
25/02/2006
Ano 9 - Número 465 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
NA ALEGRIA AUTÊNTICA DO CARNAVAL
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Fantasias. Talvez durante o ano tenhamos usado a fantasia da vida sem
autenticidade, que é o contrário da vida genuína, e tenhamos participado
de uma corrida medonha na qual o melhor das nossas energias foi gasta na
busca desesperada pelo dinheiro do aluguel, pela comida, e tenhamos nos
rastejados em inúmeras e intermináveis filas. E tenhamos sido forçados a
nos embalar na ilusão de um cartão de plástico a nos creditar diante da
sociedade.
Talvez a fantasia diária tenha ocultado o ser que de fato somos, plenos de
amor, com natureza generosa, de doação, de espírito comunitário, que
nascemos para a alegria. A mais pura alegria, na qual devemos vigorar, a
alegria autêntica.
Então chega a festa pagã e podemos retirar as nossas fantasias e cair na
alegria. Alegria que aos poucos vai se dissolvendo, pois o carnaval já não
corresponde mais plenamente às necessidades da alma, e nós, que durante o
ano tenhamos sido cada vez menos amorosos e tenhamos tido cada vez menos
tempo, quem sabe já não vemos o carnaval com o olhar puro de outrora.
A televisão, extraordinária invenção do século XX, a cada dia torna-se
mais forte a ponto de isolar as pessoas.
Ninguém mais se dá ao luxo de uma conversa numa varanda enluarada. E o
carnaval que no passado encantou Rosema Branca, com confete e serpentina e
os bailes de salão, o carnaval da alegria que a televisão foi formatando e
passou a ser luxo do luxo do luxo, onde estará?
Onde andará o carnaval? Falo de São Paulo, da rica cidade, da nossa
metrópole, não falo de outras regiões do Brasil, de outros estados e de
outras cidades, as chamadas "cidades do interior", nas quais provavelmente
blocos desfilem nas ruas sem a obrigação de ganhar prêmios e obedecendo
somente ao regulamento do coração.
"Cidades do interior" onde o se voltar para dentro, para si, solicita uma
renovada alegria, espontânea e sincera, na qual não é preciso a
desvalorização do corpo da mulher e a degradação da sexualidade via
banalização da sensualidade, entre outras coisas.
A época é complexa e sem direções éticas. Vejamos um exemplo amargo e
doloroso. Um artista popular que tem crianças entre os fãs, para ganhar
dinheiro faz comercial de cerveja, enriquece fazendo propaganda de bebida
alcoólica, mesmo tendo consciência (e por isso mesmo) da força apelativa
de sua imagem para vender, sem mostrar na propaganda as mulheres que
chegam aos hospitais, espancadas por seus maridos por causa do álcool, e
então, ele, o artista, participa de propaganda enganosa, pois sempre
aparece ao lado de mulheres, que são as boas da cerveja, nunca mostrando
mães agredidas, filhas violentadas. Nada disso importa, só importa a grana
no depósito bancário. Além do mais, se o fã comprar o meu disco, que me
importa o que acontecerá com o seu filho?
A complexidade da época também interfere no carnaval, tornando - o uma
fonte de lucro, de recursos financeiros. Carnaval virou um negócio como
outro qualquer. Nem sempre foi assim e ainda há clubes que acreditam numa
alegria saudável, num espaço e num ambiente onde a família possa viver
algumas horas felizes ao som de uma orquestra e onde os matinês
representam a chance de alegria, pois carnaval é só isso: alegria. Ainda
há o baile de carnaval em salões, onde as pessoas podem ouvir as músicas
inesquecíveis, as marchinhas do coração, onde as famílias podem resgatar
as suas melhores lembranças.
Sempre gostei de carnaval, sempre soube que os quatro dias oferecem a
oportunidade para todos poderem jogar fora a sua fantasia opressiva e
girar pelo grande salão entre risos e alegria, por isso sempre me
entristeci com o que dele fizeram e tentam fazer os que são guiados pelo
espírito financeiro. É hábito antigo se apoderar das manifestações de
alegria autêntica do povo e convertê-las em negócio lucrativo.
(25 de fevereiro/2006)
CooJornal no 465
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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