17/06/2006
Ano 9 -   Número 481

ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques
  

A praça que já foi das professoras

 

 

"Visita do Papa João Paulo II no encontro de famílias do Rio de Janeiro". Assim estava escrito em seu boné. Olhar distante, perdido, uma bengala... Estava sentado num dos bancos da Praça das Professoras, em Cidade A E Carvalho. Certamente não pensava no lixo vergonhoso da Praça, mas alguém estava pensando, e ficando doente por causa de tanto descaso e desamor. Quando o lixo começa a refletir na alma...

Praça das Professoras, ali, na Avenida Campanella, colégio Milton Cruzeiro. Ela tem esse nome porque no passado há mais de três décadas atrás um grupo de professoras ficava diariamente no ponto final do ônibus da CMTC e sempre atraía a atenção de todos por causa da elegância e do estilo. Destacavam-se entre os outros passageiros, com os finos vestidos e as roupas belamente coloridas. E a praça era limpa.

"A Praça é do Povo como o céu é do avião", assim cantou o compositor baiano, adaptando versos de Castro Alves, mas se a praça ainda é do povo, ele a maltrata. E muito. Abandono, descaso, desleixo,   falta de amor.

Um comerciante da praça jogou um saco com dezenas de pares velhos de sapato, as pessoas descaradas, vergonhosamente atiram pacotes de lixo sobre as plantas. E ninguém é punido nem sequer advertido!   A praça tornou-se sinônimo de Brasil, reflete o espírito da época, simboliza a podridão que se transformou o país a partir de seu exemplo maior que vem de Brasília, infelizmente.

Não adianta afirmar preconceituosamente que a Praça tornou-se um depósito de lixo porque São Paulo é uma cidade de braços abertos que recebe gente de todos os lugares, do Norte, do Nordeste, e dos outros pontos cardeais do país. É preciso lembrar a fábula do passarinho que leva em seu bico uma gotinha por vez para apagar o incêndio da floresta e um veado zomba dele, considerando-o um otário por acreditar que apagaria o incêndio levando gotinhas de água e o animalzinho sabiamente responde: "Estou fazendo a minha parte!". Muito bem, deveria ser assim. Mas o povo não quer saber. Como vai sentir amor pela praça se parece que estamos numa terra de ninguém? Para que amor pela Praça se as pessoas abandonam crianças e animais covardemente?

Lixo, lixo, lixo, eis a tradução mais perfeita para a Praça que já foi das professoras. E não podemos tirar um milímetro da culpa dos responsáveis pelos serviços públicos. Claro que a Prefeitura também tem culpa! Afinal a varredura diária seria uma forma de educar esse povo que tanto necessita de educação. A prefeitura não tem condições nem funcionários suficientes? É bom então falar isso nas campanhas eleitorais, para que o eleitor não fique com a falsa idéia de que tal administrador vá ser melhor do que o outro e a coisa vai funcionar. Então se o serviço público também tem a suas cota de participação na culpa, visto que deveria estar presente diariamente varrendo a praça (e gastaria a vassoura) para que tal gesto possa simbolizar a   melhor campanha educativa, pois seria um exemplo, e com certeza custaria menos que campanha em outdoor e em televisão, isso não tira, em hipótese alguma, um milímetro também da culpa popular, a mais triste e incômoda.

O cidadão também é culpado, e muito. Ele pode adorar fazer cobranças, -podemos crer nisso-, mas também não tem compromisso e tranqüilamente convive com a sujeira e o lixo da Praça. Quem não acredita, pode confirmar. Fique meia hora na praça fingindo que espera o ônibus e não sentirá um só sinal de protesto e de angústia, salvo raridades apenas com o olhar manifestadas.

Praça suja, imunda. Tudo bem, se poderia argumentar: não é Perdizes. Sim, não é, é Zona Leste, é Itaquera, por isso mesmo!

Que as consciências precisam ser sacudidas por um terremoto mental isso não resta dúvida, (precisamos destorcer o entendimento contemporâneo), mas é urgente uma atitude de passarinho da fábula, e é sempre bom lembrar Quintana: "Todos passarão, eu passarinho", e que cada um deva imediatamente deixar a covardia e o desprezo pelo bem público (O exemplo maior deveria vir lá do Planalto, mas infelizmente o poder pelo poder transformou-se no que é) e atuar conscientemente fazendo a sua parte, não jogando copos de plásticos, cachorro morto, pacote vazio de 20 quilos de ração para cães, sapatos, sacos de lixo... Enfim, permitir que a praça volte a ser um lugar agradável e não um depósito de lixo, pois é isso o que ela é atualmente. Melhor seria alguém colocar uma placa advertindo: Depósito de Lixo. Seria mais sensato e útil.

Uma observação. Recentemente a Prefeitura limpou as imediações da Avenida Caititu, onde tem uma praça ornada por árvores (plantadas por um morador que já deixou a região). No dia seguinte tinha morador jogando pacotes de lixo. Ao lado do colégio Oito de Maio, jogaram sofá velho e outras tranqueiras.

Mas a Praça das Professoras no passado era um símbolo...

Coerência por coerência, vamos sim cobrar os órgãos públicos, isso é exercer a cidadania, mas o exercício completo seria cada um fazer a sua parte. Aqui ouso declarar que o cidadão é o primeiro culpado pelo lixo chamado Praça.



(17 de
junho/2006)
CooJornal no 481
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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