06/05/2006
Ano 9 -   Número 475

ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

A RIQUEZA DE ABRIL

 

 

Contos maravilhosos atravessam gerações porque não se sujeitam ao invólucro temporal, estão além do tempo e também do espaço, cabem no ar e nas páginas, no papel e na tela. Ressurgem nas mais distantes regiões. Recontados oralmente e recolhidos por pesquisadores.

Reconstruir, cavar as palavras, tornar-se um ouvinte, o que significa: estar propenso ao encantamento. Eis a solicitude humana para a voz que narra através dos tempos as histórias maravilhosas.

Não há a mais linda, não há a melhor, pelo fato de que o espírito humano busca em espiral o aperfeiçoamento. Esse é o seu destino, o destino que se faz. O lapidar-se. A condição de ourives do ser humano origina-se no ouvido, no órgão que se aperfeiçoa para a narrativa.

Cada conto é a sua excelência, é o principal (vem de príncipe, e príncipe é um princípio), vinculado ao momento em que é lido ou narrado, bem dito. O conto oferece o seu dizer como um tesouro a ser desvendado. A magia é a condição inerente que toma forma quando o espírito humano em encanto se dissolve.

Ser bendito oferece-nos a idéia do bendizer, bem dizer significa o bom falar, a boa fala, aquilo que é adequadamente narrado, que provoca e sacoleja o coração e fundo na alma penetra, dissolvendo hematomas A boa fala está estritamente ligada à boa escrita, que significa aqui "o que se escreve para a felicidade".

Abril é o mês da riqueza, repleto de datas em seu calendário: abriga o nascimento de Lobato do Brasil, extraordinário homem que embelezou milhares de infâncias, e cuja obra dentro de poucos anos tornar-se-á de domínio público, o que coloca de prontidão alguns espíritos.

Lobato do Brasil, coração nacionalista, desgostoso com os adultos, viu nas crianças a esperança de felicidade. Para elas ergueu um diálogo ainda não superado, e abriu as porteiras do seu doce modelo pedagógico.

Do seu sítio ergueu-se a mais surpreendente voz a contrariar o espírito da época. A voz de uma boneca de pano, zelo puro para com a situação opressiva das mulheres na convivência com o ideal patriarcal em vigor. Boneca de pano Emília, voz a se consagrar ao lado das vozes femininas de Literatura Infantil Universal. Educando o mundo discretamente nas páginas literárias, ressurgindo a cada manhã nos mais distantes lugares nas vozes amorosas que preservam o tesouro inesgotável da infância.

Do sítio caboclo, no interior de um país da América do Sul, surge a voz incômoda, atrevida, inteligente, serelepe, da boneca lobatiana. Quando ela piscou para mim pela primeira vez eu segurava uma caneca quente de chocolate numa friorenta manhã.

Abril abriga também o nascimento de Hans Christian Andersen, o filho de um sapateiro que sofreu preconceitos na infância por ter sido diferente. Escrevendo contos que homenageiam os que são persistentes e modificam os próprios destinos, tornou-se pelas crianças do mundo o mais amado escritor. Na entrada da cidade onde nasceu há uma estátua da pequena sereia, pois são os dinamarqueses como os alemães: amam profundamente os seus escritores e os seus poetas.

Seu soldadinho de chumbo encantou a minha vida. Com ele aprendi que precisamos ser persistentes na vida. Jamais desistir de um sonho, por mais complexo que ele nos possa parecer. Quiséramos ser soldadinhos de chumbo, promovermos em cada um de nós travessias, enfrentarmos as procelas do cotidiano, da vida sem autenticidade, e edificarmos caminhos em horizontes intransponíveis.

A sua ética é a sua travessia, coragem e determinação. A sua decisão em não pagar ao grande rato um tributo injusto: ética universal, que cabe em cada coraçãozinho, por mais distante que esteja, em qualquer dos continentes do planeta.

A sua bela história de amor ofertada ao olhar infantil.
Quantas histórias depois nas páginas eu encontrei! Paixões arrebatadoras, amores valentes, Píramo e Tisbe, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, o amor do Doutor Jivago, mas nenhum outro nos oferta história tão bonita, singela e profunda: o amor do persistente soldadinho pela sua bailarina de papel. Leveza e tragédia, beleza e dor. Amor que supera as intempéries da vida e renasce para a condição de eternidade, e a literatura é a residência do eterno.

Eu estive ao lado daquela criança que gritava na multidão que o rei estava nu. Essa e outras tantas histórias, entre as quais a do seu patinho. Quando a ouvi pela primeira vez sob a luz do lampião demorei a dormir pensando no pobrezinho. O travesseiro de macela molhado foi um dos primeiros sinais que recebi de um mundo que me espreitava.

A criança que aponta a nudez do rei é a maior homenagem que Andersen deixou para as crianças de todas as épocas.

A sua capacidade monumental de criar histórias encantadoras a partir de situações corriqueiras e cotidianas e de objetos caseiros e familiares é algo até hoje insuperável.

Não dá para passar por abril sem pensar nesses dois tesouros humanos, principalmente porque o Dia da Educação também está nesse mês. E falar de educação sem reparar no tesouro da literatura infantil e na presença gigantesca desses autores, tratar de educação menosprezando ou ignorando a força dos contos maravilhosos é portar-se quase como a multidão que observa a roupa do rei com olhos adultos. Vê o que não está vendo.

Há contos que nasceram no muito antigamente, bem nos primórdios do "era uma vez". E como o "era uma vez" é para sempre, seus autores transformaram-se, se fizeram "memória dos povos". Para eles ergueu-se um memorial. Trata-se do memorial da infância de todos os tempos. Há outros cujos autores chegaram até nós e dois deles em abril nasceram.

Andersen e Lobato: que em suas páginas um dia possam todas as crianças do Brasil transitar livremente e felizes.



(06 de
maio/2006)
CooJornal no 475
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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