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Marciano Vasques
A NATUREZA DO
ESCORPIÃO
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Amiga,
- É de fato um belíssimo avião, digno de quem
está reerguendo o país das cinzas psdbistas...
- Ele diz que gosta de pobre, mas adora viver como milionário!
- Não vai dizer que você não gosta??? Eu não acreditaria!!!
Rose Gimenes, educadora.
27 de outubro de 2006
A caminho do colégio de votação passei por um eucaliptal para testar o olfato,
reduzido em sua capacidade, com os anos. Também para ver se, por um instante,
recuperaria o doçário da minha infância.
Um senhor carregando uma vara de pescar não usada comentou algo sobre o fato
de já ter votado. "Vamo vê se agora os meninos vai".
Exercitei a minha cidadania. Ao sair do colégio estadual Milton Cruzeiro, em
Cidade A E Carvalho, reparei na calçada os folhetos do candidato Luis Inácio
Lula da Silva com a inscrição "Não troco o certo pelo duvidoso".
Dias antes, na Praça das Professoras, uma jovenzinha discutia violentamente
com um homem. A conhecia, mas nem sabia que estava com uma filha, fazia tempo
que não a encontrava com seu lindo sorriso largo.
Descontrolada esmurrava o ar ameaçando bater no rosto do sujeito, enquanto a
pequena mantinha-se agarrada aos seus seios. O homem se afastou e entrou num
bar para uma dose. Ela permaneceu gritando, fora de si, jurando que se ele não
assumisse a criança, ela não a criaria. "Não vou ficar com ela! Não vou!".
Meu ônibus chegou.Temi que ela atirasse a pequena ao chão, tal o seu
desespero.
No resto do dia não consegui tirar da mente aquela cena.
Na véspera da eleição encontrei- a novamente. Estava calma e conversamos. O
pai da criança ia à frente, bem distante. Percebi que sentia vergonha dela.
Alto, branco, magro, um senhor. Ela, uma jovem negra, quase uma menina,
carregando o seu bebê. Ao nos despedirmos perguntei o nome da sua filha.
Narcisa.
Nesse dia estive pela manhã no Jardim São Carlos.
No Extra, da Avenida São Miguel, comprei presentes para Gabriela, outra recém-
nascida, a filha de Ana e Lourival. Dei uma boa caminhada até encontrar a casa
deles. Não estavam.
Permaneci um tempo reparando em suas circunstâncias.
Quintais sem cercas, caixas de papelão e caixotes amontoados, o brilho verde
das varejeiras nos raios matinais, cachorros ossudos e crianças descalças, só
de camisetas.
Uma vizinha conta que eles saíram na manhã e provavelmente só retornariam ao
avanço da noite, como diariamente faziam. A mulher manifestou- se
criticamente. "A menina não tem nem um mês e a Ana anda o dia inteiro com ela
pra lá e pra cá, é maluca".
Freqüentava um curso de educação de adultos e era tida como maluquinha pela
comunidade, que dela debochava por causa da aparente falta de rumo do seu
pensamento. Cheguei a cogitar que a sua bagunça mental pudesse ser derivada do
fato de que, quando menininha em Pernambuco, fora abusada dois anos seguidos
pelo pai.
Mesmo vivendo na aspereza não perdeu a generosidade. Confessava-se
freqüentemente e o padre sempre dava como penitência 100 Ave-Marias, o que ela
considerava um exagero, já que não via tanta gravidade nos pensamentos que
revelava no confessionário, mas sempre cumpriu fielmente o que o religioso
determinava. Às vezes errava na conta e acabava rezando bem mais que cem
vezes. Com o tempo perdeu a crença na confissão.
Quando se matriculou no curso de EJA do CEU Parque São Carlos, trabalhava
entregando folhetos imobiliários nos semáforos, mas não agüentou.
Lourival desempregado, caminhando quilômetros até o metrô Itaquera para usar o
computador no PoupaTempo. Nos finais de semana, no CEU, usando a informática,
folheando revistas na Biblioteca Barbosa Lima Sobrinho, assistindo aos ensaios
do Buraco do Oráculo, grupo teatral formado por adolescentes da comunidade, ou
ainda observando a meninada na piscina.
Ele também não é certo da cabeça, costumam dizer. O padre da Igreja de Santo
Expedito, que fica ao lado do CEU, o mesmo das longas penitências, comentou
que não entende como um rapaz tão complicado, sem condições nenhuma de cuidar
de criança, foi arrumar filho.
Retornei à casa com os presentes. Um pensamento me assaltou. Será que a
maluquinha estaria usando a pequena recém-nascida para pedir esmola em alguma
calçada da cidade ou no metrô? Ela não faria isso. Ou faria?
Em respeito ao dia ensolarado que me era ofertado, procurei afastar-me de
qualquer pensamento triste e recorri aos meus mecanismos de defesa interior.
Busquei na memória as capas dos gibis que li quando menino, e bastou a palavra
"Aqui" em um muro anunciando um comércio qualquer para lembrar de uma canção
que a Martinha cantava.
A campanha do PT na televisão foi encerrada com a participação do escritor
Paulo Coelho. Um dos autores que mais vende no mundo manifestou seu apoio à
reeleição do presidente, uma vitória do povo e da democracia, segundo as suas
palavras. Falou das provas pelas quais o Brasil passou e saiu fortalecido.
Jamais esquecerei os olhos úmidos do cobrador de lotação do Conjunto José
Bonifácio ao se referir ao candidato. Alagoano, contou dos benefícios que o
presidente realizou no nordeste. Os olhos desaguaram quando falou do
sofrimento daquela gente. Sua comovente pureza dissertativa fez com que eu o
abraçasse mentalmente.
A televisão já anunciava os primeiros números da eleição e a lembrança da
visita do dia anterior ao Jardim São Carlos ainda tamborilava em mim. Não
conseguia tirar da cabeça o fato de a Ana bater pernas todos os dias com a
pequena Gabriela e só retornar ao anoitecer.
Outra coisa que não me escapulia da mente era a conversa de duas mulheres que
passaram por mim quando eu retornava do colégio. Pensava em Narcisa, sugando o
seio, assustada com a voz de fera da mãe, quando ouvi os seus comentários.
"Engraçado, os dois candidatos são escorpião. Mas a natureza de cada um é
muito diferente". Dizia uma. Pensei na curiosidade do assunto. Afinal pelo
pouco que conheço sei que o bicho não tem natureza dupla.
Meu desentendimento se desfez quando a outra retrucou: "Essa coisa de
horóscopo não dá pra levar a sério".
(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br