
08/04/2006
Ano 9 - Número 471 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
O CACHORRO MORTO
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Tinham adoração por aquele cachorro, que afinal criaram desde pequeno, quando
numa manhã de chuvisco o filhote apareceu no quintal, certamente abandonado
por alguém. Não era tão bonito e a cor de seus pêlos assim oscilando entre o
mel e o marrom, mas era uma graça e encantou solitário o casal.
Desde que os filhos casaram, eles passaram a viver sozinhos, no Jardim das
Rosas, uma vila com casas em série, como se fosse um condomínio. Os domingos
eram festivos, pois os filhos e os netos sempre apareciam para uma visita e um
almoço. Mas durante a semana, só os dois, além do cachorro, que passou a fazer
parte da família, como sempre acontece com um bicho de estimação.
Tudo ia bem, até que um dia, misteriosamente, o animal apareceu morto. Após 12
anos de amizade, o pobre bicho resolveu morrer, ou melhor, foi envenenado,
talvez porque latisse muito à noite e incomodasse os vizinhos, ou talvez tenha
ingerido acidentalmente veneno de rato que a vizinha espalhara pelo quintal
por causa dos ratos que apareciam devido a um pequeno jardim de girassóis.
Como eles acostumaram o amigão sem correntes, de vez em quando o cachorro
pulava o baixo muro, principalmente se aparecia um gato no quintal ao lado.
Mesmo que o bichano não miasse, ele farejava a presença do felino.
Acordou a companheira com uma tristeza pendurada nos olhos que ela logo
imaginou que fosse alguma coisa com o cachorro. Os dois saíram para o quintal
e do alto de seus cabelos brancos se abraçaram com profundidade.
Ele tinha as suas mitologias pessoais e tomou uma decisão: enterrar o cão num
terreno que possuía em outro bairro.
Sem querer incomodar qualquer dos filhos, quanto anoiteceu resolveu levar o
cachorro para o outro terreno. Um quintal onde fora muito feliz quando
criança. Nunca vendera a casa e embora a tivesse mantido alugada durante
muitos anos, a conservava vazia nos últimos tempos, só indo para lá de vez em
quando, sempre acompanhado dos filhos, geralmente em feriados longos. Uma casa
na periferia, no extremo da zona leste, mas que era considerada casa de campo
ou de litoral. Lá que seria enterrado o seu estimado cachorro. Ela concordou.
Como haviam comprado no dia anterior um televisor, resolveu usar a caixa de
papelão para carregar o morto.
Acondicionou confortavelmente o cachorro na caixa, embrulhou-a como se fosse
para presente, usando por sinal a mesma folha da loja onde comprara o
aparelho. Como sempre fora meticuloso, guardara o papel quase sem rasgos. Com
a ajuda da esposa, embrulhou a caixa e a lacrou bem com fita adesiva.
Ao final da tarde terminou a tarefa e após a novela saíram os dois, levando
com um pouco de sacrifício a caixa quadrada com o animal até a avenida
Campanella, bem próximo. Deram sinal ao primeiro táxi e indicaram o bairro.
Com a ajuda solícita do taxista guardaram a caixa com o falecido no
porta-malas.
Foram em direção ao Jardim das Oliveiras.
No caminho conversaram coisas fugazes, falaram banalidades, comentaram sobre o
tempo, sobre o futebol, e já em São Miguel Paulista o motorista tornou-se
quieto e assim permaneceu durante o trajeto. Em sua mente algo começou a tomar
forma.
Ao entrarem por uma rua estreita e mal iluminada, o taxista parou o automóvel.
Quando deram conta estavam com uma arma apontada para eles, assaltados pelo
próprio taxista.
- Desçam!
Desceram trêmulos e perplexos com o acontecimento. Ainda puderam ouvir o
motorista dizer alguma coisa, antes de arrancar com o veículo.
- Vou levar comigo essa televisão!
(08 de abril/2006)
CooJornal no 471
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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