
04/02/2006
Ano 9 - Número 462 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
DESPEDIDA
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A necessidade da distância é um tesouro pelo qual venho lutando como forma
de crença. A distância é um investimento tão sincero e profundo quanto o
silêncio. E assim tenho conseguido reparar nas coisas com uma atenção
adequada.
A visão real da política solicita um afastamento. O sentido ético? Não sei
por onde rolou. Os séculos correm o risco de se perderem. O meu país é um
exemplo de agonia que me assombra.
Recentemente o presidente da nação esteve no Memorial do Corinthians e
declarou a surpreendente revelação. Vai inaugurar uma nova loteria. É
disso que o povo precisa. O motivo da nova loteria é ajudar os clubes a
pagarem a dívida com a Receita Federal. O coração do brasileiro se comove
com o espírito de empreendimento social que orienta o governo da
federação.
Identidades culturais desintegram-se na milionária votação do Big Brother.
A Globo não faz nada para perder. Ponho-me a pensar nas infâncias
amputadas. Por onde andará a esperança na proclamação da República das
crianças?
A TV é mais extraordinária invenção do século. Cinema Paradiso não
resistiria. No início dos anos 60, milhões de pessoas assistiam ao mesmo
tempo Bonanza, e a RCA investia e financiava a saga da família de
Ponderosa. O motivo: era o primeiro seriado colorido e a indústria queria
através de Bonanza vender os televisores.
A distância é altamente reveladora. Nela posso observar as contradições
entre os discursos e as práticas reais, não as aparentes.
Felizes deveras então quiséramos fôssemos! Quisera pudéssemos estar em
harmonia com a vida autêntica. Mas tudo é difícil. Parece que tudo escoa
rumo ao abandono das coisas que realmente importam.
Esperando Godot, A Mandrágora, sim, tenho ido ao teatro, tenho ouvido as
canções, tenho assistido Bonanza para recordar de um tempo em que éramos.
Tenho ido ao cinema, A marcha dos pingüins, A Queda, sim, um belo filme, é
preciso prestar atenção nas coisas, e buscar sempre o discernimento.
Precisaríamos nos libertar da força do cinema Norte Americano. Ele sempre
foi assim. Nos fez acreditar no sonho da conquista do velho oeste,
transformou bandidos em mocinhos, transformou Hitler em uma criatura
odienta, medonha (que de fato causou um enorme mal), demônio, não nos deu
oportunidades para pensar, criou Rambo, assim foi com o gibi
anteriormente, o Capitão América... Sempre foi assim. Mas precisamos
sempre questionar, afinal questionar é a nossa segurança.A nossa suprema
esperança.
Não podemos nos esquecer que a loucura alemã de acreditar e buscar num
líder de massas a salvação da Alemanha causou enormes prejuízos para a
vida, porém há nisso um distanciamento imenso da falta de perspectiva de
entendimento da necessidade de se humanizar os homens, pois sempre são
frutos do meio em que vivem, um líder é fruto de sua época, e de sua
sociedade.
Intelectuais sinceros e outros demagógicos acreditam na necessidade de um
líder carismático bom de retórica discursiva para sanar os males do país.
Assim vivemos por aqui.
Sinto necessidade da despedida. Sinto que estou adiando o inevitável, a
despedida da política.
(04 de fevereiro/2006)
CooJornal no 462
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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