25/06/2005
Ano 8 - Número 426
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ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A DELÍCIA DE SER RADICAL
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Amo profundamente os radicais. Sou um.
Profundamente porque é assim que devem ser os amores.
Amor não profundo pode combinar com o espírito da época, mas não nutre
necessidades literárias, por exemplo.
Radical aqui nada tem a ver com intransigências e intolerâncias. O radical
a qual me refiro é justamente o oposto disso.
Não é aquele que toma a palavra para si e a faz valer a partir da anulação
da possibilidade da palavra do outro.
Aqui não é a palavra agressiva, rústica, bruta. Ao contrário, é o broto no
lugar do brutal.
É a palavra serena. A doçura da persistência a se manifestar apenas com
convicção.
É guerreira sim, mas não belicosa.
Trata-se do radicalismo autêntico. Não o da opressão, o da imposição
inconseqüente que finca seqüelas na alma do outro e crava hematomas no
orgulho.
O seu estatuto é o do argumento sincero. Desprovido de paixões insensatas.
Argumento sólido, mas não arrogante. Cuja fortaleza está na dialética da
ternura, na sua capacidade de intensificar luzes e de expor a cada nova
expressão o amor que modifica.
Talvez seja preciso estar com a alma repleta de Spinoza, mesmo sem ter
dele lido sequer uma linha, e o coração encharcado de Nietzsche, mesmo sem
ter conhecido a sua vontade poética de glorificar a beleza radical. Talvez
seja necessário ainda ter dentro de si a bondade de Erasmo.
Sei que o esforço de busca é extenuante quando o tesouro está em nós.
Seria mais fácil se estivesse apenas no exterior. Se não significasse a
urgência do abandono da alegria insípida pela procura da felicidade
genuína, a busca de um espelho lacustre na alma, que pudesse refletir até
que ponto tem sido cumprido o chamado que desponta na rotina, a mesma que
provavelmente exija um mapeamento.
Ás vezes até confundo um pouco as coisas quando me deixo conduzir pelo
olhar que em minha alma se expõe. Por exemplo, quando pensei que fosse o
arco-íris refletido nas águas da Guanabara e era óleo diesel.
De qualquer forma, é difícil controlar o olhar radical acostumado a ver na
simplicidade das coisas o ensaio da felicidade.
“Escrevia” esta crônica quando me dei conta e estava na Liberdade. Passei
da estação.
(25 de junho/2005)
CooJornal no 426
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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