25/03/2006
Ano 9 -   Número 469

ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

CONVERSA É VITAMINA E PROTEÍNA
 

 

 

Da mesma forma que clamo para que seja preservado o mais antigo galope do antílope, penso que nenhuma alma deva ser machucada a ponto de esquecer a necessidade do zelo. E que os hematomas da alma não sejam responsabilizados pela edificação dos muros.

Um muro pode ser muito alto, pode ser uma muralha instransponível, e ser personificado na figura de uma avó, ou dessas pessoas que viajam ao lado de crianças sem pronunciarem uma palavra. Muitos pais agem assim. Não foram instruídos pela vida.

Olhe a nuvem! Vamos contar cachorros? É isso mesmo, tudo pra criança vale, menos o silêncio, que, no caso, é irmão da indiferença. Mas eu vejo mulheres que não conversam com suas crianças, eu vejo homens que não falam com suas crianças.

A criança não tem culpa dos adultos com quem é obrigada a viver. Hoje encontrei no supermercado uma avó rígida. A criança não podia se mover do lugar onde estavam. Pobre. Obrigada a suportar o sofrimento da convivência com essa avó.

Conversa é vitamina. Tem proteína, tudo para o crescimento mental saudável. Depois a infeliz ainda vai dizer que a criança não aprende na escola. Ora, tolhe a pequena numa rigidez idiota. A criança aprende com o olhar, com as mãos, com os poros. Mas não pode se tornar prisioneira de uma masmorra, não importa o nome que se dê à masmorra: avó, mãe, tia, madrasta, pai, tio, avô.

Há quatro grupos de alimentos. Os construtores, os energéticos, os reguladores e a conversa, também chamada de atenção. Os três primeiros estão na natureza, são concretos, atômicos, reais. Frutas, vegetais, carnes. O quarto é supostamente abstrato. E a sua função não é alimentar o corpo, não é fornecer os nutrientes necessários para o crescimento e o bom funcionamento do organismo humano, a sua função é desenvolver o espírito, a alma, a mente.

Quem nega a palavra à criança bloqueia o tesouro da vivacidade, da energia e do crescimento saudável dela. A criança é a dona da palavra, por isso ela vai para a escola, para reencontrar a palavra.

Assim sendo, creio que quando esse ser em formação tiver o contato com a educação escolar, o mundo da pedagogia - o tal relâmpago, que espero não esteja sendo puxado por um carro de boi, para lembrar figura literária medieval - , quando ela enfim entrar na escola, que tenha o privilegio de encontrar quem possa transgredir, e que essa transgressão possa ser colocar em suas mãos um livro com literatura infantil, pois se assim não for, temo que tudo ficará difícil para ela.

Caso não encontre esse alguém com varinha de condão, então o que poderá ser da pequena?

Mas se ela puder folhear um livro terá a oportunidade única de conversar com os personagens, criando assim uma defesa interior inabalável, com a qual edificará o seu próprio diálogo. Longe de pessoas que são adultos infelizes.




(25 de
março/2006)
CooJornal no 469


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-  poetas/expoentes-  023.htm
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