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Marciano Vasques
APENAS DISCOS
VELHOS
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“Tudo depende só de mim”
Charles Chaplin
O que significa para a multidão que passa um LP intitulado “gracias a la vida”
do grupo Tarancón gravado em 1976 e exposto numa feira livre ou num sebo ou ao
lado de outros discos numa calçada qualquer?
O que significa para a multidão que passa o LP intitulado “Grávido” do
Gonzaguinha, gravado em 1984 ou o LP “Muito dentro da estrela azulada” de
Caetano gravado em 1978? Para a multidão que passa, nada. Para mim que
pássaro, tudo. As coisas significam pela vida vivida, pelo que se viveu, pelo
que se vive, pelo que se engravidou.
Uma capa de disco pode ser um belo quadro com bela moldura na parede. Depende
apenas da vida vivida em torno dele. A música nunca está sozinha.
Em 1978 estaria ainda circulando nas bancas o jornal MOVIMENTO? Em 1984
estaria o “Lindo Lago do Amor” escondido em alguma casa?
É sempre bom lembrar que na noite em que um jornalista foi assassinado, no
teatro da Fundação Getúlio Vargas acontecia um show do grupo Tarancón, o mesmo
grupo que percorria a periferia de São Paulo apresentando-se em igrejas e
salões comunitários com canções como “Parabien de la paloma” e “soy libre soy
bueno”
Quem esteve lá, naquela noite da Avenida Nove de Julho direcionou a sua vida
para um fazer poético inevitável. As coisas, elas , como partes inseparáveis
da vida, caminhavam para a literatura.
Sim! Eu desenhava. Lembro-me de que quando chegava na redação do “Notícias
Populares” era esperado, não eu exatamente, mas as tiras, elas sim importavam.
Depois no jornal “Movimento”. A ilustração aprovada em Brasília, um índio
fazendo continência. A matéria era sobre uma visita do general Ernesto Geisel
à Amazônia.
Sempre fui louco por desenhar.
Quando menino ficava horas e horas, sentado na terra do quintal, na mesma
posição, a desenhar. A criar capas de gibis imaginários, tantos heróis, tantos
títulos de aventuras, centenas e centenas a cada dia, edição nº 145, edição nº
208, e assim por diante... O desenho acompanhou-me a vida inteira. Mas a vida
segue fielmente os seus caminhos. Cabe a cada um transgredir. Transgredir
talvez seja a grande poesia. A minha forma de aventura, a minha aventura.
Pois quem se punha a criar centenas de aventuras diariamente nos rabiscos
feitos com uma varinha na terra de areia do quintal compreendeu mais tarde que
é a aventura que dá um sentido para a vida, por isso os grandes clássicos
juvenis não morrem jamais.
Um longo caminho foi percorrido até a chegada da literatura. E da literatura
feita para um grupo restrito até a Infantil foi outra caminhada.
Tudo caminhou dentro de mim e foi divertido. Sempre é, quando a alma quer.
De que forma eu poderia encontrar o outro? Na medida em que reconheço que o
outro me completa, que é no outro que nos tornamos gente, o outro passou a ser
a busca principal dentro de um emaranhado de buscas. Passei pelo coletivo,
pelo grupo, e com ele aprendi muito, principalmente a valorizar o indivíduo, a
compreender que o indivíduo é superior ao coletivo, mais importante, o
principal. Aprendi com esforço e sofrimento que se o indivíduo for esquecido
ou deixado de lado, o grupo é uma farsa, o coletivo é uma falácia, uma mentira
gigantesca.
Partidos políticos adoram o coletivo, e às vezes cuidam bem do indivíduo, mas
apenas dos dirigentes, os líderes.
Falar em partido, um assessor do PT em São Paulo recentemente deu uma aula
prática de como se comporta uma boa parte da humanidade. Tentou transferir
para o senador Eduardo Suplicy a culpa pela derrota da prefeita. Muitos agem
assim, a grande maioria. É melhor desviar as atenções, mudar o foco, fazer que
com que as verdadeiras causas sejam ocultas...É assim no cotidiano, as pessoas
tentam ocultar os reais motivos de um determinado acontecimento, pois isso
significaria investigar as causas, e as causas parecem nunca serem prioridades
no senso comum. De um modo geral se importam mais com as conseqüências, como
se elas fossem criaturas nascidas do nada, a brotar espontaneamente. A
política muitas vezes imita a vida.
O que significa para a multidão que passa uma pilha de discos velhos? Talvez
apenas discos velhos, capas e capas, uma ou outra canção na memória, apenas.
Mas sempre aparecerá alguém que terá um olhar profundo para um disco velho,
alguém que tem uma história, que sabe que um disco velho pode ser um belo
quadro na parede.
Alguém que não se importa com a multidão que passa, porque a multidão que
passa não pode compreender, pois para compreender é preciso sentir, e para
sentir é necessário que a vida tenha sido vivida. Uma canção nunca está
sozinha.
(08 de julho/2006)
CooJornal no 484
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br