07/05/2005
Ano 8 - Número 419
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A MÃE DE TODOS OS LUGARES
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Os shoppings e a propaganda se irmanaram na apresentação das mães em
anúncios. Jovens, atraentes e modernas, muitas querendo ganhar de presente
um celular ou algum aparelho eletrônico ou tecnológico.
Claro que há mães jovens e modernas. Aliás, hoje o modelo tradicional de
mãe distante dos filhos tende a desaparecer. Ela vai com a filha ao
Shopping usando a mesma roupa e falando praticamente a mesma linguagem.
E claro também que qualquer mãe fica feliz ao ganhar um presente. Qualquer
pessoa fica.
Mas preciso falar de uma outra mãe, a que está em todos os lugares, a mãe
dos filhos deste solo, a construir a sua história com sangue, suor, luta e
garra.
A mãe que está nas ocupações de terra, nas vilas que são erguidas, no
enfrentamento, na audácia, na coragem e na força. Mãe equilibrando-se nos
supermercados para conseguir garantir a sobrevivência, também sentindo
orgulho de ser brasileira, sem arredar pé da bravura e da ética.
Mulheres que estão ao redor de cada um de nós, nas periferias feridas,
engolindo fumaça, na beira dos barrancos, buscando papelão, juntando
latinhas, juntando moedas para comprar o pão de cada dia.
Mulheres que desaprenderam de sonhar com um sapatinho novo para o pequeno,
que não estarão jamais no grande outdoor dos templos de consumo.
Mães nas fazendas e nos campos, às vezes perdendo a filha, às vezes
perdendo seus homens. Com seus gritos silenciosos e abandonados.
Onde estão os responsáveis pelas mães que não ganharão presentes
materiais? O que seria um problema menor, se nem um abraço poderão ganhar,
às vezes porque o filho se foi, se perdeu no labirinto medonho das ruas.
A horrível aparência da indiferença costuma se fazer de invisível, e
muitos, quando entram numa grande loja de departamento com o seu cartão de
crédito – a grande ilusão-, para presentear (sempre merecidamente) a sua
mãe, certamente esquecem das mulheres que vagam em tanques e na poeira das
ruas pobres do país.
O ideal parece às vezes uma quimera. Ninguém ousa sair por aí abraçando
mães desconhecidas, como se existisse isso. A mãe é universal, esteja ela
com o rosto traçado por fibras e linhas de uma jornada heróica de lutas e
sofrimentos, seja ela elegante e luxuosa.
A mãe favelada que oferecia o seu seio quase sem leite para a criança
faminta e olhava através das frestas do zinco para a vastidão das estrelas
e ocultava em soluços o pranto amargo das saídas aparentemente cerradas,
talvez caminhe por uma rua qualquer da zona leste com saudades do filho
que a vida embruteceu.
Todas as mães, em todos os lugares, inclusive no centro de guerras idiotas
que levam vidas promissoras. E choram o pranto mais comovente do planeta,
o da mulher que perde o fruto do seu ventre.
Todas as mães, em todos os lugares: um feliz dia das mães, da forma como
tal coisa pode ser para cada um. E seja quem for o filho, lembre-se, beijo
sincero e abraço profundo não precisa de fila de crediário nem de saldo no
cartão.
(07 de maio/2005)
CooJornal no 419
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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