
30/09/2006
Ano 10 - Número 496 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A CIGANA BLANGE
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Quando a vi pela primeira vez ela
cantava na beira do córrego, o mesmo no qual os meninos uma vez por semana
abandonavam o campinho e corriam para cortar o capim alto e encher a carroça
do vendeiro.
Ele era o único morador da vila que tinha a televisão. Uma novidade
encantadora que valia o trabalho que fazíamos. Vivíamos atormentando as nossas
mães com uma histeria sem fim, uma exigência de atenção descabida, uma
vibração muito mais intensa do que quando encontrávamos uma figurinha
carimbada ao abrimos um pacotinho. Mãe! É demais. Precisa ver! Aparece tudo na
tela, faz reclame do sabão Vencedor, faz reclame do fósforo, de tudo, é lindo
demais! E não parávamos de falar. A mulher terminava o tanque, mas o assunto
da televisão era inesgotável. E ela sempre fingindo que não dava muita
atenção. Mas eu sabia que ela ouvia tudo, porque depois o assunto continuava
na conversa de varanda entre ela e as suas amigas.
Na beirada do córrego, a troca era: encher a carroça de mato para alimentar os
cavalos e à noite assistir ao filme do Zorro. Quando a carroça começava a se
movimentar, corríamos para casa com o coração saltando como se estivéssemos a
correr atrás de um balão que caía.
Mas naquela tarde algo diferente aconteceu. Eu a vi e a ouvi cantando. Muitas
histórias se contavam sobre ela. Todas as crianças da vila já tinham ouvido
falar da cigana Blange. Meu pai vivia a falar sobre ela, nas conversas do bar
do Zé das Cabras. Eu só ouvindo, fingindo que não estava ouvindo nada.
Contavam que ela dormia na rua. Que o marido a espancava. Diziam que após a
surra ele sempre a punha pra fora, mas ela não tomava jeito. "É um covarde,
bater assim na pobrezinha, que mal ela fez?". Todos sentiam pena dela, mas
ninguém se atrevia a fazer nada, pois o tal homem era perigoso, diziam.
Ela adora um tatuzinho, um cavalinho e também uma "Três fazendas". Vivia a
repetir o meu pai. Mas nada justificava o que o demônio fazia com ela. Nem o
fato dela chegar em casa bêbada. Vai ver que bebia para esquecer alguma
tragédia. O curioso é que, como nunca tinha dinheiro, todos pagavam para ela.
Cada dose era uma canção. Vivia a cantar nos bares e nas ruas. A sua voz valia
um belo trago.
As mulheres da vila também eram solidárias. Minha mãe vivia a elogiar a sua
voz. Dizia que ela podia ser uma cantora de rádio, tão boa quanto a Sapoti. E
assim falavam. E naquela tarde eu tive o privilégio de ouvir e ver o seu
canto. A sua voz me acompanhou noite adentro. Na janta parecia que ela cantava
lá fora.Tinha um assovio do vento e baldes e bacias de alumínio rolando no
quintal lembravam o seu timbre.
Após um bom tempo ouvi que ela vivia assim errante a cantar e a beber depois
que teve um filho assassinado pela polícia.
Naquela tarde cheguei em casa aos gritos. "Mãe! Eu vi a cigana!"
Minha mãe ouviu e tratou logo de cuidar da vida. Apressou-me para o banho
porque estava quase na hora da televisão, e eu reclamando que ainda era cedo,
que estava claro, que ainda era de dia, mas ela retrucava em cima, dizendo que
logo iria escurecer e então eu perderia a televisão.
Depois do banho me vestiu com uma roupa limpa e perfumada, encharcou meus
cabelos de brilhantina do pai, penteou, penteou e colocou-me uma boina nova e
um sapato brilhante, que ela mesma tinha engraxado. Enrolou-me num cachecol e
me fez usar a calça comprida, essa parte eu gostava, pois o resto do tempo era
calça curta e eu já estava um homenzinho.
Calça comprida só em momentos especiais. A missa aos domingos. Às vezes ela me
levava e eu de calça comprida ficava o tempo todo sem virar os olhos para um
Cristo enorme que tinha na entrada, deitado, crucificado, sangrando e aquela
imagem me amedrontava demais, então o jeito era não olhar. Quando passava pelo
Cristo cerrava os olhos.
Na casa do vendeiro quando o filme terminava nos levantávamos e deixávamos a
sala. Como sempre eu disparava para casa, fazendo um enorme z de espada
invisível no ar. Num instante estava em casa. Parecia um festival de
vaga-lumes aquele montão de meninos correndo.
Naquela noite, após o jantar e o bule de chocolate corri para a cama mais
cedo. Fechei os olhos e em vez de ficar com a imagem de um mascarado montado
em seu cavalo fiz o máximo de esforço para dormir com a imagem dela, cantando
na beira do córrego a sua canção plangente.
(30 de setembro/2006)
CooJornal no 496
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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