
21/01/2006
Ano 9 - Número 460 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
CRÔNICAS DO MEU CORAÇÃO
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Meu querido, minha querida, meu querido amigo, minha querida amiga, aqui
estou com a crônica do meu coração. Penso que sempre foi assim: crônicas
do coração.
Fico observando tudo, em silêncio, mas o silêncio é uma forma de estar, de
ser.
O que é puro não se perde na multidão. A voz doce do vento da poesia
sempre estará protegida, preservada. E preservar é a única saída.
Recebo o e-mail de um amigo. Chama um jornalista da Folha de São Paulo de
tucano. Coisas assim. Em certos períodos, como o que vivemos atualmente, o
jornalista é chamado de tucano, noutros, de petista, e vamos indo. Isso me
incomoda tanto. A política é triste. O tempo é de política triste. Melhor
desqualificar, desmoralizar o jornalista. É sempre uma boa saída, o resto
não importa.
José Dirceu passou a noite de ano novo na casa do escritor Paulo Coelho na
França. Meu querido Ferreira Gullar, o homem que escreveu o Poema Sujo, é
chamado pelo ministério de Gilberto Gil de stalinista. Recebo uma mensagem
de um grupo de professores que estão a chamar o prefeito José Serra de
fascista.
Não estou aqui, estou na pátria da poesia.
Lembro-me de uma passeata na Praça Clóvis tarde de uma noite, para onde
terá ido aquela noite? Um grupo de pessoas carregava o Lula, uma coisa
estranha para mim. Fiquei angustiado com aquilo. Ainda vivia encantado, e,
bem, o encantamento agora se dissipou totalmente. Mas não vivia encantado
com aquilo, com a transformação de uma pessoa em algo que era necessário
para a consolidação das forças esquerdistas. Vivia no processo de
encantamento com as noites do Brasil e com tudo o que a arte poderia
fazer, embora não tivesse isso claro dentro de mim, não havia ainda o
amadurecimento interior para que pudesse compreender a arte em toda a sua
excelência, e a explosão interior de felicidade diante dos desenhos do
Henfil, das falas da Mafalda, das canções do Chico, das canções da América
latina, do Plínio Marcos, tudo promovia um vendaval incógnito dentro do
meu coração, tal que era o nascedouro das crônicas do coração. Porém eu
supunha inocentemente que o encantamento era com a política, mas não podia
ser. A política foi apenas a ilusão necessária para que eu viesse a sofrer
tanto agora. E tudo é uma passagem, para uma outra fase, uma coisa
grandiosa, resplandecente, na qual a poesia há de se firmar e se impor, e
o retorno ao que é simples, ao que é em – si, isso será inevitável.
Vivo a afirmar para a surdez que é necessária uma nova reforma do
entendimento. A sociedade precisa dessa reforma, ela é tão urgente como
foi nos dias de Spinosa. Uma reforma do entendimento, principalmente entre
os intelectuais, os tais, porque não são todos iguais, nem todos pensam da
mesma forma, e nem todos são alienados ou demagogos. Alguns honram o
titulo de intelectual. Mas é necessária uma reforma do entendimento, e bem
que a professora da USP poderia patrociná-la, mas a política infelizmente
atrapalha tudo.
Como é possível que Ferreira Gullar, uma dos nossos queridos lúcidos possa
ser tratado assim? Da mesma forma, como é possível que um jornalista não
possa manter a sua coerência e independência de pensamento?
Como é possível viver uma época tão triste?
Se fôssemos fazer o inventário de nossa época encontraríamos os
responsáveis por nós termos chegado a esse abandono do espírito crítico.
Que desmanche...
Sim, eu não queria estar amargo como boldo, eu queria retornar na leveza;
apenas envolvido em alma e coração com a poesia, a que me destino, mas é
difícil escapar ileso, é difícil não ser coerente e honesto, é difícil não
me manifestar.
Um é chamado de fascista, outro de stalinista, outro ainda de tucano. Que
triste época Gil! Que triste época, escritor!
O povo está vivendo melhor na lente do governo. As pessoas estão comendo
mais, ou seja, estão gastando mais com comida, estão garantindo a comida,
isso é o que acontece com uma boa parcela da população. Gastar com comida,
garantir o alimento. Então temos novelas, futebol, metáforas...
Não tenho mais ilusões com a política.
Entretanto, há pessoas humanas, boas. Fernando Gabeira, um abraço.
(21 de janeiro/2006)
CooJornal no 460
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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