
21/10/2006
Ano 10 - Número 499 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
DEU A LOUCA NO CINEMA
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Quando uma amiga professora também
psicóloga apareceu eufórica na Sala de Leitura comentando sobre um novo
lançamento no cinema pus-me a ouvir com atenção as suas palavras. Tratava,
segundo ela, de um filme infantil que satirizava os contos de fadas. Diversão
pura. Shrek. Imperdível para todas as crianças.
Não tardou para que eu estivesse no cinema, como fiz com "Deu a Louca na
Chapeuzinho", outra produção para adultos. Como pude observar, em ambos os
casos o cinema estava repleto de crianças. Algumas com menos de quatro anos.
Diversão pura? Realmente se trata de diversão, mas não pura. Muito menos
inocente. Principalmente o nosso amigo.
Desde o início compreendi que Shrek não é uma boa para as crianças. Aliás, não
precisei assistir muitas vezes para ver que tem lances prejudiciais ao público
infantil. Bastou-me usar um pouco o dom de pensar. Crianças não estão
preparadas para ver certas brincadeiras da produção para adultos, mas adorada
por elas, mesmo porque, por incrível que pareça infelizmente colocam a
produção como "livre". Shrek, o ogro, é uma gracinha, não resta dúvida,
politicamente incorreto, mas muito divertido, solta pum, toma banho de lama,
tira cera do ouvido. Mas a criança está preparada para ver um príncipe gay?
Criança tem sexo? Posso ser considerado um romântico ingênuo e puro. Talvez
até possam dizer que a criança não existe mais, pelo menos a do século XXI
nada tem a ver com aquela a qual me refiro, mas vamos considerar que criança
será sempre criança, então, a desmoralização do príncipe é algo salutar para
os pequenos? Nada contra os homossexuais, ao contrário, a forma que
encontraram para destruir um dos pilares dos contos de fadas, o príncipe, foi
apresentá-lo como um efeminado, um príncipe homossexual, e todo mundo aceita
esse deboche, deboche não apenas do conto de fadas, mas do homossexual, que
sempre aparece estilizado, rico de estereótipos, fartamente ridicularizado em
gestos e falas.
O príncipe da história é histérico, ridículo. Ninguém pensa? A multidão
renunciou ao pensar? Se já não bastassem os humoristas brasileiros da
televisão, agora também o cinema, dito para crianças, entrou nessa de faltar
com o respeito e faturar em cima da homossexualidade, injetando na mente
infantil desde cedo os preconceitos.
O príncipe não é um referencial no imaginário dos contos de fadas? Ele é um
símbolo, um ideal, de certa forma uma utopia. Todos os príncipes de
Shakespeare são emocionantes, comoventes, são grandes príncipes. Mas esse é o
ideal.
Ser príncipe não é um posto, um cargo, um prêmio familiar, uma herança, ao
contrário, é um ideal, de justiça, de beleza, de soberania, de ética, é uma
responsabilidade muito grande ser príncipe. Mas o do Shrek é um
desmoralizador, um destruidor de símbolos no imaginário infantil, ora.
Para adultos tudo pode ser válido, até mesmo a Branca de Neve ter sete filhos.
Engravidar de sete anões, mas para a criança é diferente.
Ela está preparada para ver o Pinóquio de calcinha? De roupas íntimas
femininas? Isso é válido?
É muito fácil falar que as crianças estão terríveis, indisciplinadas,
agressivas, etc... Sim, estão, mas ficar falando não é a melhor das posturas.
Precisamos aprender a velejar sob a superfície. Entre outras coisas estão
abalando os seus alicerces. Os detentores do poder econômico gigantesco das
grandes multinacionais do entretenimento estão contribuindo para a sua
imbecilização. Ela está sendo subtraída, também pelos impérios econômicos de
diversão.
Pinóquio com peça íntima feminina, um príncipe homossexual: Pois o que é isso
afinal, se não for a imbecilização infantil? Reafirmo: nada contra a
homossexualidade, inclusive não há problema nenhum se na vida real um príncipe
não for heterossexual. A questão é: estamos falando do príncipe do conto de
fadas.
Os contos de Fadas, assim como a boa Literatura Infantil, salva a criança,
resgata a infância, preserva valores, mas essas grandes e estranhas produções
com os seus objetivos escusos, tais como um império emergente tentar abalar e
destruir o outro, como no caso do ogro, que saiu do seu pântano com o objetivo
explicito de debochar, faturar em cima e desmoralizar os contos de fadas, e o
objetivo inconfessável e implícito de abalar o concorrente Disney, enfim,
essas grandes produções milionárias acabam prejudicando a infância e
contribuindo para a idiotização da criança e a confusão atual que tanto aflige
pais, professores e educadores.
Criança precisa do ideal do Príncipe. Necessita torcer pelo boneco de madeira
que adquire vida e quando mente fica com o nariz maior. Precisa dos
personagens dos contos de fadas, inclusive do gato de botas. Criança não tem
sexo, e o príncipe que beija a donzela é apenas um símbolo encantado no reino
das fadas. O beijo tem apenas o significado do " E foram felizes para sempre",
que aqui tem sentido diverso do "Para sempre" cristão.
Tenho assistido a quase todas as produções atuais para as crianças,
acompanhado a pancadaria, e a enorme confusão, e sei que com exceção de alguns
filmes, que tanto podem ser para adultos como para crianças, como o pouco
badalado "Spirit: O Corcel Indomável", -a exemplo de Shrek e da Chapeuzinho-,
feito em computação gráfica, e "A Noiva Cadáver", realizado com bonecos num
trabalho grandioso dos artistas envolvidos, excetuando esses dois exemplos, de
um modo geral a coisa é de se lamentar, ou então, em vez de lamentação, que
tal se parássemos um pouco para refletir? Pois eles, os gigantes, não querem
refletir, querem faturar.
Pais e educadores deveriam ter em mente que o fato de tal película ser
lançamento divulgado pelo Mc Donald através de publicidade milionária e
bonecos, não significa que seja uma coisa boa, construtiva. Afinal acredito
que toda obra para criança deva ser, não uma coisa pedagogicamente chata, mas
encantada o suficiente para favorecer o crescimento do pequeno.
Fiz esses comentários por ter considerado curioso o fato de que produções como
"Deu a Louca na Chapeuzinho" e "Shrek", originalmente para adultos, serem
vistos por milhares de crianças. Por falar nisso, se os pais vão mesmo com os
filhos ao cinema para assistir ao " a Chapeuzinho" que tal antes fornecer as
condições para que a criança conheça a história original, aquela em que a
menina do capuz vermelho vai pela floresta, caminhando com uma cestinha de
doces... Contar a história, ou um livro, talvez.
(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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