04/11/2006
Ano 10  -   Número 501
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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques

 

A NATUREZA DO ESCORPIÃO
 

 

 

Amiga,
- É de fato um belíssimo avião, digno de quem
 está reerguendo o país das cinzas psdbistas...
- Ele diz que gosta de pobre, mas adora viver como milionário!
- Não vai dizer que você não gosta??? Eu não acreditaria!!!
Rose Gimenes, educadora.
27 de outubro de 2006


A caminho do colégio de votação passei por um eucaliptal para testar o olfato, reduzido em sua capacidade, com os anos. Também para ver se, por um instante, recuperaria o doçário da minha infância.

Um senhor carregando uma vara de pescar não usada comentou algo sobre o fato de já ter votado. "Vamo vê se agora os meninos vai".

Exercitei a minha cidadania. Ao sair do colégio estadual Milton Cruzeiro, em Cidade A E Carvalho, reparei na calçada os folhetos do candidato Luis Inácio Lula da Silva com a inscrição "Não troco o certo pelo duvidoso".

Dias antes, na Praça das Professoras, uma jovenzinha discutia violentamente com um homem. A conhecia, mas nem sabia que estava com uma filha, fazia tempo que não a encontrava com seu lindo sorriso largo.

Descontrolada esmurrava o ar ameaçando bater no rosto do sujeito, enquanto a pequena mantinha-se agarrada aos seus seios. O homem se afastou e entrou num bar para uma dose. Ela permaneceu gritando, fora de si, jurando que se ele não assumisse a criança, ela não a criaria. "Não vou ficar com ela! Não vou!".

Meu ônibus chegou.Temi que ela atirasse a pequena ao chão, tal o seu desespero.

No resto do dia não consegui tirar da mente aquela cena.

Na véspera da eleição encontrei- a novamente. Estava calma e conversamos. O pai da criança ia à frente, bem distante. Percebi que sentia vergonha dela. Alto, branco, magro, um senhor. Ela, uma jovem negra, quase uma menina, carregando o seu bebê. Ao nos despedirmos perguntei o nome da sua filha. Narcisa.

Nesse dia estive pela manhã no Jardim São Carlos.

No Extra, da Avenida São Miguel, comprei presentes para Gabriela, outra recém- nascida, a filha de Ana e Lourival. Dei uma boa caminhada até encontrar a casa deles. Não estavam.

Permaneci um tempo reparando em suas circunstâncias.

Quintais sem cercas, caixas de papelão e caixotes amontoados, o brilho verde das varejeiras nos raios matinais, cachorros ossudos e crianças descalças, só de camisetas.

Uma vizinha conta que eles saíram na manhã e provavelmente só retornariam ao avanço da noite, como diariamente faziam. A mulher manifestou- se criticamente. "A menina não tem nem um mês e a Ana anda o dia inteiro com ela pra lá e pra cá, é maluca".

Freqüentava um curso de educação de adultos e era tida como maluquinha pela comunidade, que dela debochava por causa da aparente falta de rumo do seu pensamento. Cheguei a cogitar que a sua bagunça mental pudesse ser derivada do fato de que, quando menininha em Pernambuco, fora abusada dois anos seguidos pelo pai.

Mesmo vivendo na aspereza não perdeu a generosidade. Confessava-se freqüentemente e o padre sempre dava como penitência 100 Ave-Marias, o que ela considerava um exagero, já que não via tanta gravidade nos pensamentos que revelava no confessionário, mas sempre cumpriu fielmente o que o religioso determinava. Às vezes errava na conta e acabava rezando bem mais que cem vezes. Com o tempo perdeu a crença na confissão.

Quando se matriculou no curso de EJA do CEU Parque São Carlos, trabalhava entregando folhetos imobiliários nos semáforos, mas não agüentou.

Lourival desempregado, caminhando quilômetros até o metrô Itaquera para usar o computador no PoupaTempo. Nos finais de semana, no CEU, usando a informática, folheando revistas na Biblioteca Barbosa Lima Sobrinho, assistindo aos ensaios do Buraco do Oráculo, grupo teatral formado por adolescentes da comunidade, ou ainda observando a meninada na piscina.

Ele também não é certo da cabeça, costumam dizer. O padre da Igreja de Santo Expedito, que fica ao lado do CEU, o mesmo das longas penitências, comentou que não entende como um rapaz tão complicado, sem condições nenhuma de cuidar de criança, foi arrumar filho.

Retornei à casa com os presentes. Um pensamento me assaltou. Será que a maluquinha estaria usando a pequena recém-nascida para pedir esmola em alguma calçada da cidade ou no metrô? Ela não faria isso. Ou faria?

Em respeito ao dia ensolarado que me era ofertado, procurei afastar-me de qualquer pensamento triste e recorri aos meus mecanismos de defesa interior. Busquei na memória as capas dos gibis que li quando menino, e bastou a palavra "Aqui" em um muro anunciando um comércio qualquer para lembrar de uma canção que a Martinha cantava.

A campanha do PT na televisão foi encerrada com a participação do escritor Paulo Coelho. Um dos autores que mais vende no mundo manifestou seu apoio à reeleição do presidente, uma vitória do povo e da democracia, segundo as suas palavras. Falou das provas pelas quais o Brasil passou e saiu fortalecido.

Jamais esquecerei os olhos úmidos do cobrador de lotação do Conjunto José Bonifácio ao se referir ao candidato. Alagoano, contou dos benefícios que o presidente realizou no nordeste. Os olhos desaguaram quando falou do sofrimento daquela gente. Sua comovente pureza dissertativa fez com que eu o abraçasse mentalmente.

A televisão já anunciava os primeiros números da eleição e a lembrança da visita do dia anterior ao Jardim São Carlos ainda tamborilava em mim. Não conseguia tirar da cabeça o fato de a Ana bater pernas todos os dias com a pequena Gabriela e só retornar ao anoitecer.

Outra coisa que não me escapulia da mente era a conversa de duas mulheres que passaram por mim quando eu retornava do colégio. Pensava em Narcisa, sugando o seio, assustada com a voz de fera da mãe, quando ouvi os seus comentários.

"Engraçado, os dois candidatos são escorpião. Mas a natureza de cada um é muito diferente". Dizia uma. Pensei na curiosidade do assunto. Afinal pelo pouco que conheço sei que o bicho não tem natureza dupla.

Meu desentendimento se desfez quando a outra retrucou: "Essa coisa de horóscopo não dá pra levar a sério".




(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-  poetas/expoentes-  023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br