12/02/2005
Ano 8 - Número 407
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A NECESSIDADE E A UTOPIA |
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“O que transformou o mundo não foi a utopia, foi a
necessidade”
José Saramago
Da narrativa oral da Alemanha foi recolhido um caso de utopia. Duas
crianças são por seus pais na floresta abandonadas. Pais que passam por
privações terríveis. Para que os pequenos de fome não morram, eles os
largam na mata.
Os irmãos encontram uma casa feita de doces. Tudo nela é feito de
guloseimas. O telhado, as paredes. Pirulitos, sorvetes e doces de todos os
tipos.
Em circunstâncias de desespero aparentemente instransponíveis o humano
inventa utopias. Quando se torna flagelado pela fome e pela miséria
absoluta e diante de situações calamitosas e sem saídas, torna-se utópico.
Cria em sua mente coletiva as utopias.
Há na história humana os incontáveis exemplos. Lugares paradisíacos
banhados por rios de águas cristalina, terra onde o coentro eliminará a
fome, salsichas caindo das árvores, rios caudalosos e casas feitas de
doces.
Nas histórias e nas lendas deparamos-nos com diversas utopias que podem
não ser vistas como tais. Casar com um príncipe e viver como uma princesa
num reino encantado é uma forma de utopia da alma humana, presente,
sobretudo nos contos de fadas.
O bebê quando nasce não sabe nada de utopias, que não é uma idéia inata,
um arquétipo da mente humana, como não são outras idéias, quaisquer que
sejam, todas edificadas em camadas como palimpsestos na alma. São
construções culturais. A maioria surgida da necessidade primordial.
O bebê procura instintivamente o seio gigante da mãe. A criatura que se
apresenta diante dele, puro ser sensorial é na realidade um gigantesco
seio à sua disposição. Isso é necessidade, é por ela que ele sobrevive,
porque procura o seio, essa é a sua motivação para a vida. Se de utopia
nos seus primeiros dias vivesse morreria.
As satisfações das necessidades vitais representam a condição imediata de
sobrevivência. Você sobrevive porque é feito de necessidades. O dia que
não mais as tiver com certeza morrerá, ou melhor, já terá morrido. É a mãe
da vida, no inicio representada pela figura da fêmea.
Fêmea feita de leite e de afagos que implantam a necessidade de afeto e de
carinho. Fêmea a levar na boca o alimento para o filhote. A necessidade se
apresenta como fêmea.
Quando as necessidades não são atendidas eis que surgem as utopias, não
como substitutos, mas como atenuantes, paliativos, galhos onde o humano
possa se agarrar para sobreviver na árvore da vida, que de frondosa passa
a flagelo, a desgraça, a abandono, a esquecimento.
Um caso de utopia contemporânea: o humano das utopias fortalecendo-se
diante da figura carismática de um governo.
Governos populistas lidam bem com isso. Apresentam projetos paternalistas
e assistencialistas que passam a atender à necessidade imperiosa de
utopias coletivas quando seres miseráveis e de condições ultrajantes não
têm condições concretas de lutarem sequer para o atendimento de suas
necessidades.
Na impossibilidade de alcance da satisfação das necessidades a mente
humana, -prodígio maravilhoso do mundo-, elabora utopias.
Mas elas podem tornar-se perigosas, pois poderiam engendrar fanatismos,
caravanas por desertos, seitas, buscas insensatas; e templos poderiam ser
erguidos sobre os destroços da natureza humana, que passaria a ser
controlada pela vontade coletiva expressa e catalisada por representantes
da dor represada.
Todas as utopias da história humana pela literatura e pela filosofia
registradas são importantes enquanto documentos do imenso patrimônio
cultural do homem. Seja a Republica platônica, a utopia de Thomas More, as
cidades imaginadas por um filósofo nos anos de prisão, a terra prometida,
os reinos além do mundo, o paraíso.
Todavia a necessidade edificou mundos. Bibliotecas foram erguidas por
causa da necessidade de se preservar a riqueza cultural da humanidade.
Livros foram censurados e queimados por causa da necessidade de tiranos de
se perpetuarem no poder.
Sabe por si mesmo o bebê que todo o progresso da sua existência está na
busca incessante da satisfação das suas necessidades básicas. O seu
intelecto manifesta-se gloriosamente em sua primeira ação cultural: o ato
de sugar.
Até ir ao cinema para se distrair faz parte de uma necessidade. A da
alegria passageira que muitas vezes substitui a felicidade autêntica, que
só pode ser alcançada no pleno desenvolvimento do potencial do Ser.
Até espalhar a dor e o sofrimento pode ser uma resposta ao atendimento de
uma necessidade que não pôde ser satisfeita no curso normal da vida: o
afeto, a proteção, a segurança e o amor na infância.
Eis duas realidades da natureza humana. A necessidade a mover o mundo. A
utopia como protagonista das forças paralisantes.
(12 de fevereiro/2005)
CooJornal no 407
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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