem público, assim como a fala do artista, por isso me incomoda artista popular fazendo comercial de cerveja. Um pagodeiro popular ajudando a vender bebida alcoólica é problemático e vergonhoso, visto que o público da sua música é também juvenil e até infantil.

Concordo plenamente. O nordestino é o povo amoroso que devia ter a oportunidade de nos ensinar a todos. Aprendi muito com esse povo, coisas que não aprendi nos livros, além de ter sido um nordestino que em 1979 tremia ao segurar um lápis (um objeto muito delicado para ele à época) que me mostrou (ensinou-me) quem foi Patativa do Assaré, Cego Aderaldo e outras coisas da cultura do nordeste. Jamais esqueci o nome de Francisco Moreira de Holanda. Deve ter voltado para o nordeste. Espero.

Finalizando. A visão distorcida típica do sudeste (sem generalizar, claro) sobre o nordestino ajuda a compor a burrice da elite. Que só é elite no nome, pois a verdadeira elite seria formada de leitores e verdadeiros apreciadores da arte, e difusores dos valores consagrados pela ética.

Estarei sentindo saudades de Maceió.

Um abraço.

Marciano Vasques



(05 de fevereiro/2005)
CooJornal no 406


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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