16/09/2006
Ano 10  -    Número 494
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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques



CONVERSA DE COMPADRES


 

 

- A gente não se dá conta, mas tudo o que se tem é porque alguém sonhou um dia. De um sonho bem pequeno nasceu cada coisa.

- Estou gostando de ouvir.

- Não bastam os sonhos compadre. Pra uma coisa existir é necessário alguém pegar no arado. Ou na caneta. Pois é tudo igual. Caneta, enxada...

- Livro...

- Isso mesmo!

- Sabe que eu nunca tinha pensado nisso?

- Mas é assim mesmo. Tudo tem o querer e a luta de alguém. Às vezes, de uma multidão. Muita gente perdeu horas de sono, muitos calejaram as mãos pra gente poder ver as coisas... Quando uma criança canta uma coisa assim tão simples e bela como "O cravo brigou com a rosa" ela não pode ainda imaginar que a cantiga que ela está cantando existe porque um dia alguém cantarolou pela primeira vez cada verso...

- Uma mamãe.

- Talvez um avô... Talvez um moço triste sentado diante de uma fogueirinha numa noite de neblina.

- É mesmo, a gente já encontra a cantiga feita... Nunca pensei nisso.

- Tudo é assim. Está vendo aquela pilha de tijolos vermelhos? Um dia um caboclo cozinhou o barro pela primeira vez...

- Então faz muito tempo isso, pois você pode ver em livros e filmes que tijolo é coisa bem antiga...

- Mas não existiu sempre...

- Claro, compadre.

- Tudo vai ficando claro depois que a gente tateia na escuridão.

- Está inspirado hoje?

- Acordei diferente. Parece que os meus olhos foram lavados com uma água diferente... E tem mais...

- Pode falar...

- Quando você compreende a alma do tijolo...

- Tijolo tem alma?

- É uma alma diferente, mas tem.

- Fale esse negócio da alma do tijolo.

- A alma das coisas é a memória de uma gente invisível...

- Complicou...

- Quando você olha para o alto o que você vê?

- Nuvem, estrelas, pássaros...

- Continue...

- Arco- íris, o azul, a lua, o sol...

- Continue...

- Um avião.

- Isso!

- Não entendi, compadre...

- O avião é o que importa na nossa conversa. Pense na alma do avião.

- Meu Deus, deve ser uma alma enorme... Mas eu não entendi esse negócio de gente invisível...

- Mas vai entender.

- Que conversa boa, compadre.

- O avião é tão importante quanto o doce de abóbora.

- Agora você pirou, compadre. Daqui a pouco vai dizer que a cozinheira é tão importante quando o piloto.

- Daqui a pouco não, vou dizer agora.

- E a cozinheira é tão importante quando o piloto?

- Tão valiosa como ele!

- Então porque o salário de um piloto é mil vezes maior que o de uma cozinheira?

- Estou falando de um valor diferente, uma coisa que o dinheiro não pode enxergar...

- Continue que estou gostando...

- Uma cabana que uma criança monta no quintal com galhos, folhas de eucaliptos, cordas...

- Está delirando, homem, aqui não tem quintal pra isso, só se for lá pelo interior...

- Faz de conta.

- Está bem.

- Essa cabana tem o mesmo valor que o mais alto edifício da cidade.

- "Agora o homem endoidou mesmo!". Compadre: pense bem, qualquer moleque pode montar cabana, mas um edifício só a mente de um engenheiro e o trabalho de muitos peões.

- Ai é que você se engana. O valor da cabana ou do edifício está no seu olhar, esse é o mistério. Quando você está numa escada rolante ou num elevador deve pensar em muitas coisas.

- O pensamento voa, não é, compadre?

- Mas não pensa na gente invisível.

- Eu quero saber dessa gente invisível.

- Veja um prédio antigo. Está tanto tempo lá que ninguém mais se dá conta de que um dia foi construído...Assim como tudo. Repare que a garotada hoje não larga o celular...

- Você estava falando de arranha- céus...

- É a mesma coisa.

- Entendi, edifício é a mesma coisa que celular...

- E o doce de abóbora, e a cantiga, e a cabana...

- Está cada vez mais confuso...

- Deixe que o olhar aos poucos vai se acostumando...

- Com o quê?

- Com o novo jeito de ver...

- Está bem, hoje você é quem manda... Mas que está confuso está.

- Num instante a ventania chega, depois que a gente chama por ela.

- Pronto. Começou a bruxaria...

- Entenda, meu compadre, se a poeira está nos olhos e faz confusão, você chama pela ventania e ela vem. O seu esforço em querer clarear os olhos faz ela chegar... E quando ela chega limpa aos olhos. Mas vamos lá: eu estava falando da gente invisível...

- Isso mesmo. Entendi que são aqueles que construíram as coisas...Mas está difícil engolir a história do mesmo valor. Dizer que o piloto de um avião tem o mesmo valor que uma cozinheira é doidice.

- Já viajou de avião?

- Ainda não. E morro de medo...

- De medo a gente morre mesmo, quer dizer, a gente deixa de viver...

- Compadre, como é a história do avião?
- Veja só: imagine que você está lá no alto olhando pela janelinha, você está vendo as nuvens, as cidades lá embaixo, o oceano, uma imensidão...

- Que lindo deve ser!

- Essa lindeza toda só é possível porque alguém está conduzindo o avião...

- Sim.

- Pense num menino debruçado no peitoril de uma janela, olhando as coisas do dia e sentindo o cheiro do doce de abóbora que vem lá da panela.

- Já pensei.

- Depois esse menino está comendo pela primeira vez o doce de abóbora numa felicidade imensa...

- Já pensei também. Quando acabar a nossa prosa, procurarei uma abóbora...

- Muito bem. Compre logo uma de dez quilos que dá pra fazer uma panela deste tamanho...

- Já estou sentindo o gosto, meu compadre.

- Aquele menino...

- Que menino?

- Aquele no peitoril da janela...

- Sei...

- Ele foi conduzido para aquela felicidade por alguém...

- Pela mãe dele, pela tia, pela pessoa que fez o doce...

- Assim como o vôo de avião fica para sempre na memória o doce de abóbora jamais será esquecido...

- Eu fiz uma viagem de trem quando era menino...

- Eu fiz tantas!

- Mas a minha foi especial, acho que eu tinha uns seis anos...

- Conte.

- Foi na Santos-Jundiaí. Eu subia a serra. Que maravilha! Eu olhava pela janela e via aquele verde todo, aquela serra com pontas azuis. E nunca me esqueci da entrada num túnel. A troca da máquina. Trocaram a Maria Fumaça por uma máquina amarela e vermelha, que eu ficava ali com meus ouvidos de menino ouvindo que a máquina de óleo ia substituir a de carvão, e lembro que falavam de um cabo de aço. Meu Deus! Quanta felicidade, compadre.

- Então, você acha que o maquinista tem menos valor que o piloto?

- Acho que dirigir um trem é mais fácil do que dirigir um avião...

- O valor não está nisso.

- Então explica, compadre.

- O valor está no menino que olhava através da janela do vagão, do menino que metia cada colherada de doce de abóbora na boca e do sujeito que olha as nuvens. O valor está dentro de cada um deles.

- Estou querendo começar a entender.

- Vai entender direitinho... A meninada de hoje nem tem idéia de quem foi o Juvêncio.

- Juvêncio. Já ouvi esse nome um dia... Estou quase lembrando, meu Deus, compadre. Está me fazendo recordar de uma coisa muito antiga compadre. Agora estou lembrando. A gente abandonava tudo e saia correndo...

- Isso mesmo! Lembrou?

- Estou lembrando, compadre! Estou lembrando!

- A gente largava a pipa, o carrinho de rolimã, a brincadeira de Tarzan, e lá ia todo mundo correndo feito doido, desembestado e entrava em casa cheirando a bambu, a eucalipto, a grama...E ficávamos grudados no rádio. Até hoje lembro da minha irmã gritando na varanda, bem longe, e a voz dela atravessava os eucaliptos e chegava até nós, e ela gritando. "Vem! Corre! Vai começar o Juvêncio!" Só não lembro a rádio.

- Eu lembro, Juvêncio o justiceiro do Sertão passava na rádio Piratininga...

- Mas o que tem o Juvêncio...

- Se a gente não tivesse corrido naqueles finais de tarde para ouvir o Juvêncio, não teríamos a habilidade que temos para ouvir histórias...

- O que significa isso compadre?

- Significa que o Juvêncio foi muito importante...

- E?

- E alguém, nem tenho idéia de quem tenha sido, um dia pensou e escreveu aqueles capítulos, então esse alguém, que nos conduziu naquela correria por entre os canaviais, os milharais, esse alguém é tão importante quanto aquele velho maquinista...

- Meus Deus, compadre, que loucura. E pensar que a gente ia só prosear um pouco para chamar o domingo, não é?

- Domingo pede cachimbo...

- Eu lembro disso também. Domingo tem pé de cachimbo.

- Está doido, homem? Tem pé coisa nenhuma. Se bem que durante anos também entendia assim, até numa cartilha vi dessa forma. Mas domingo nunca teve pé de cachimbo. Endoidou?

- Como é, então?

- Domingo pede cachimbo, solicita paz, papo pro ar, música, sossego de pescaria, fumar cachimbo e esquecer da vida. Entendeu?

- Nossa! Mas, e aí? O que tem esse papo de cachimbo...

- Então, aprendi que essas coisas chamadas parlenda, trava- língua, são coisas que alguém de coração muito bom inventou para que um montão de criança pudesse desenrolar a língua, quer dizer, pudesse falar de verdade, e se apaixonar pelo encanto do idioma.

- Que bonito compadre!

- Bonito é tudo que essa língua já nos deu de presente...Tem cada tesouro! Sabe meu compadre, que precisaríamos de muitos domingos inteirinhos para poder falar ou ouvir uma parte deles?

- Não tem um pra agora...

- Deixe- me ver. Tem o da paca...

- Que paca?

- É assim, tinha uns cantadores afamados lá no nordeste que de vez em quando estavam se desafiando. E teve um encontro muito famoso entre o Cego Aderaldo... Já ouviu falar dele?

- Não compadre. Já ouvi falar de Patativa do Assaré. Mas, esse Cego Aderaldo era bom mesmo?

- Se era! Pois nesse encontro que eu falei, que foi entre ele e um outro que era bom da conta, um tal de Zé Pretinho, o cego desafiou o Zé Pretinho, que era lá do Piauí...

- E de onde era o cego?

- Do Ceará.

- E como foi a coisa, compadre?

- Foi assim, vejo o que o cego armou...

- Estou ouvindo...

- Quem a paca cara compra cara a paca pagará.

- Coisa boa, compadre, criança adora isso.

- Pois é, e o cego venceu porque o outro não conseguiu desdobrar o desafio. E você, quer tentar?

- Fala mais uma vez.

- Quem a paca cara compra cara a paca pagará...

- É fácil.

- Manda ver.

- Quem a paca compra a paca... Sei lá, compadre, tem que treinar, não é?

- Isso mesmo, tudo na vida tem um treino. Veja uma bailarina, gosta?

- Nunca vi uma, mas sei que é uma coisa bonita, na ponta dos pés, tem umas que parecem colibris...

- Mas uma bailarina não nasce pronta. Ela é o esforço de muito treino, muita persistência, muita dedicação...

- Aumentou a minha admiração por elas. Você tem razão, compadre, ninguém nasceu sabendo tocar violino...

- Nem fazendo doce de abóbora.

- Voltou na abóbora?

- Veja que pra dar aquela consistência...

- Aquela o quê?

- Aquele sabor, aquele cheiro, aquela forma nem dura nem mole, ou seja, compadre, pro doce ficar no ponto foi preciso muita teimosia, muita experiência e muita vontade de acertar...

- Beleza, compadre... Tem curso de doce de abóbora?

- Claro que sim, na vida tem curso pra tudo, a própria vida é uma grande escola... Viver já é estar cursando alguma coisa.

- Que coisa bonita!

- Quando você vive está seguindo o curso de um rio, um longo rio...E tem mais...

- Pode falar, homem.

- Até pra conversa tem que ter a teimosia da cozinheira...

- Como assim?

- Pensa que é fácil conversar?

- Nada é fácil compadre!

- Só quem adquire o hábito de conversar vai adquirindo o gosto pela coisa...No passado as pessoas conversavam muito, na varanda, nas praças, dentro de casa...

- Dentro de casa não dá mais compadre...

- Sei, por causa da televisão.

- Verdade.

- Mas se a pessoa conversa desde pequena ela vai cada vez melhorando mais, e com o passar do tempo só vai conversando coisa boa...

- Pelo visto o compadre conversa desde pequeno...

- Sim, a minha mãe nunca mandou eu calar a boca... E sempre respondia quando eu fazia uma pergunta... Quando eu falei que os meus olhos foram lavados com uma água diferente, acho que estava falando da minha infância, quando eu vivia a tagarelar pelos cantos da casa e minha mãe sempre me dando atenção... Se não fosse ela, como a gente ia poder ter essa conversa hoje?

- Compadre, pensando bem, sabe que eu nem converso com a minha mulher? E acho que nem converso com a minha filha...

- Comece hoje.

- Pois vou começar mesmo. Cachimbo, cachimbo, cachimbo, como é mesmo compadre?

- Domingo pede cachimbo.

- Que coisa boa. Bem, vou indo pra casa, mas antes vou procurar uma abóbora.

- Bom domingo, compadre.

- Bom demais, bom demais.
 

 


(16 de
setembro/2006)
CooJornal no 494
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

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