
11/02/2006
Ano 9 - Número 463 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A GRANDE MÃE |
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Os pais de Curupira e Caipora são os indígenas e por extensão o povo do
Brasil, os filhos das matas. Curupira surgiu quando um índio ouviu um som,
um assovio do vento entre as folhagens da mata. Aquele assovio
atravessando as frestas por entre os galhos produziu um som característico
que num processo onomatopaico criou a palavra Curupira, que nossos irmãos
sabiamente divulgaram pelas matas para assustar os caçadores impiedosos, e
funcionou, pois a criatura tomou forma e assustou, não é a primeira vez
que isso acontece, de o vento ser metamorfoseado. Quando alguém um dia na
Fenícia contemplou admirado o vento nas revoltas ondas do mar chamou-o de
Espírito de Deus, assim como o diabo surgiu de um risco de fósforo; a
palavra lúcifer que é fósforo transformou-se na designação de um ser. Um
risco de fósforo como uma estrela cadente transformou-se em algo tão
medonho. Bem, o Curupira entre as folhas passou a ser temido pelos homens
cruéis. Qualquer um que se dispusesse a caminhar pelas matas podia ouvir o
sussurro entre as folhas: curupira. A mãe do Curupira é a imaginação de um
povo.
A filiação materna do Curupira me levou ao pensamento reflexivo sobre uma
dádiva que é propriedade humana.
A imaginação é a grande mãe, a que verte o leite da vida. Quando menino em
meados dos anos cinqüenta me via a correr pelas trilhas dos eucaliptos não
tinha a noção de que a vida é cíclica. Fui pego pela imaginação, mãe e
salvadora de todos os meninos. Só retornava para casa quando sentia fome,
e como havia uma outra fome, a que podemos chamar de espiritual, o dia nem
passava de tão longo e distraído no eucaliptal. Tudo era uma bela
brincadeira de viver, e vivíamos a meninada a correr.
Cada arbusto era um esconderijo.
O pai retornava com sua bicicleta trazendo os jornais. Eu, com seis anos
de idade aprendendo a ler com as tiras de quadrinhos. A imaginação não
estava mais apenas no velho casarão da velha Margarida do velho Otávio,
não estava mais nas ruas marginadas por ameixeiras repletas de ameixas
amarelas, não estava mais apenas nos girinos que navegavam com suas caudas
pelas águas inesquecíveis que refletiam os raios matutinos. Estava a
partir de então nas páginas de um jornal onde o nanquim expunha o encanto
de participar de uma longa e interminável aventura.
Interminável porque quando eu não mais estiver aqui outros meninos estarão
e a humanidade não tem jeito, seguirá a sua natureza de fazer caminhos.
Com a leitura dos quadrinhos em jornais veio um prazer de natureza
encantadora para os olhos e foi uma passo encontrar no chão de uma feira o
primeiro gibi, do Reizinho, e aquela manhã abriu as cortinas para o mundo
da imaginação.
Depois a leitura como um terremoto e cada personagem tornando-se o mais
notável exemplo de felicidade.
Bem depois não escapei do carisma do Brasinha, aquele lindo diabinho que
as crianças privilegiadas adoravam.
Então veio o Fantasma, o inicio de uma espiral que me conduziu a Jorge
Luis Borges e a Roberto Carlos constituindo-se no enigma lendário.
Entre os movimentos das pernas correndo num final de tarde de céu
avermelhado e a quietude pulsante de um coração lendo os gibis
delineava-se a poesia.
Às vezes sinto-me apenas homem e partilho dessa angústia solitária,
noutras vezes reencontro-me na paz de conjugar o menino e isso beneficia
meu organismo mental, recuperando-me na força de conviver com a
sobrevivência.
A grande mãe é a imaginação e a ela devo o que sou e serei. É incrível
como precisa ser modelada! Ser lapidada ao nos tornarmos adultos, ou seja,
precisa ser aperfeiçoada e conduzida até que ser torne a grande auxiliar
de um trabalho prazeroso, como o de um novelista, um artista, um
roteirista, e não atrapalhe a vida se não for esmerilhada, pois pode nos
trazer prejuízos incalculáveis. O reino da imaginação é o da infância. O
mundo adulto é por demais real, mas a imaginação não morre jamais e por
isso os inesquecíveis romances. Se a vida é mesmo um conto ligeiro, o
romance é interminável.
Os grandes prazeres da vida estão nas coisas simples, mas elas são
profundas, e delas não podemos nos ausentar nem afastar. O grande medo da
tecnologia desenfreada é que a simplicidade ceda e então a vida perderá o
seu colorido feliz.
Cada época tem o seu espírito e o da nossa é valoroso e não pode ser
ocultado nem desprezado, sob a pena de não se viver integralmente. O nosso
espírito é que nunca se alcançou extraordinário progresso e bem estar e
isso é resultado do avanço científico que ainda convive com as
superstições que são o fruto e a conseqüência da imaginação mentalmente
atrofiada, a qual não se cuidou, sobre a qual o cuidado não influenciou,
não houve o zelo necessário.
(11 de fevereiro/2006)
CooJornal no 463
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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