
15/07/2006
Ano 9 - Número 485 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A RUA LONGA E O
CRONISTA |
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No dia 12 de dezembro de 2003, em
que me enviou os votos de um Feliz Natal num bilhete escrito no canto superior
esquerdo de uma página do “Correio do Sul”, popular periódico de Varginha, Sul
de Minas, o cronista Zanoto, o mais querido correspondente do Brasil, -como eu
disse certa vez para Ilma Fontes, ao enviar uma formiguinha-, revelou-me que
estava se recuperando de uma cirurgia no coração. Dizia que breve estaria em
forma.
No mesmo dia, em sua coluna “Diversos Caminhos” no tópico primeiro falava de
uma rua longa, “que é a rua do mundo/passa em torno do mundo/cheia de todas as
pessoas do mundo...” como havia dito Laurence Ferlinghetti.
Até as vozes das pessoas que já existiram estão na rua longa. Nós, você, eu,
P.H.Xavier, artistas plásticos, vendedores de amendoim, de sanduíches, de
bilhetes de loteria, estamos passando na rua longa do mundo”, completava o
Zanoto.
Eis uma entre tantas mensagens que não esqueço do amigo dos poetas que mora
nas páginas do jornal mineiro.
Ontem enquanto ouvia Ramblin’Rose lembrei do Zanoto, lembrei da fuga da chuva,
quando um homem e um menino corriam para a rodoviária na noite de um dia 25 de
janeiro após ter conversado com o cronista em seu apartamento.
Lembro-me da nossa conversa e jamais esqueci do “passeio maluco”, como bem
definiu o poeta de Varginha. Afinal ter saído de São Paulo e ido à cidade do
Correio do Sul apenas para ver o ilustre senhor que abriga no peito um coração
acostumado com diversos caminhos e voltar no mesmo dia pode mesmo ser
considerado uma maluquice. Qualquer outro ficaria alguns dias na cidade, mas
parece-me que as visitas rápidas, as viagens curtas são as essenciais.
Eu, que vivo em “estado de partida”, penso que a vida vale por essas
maluquices, esses encontros curtos, e sinto uma vontade de dançar ao teclado
como gostaria que acontecesse a alma de Nat King Cole, com sua voz aveludada,
com seu Ramblin’Rose. Cantos ameigados sempre me conduzem para manhãs
distantes.
Mas nunca é demais lembrar que toda luta é grandiosa e o prazer da minha alma,
ou seja, o aquecimento que o meu coração recebe com a voz fonográfica está
gravado numa luta medonha, é assim com todos, com cada um de nós, com aqueles
que decidiram por natureza a embelezar o mundo, cada qual com sua
contribuição, toda ela sempre gigantesca, mesmo que pareça apenas uma simples
semente, um fiapo de alpiste, uma gotinha de luz, um orvalho lavando verdes
distraídos.
Zanoto não brotou espontaneamente, nada brota espontaneamente neste universo
de lutas medonhas que se entrelaçam com seus chicotes de luzes e travam
batalhas inacreditáveis apenas para conseguir um espaço para jorrar as belezas
que querem ser expandidas.
Nat King Cole sofria ao ver que seus músicos eram proibidos de comer nos
restaurantes dos hotéis onde ele se hospedava com seus colaboradores. Sofreu
também quando comprou uma casa nas proximidades de Los Angeles. Os moradores
promoveram uma campanha para evitar que ele se instalasse com sua família no
bairro. Choravam todas as noites sem compreender porque os negros não podiam
morar num bairro de elite. Ele, um cantor cuja voz já ecoava nos corações dos
marujos, dos moradores e de todos os que ouviam rádio, vivia o drama de não
poder morar onde quisesse. Quando finalmente conseguiu se mudar para a casa
que adquirira com o seu próprio suor teve que enfrentar a intolerância racial
e jamais se esqueceu das lágrimas banhando o rosto da filhinha adotiva Carol
ao ler as coisas horríveis que os vizinhos escreviam com fogo na grama.
Porém isso não iria atrapalhá-lo, pois o seu destino era afinal se tornar um
dos grandes cantores românticos do mundo.
Zanoto do coração lindo, a vida é curiosa. E cá estou a escrever essas “mal
traçadas linhas” a lembrar de você e da sua trincheira, da sua batalha em
favor do poeta desconhecido desse Brasil belo e maltratado pelos seus
governantes nos séculos e séculos, e também a velar pela poesia universal.
A rua longa do mundo, bem disse você naquele dezembro em sua página, tem
prolongamento por todas as cidades. Ela cruza avenidas, ruelas, ladeiras,
boulevards...E assim vai marcando o espaço nosso neste dolorido e doloroso
mundo.
Bem queria, bem-te-li, bem queria vagar na felicidade de Lupicínio Rodrigues,
quem sabe ouvindo ainda o Xote da Felicidade, tal como ouvi certa manhã no
Parque da Água Branca, interpretada pela “Orquestra Sinfônica de São Paulo”,
ou então na gravação de Paulo Diniz que não me esqueço.
“Nada será como antes”. Mas há coisas que não se vão, pois certamente ficaram
à beira do caminho na rua longa.
(15 de julho/2006)
CooJornal no 485
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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