11/11/2006
Ano 10  -   Número 502
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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques

 

A CADERNETA
 

 

 

Brincávamos o dia inteiro entre os verdes do eucaliptal. Corríamos nas trilhas ultrapassando nódoas úmidas da manhã e pisávamos no frescor das folhas que atapetavam os caminhos que inventávamos. Às vezes a mãe participava, quando, por exemplo, transformava o seu avental num enorme embrulho repleto de ameixas amarelas. Às vezes éramos girinos a saltitar fiapos enferrujados de água que escorriam pela terra avermelhada da vila.

À noite trocávamos os eucaliptos pelas batalhas no quarto. Viver era uma grande brincadeira. Ainda tínhamos a rua, tão larga que nela todas as cantigas cabiam, e éramos uma imensa roda tomando conta de todo o espaço da rua. Depois íamos passear com o nosso avô, quando aprendíamos o valor dos passos lentos.

Gansos cruzavam a rua e conviviam harmoniosamente com as cirandas. Também víamos coisas que não devíamos, como aquele cavalo sendo chicoteado impiedosamente por ter atolado a carroça numa valeta. Teria eu seis anos quando vi a cena do pobre animal estirado no chão, molhado de sangue, urina e dor?

E naquela manhã estava entre pessoas que comentavam coisas que eram novidades ao meu ouvido. Um pedreiro caíra do andaime, e alguém falava em destino, pois que forças o teriam levado para o andaime numa manhã que trovejava e relampejava? Lembro-me do corpo coberto de jornais. A multidão aos poucos foi se dissipando e uma enorme chuva avançou. Corríamos, os três, e eu olhava para um dos lados e via um campo florido de flores amarelas e se não fosse a pesada chuva eu correria entre aquelas flores, sem pressa de voltar.

Ainda úmido e tremendo ouvia a voz da minha mãe ralhando com o meu pai por ter sido tão irresponsável em levar as crianças para ver uma coisa tão feia e depois deixar os dois sob uma chuva tão forte. A voz da mulher aos poucos se dissolvia até se desaparecer e desapareceu completamente quando reencontrei as cores das flores no papel de seda que solicitava balão ou pipa.

Aquele amarelo no papel de seda tinha um nome: felicidade. E lá estava ela, a cor tão importante para o meu crescimento, num boliche, num soldadinho de doce, num vestido bailando no varal, na porta de um caminhãozinho de madeira. Aquele amarelo rico de vivacidade tinha a mesma força que as outras cores que se apresentavam para enfeitar o meu olhar em sua ganância de viver. E lá íamos...

O trem que apitava ao longe, o pai voltando de bicicleta, eram novidades gostosas como as cocadas da cigana Blange, porém um dia do mês era especial.

Quando a mãe enchia de carvão o ferro de passar, e buscava no fundo do guarda-roupa o vestido da minha irmã que só era usado em ocasiões muito especiais, já sabíamos: era o dia de pagar a caderneta.

Uma alegria intensa que não cabia no quintal tomava conta de nossos corações. Eu considerava desnecessária a exigência da mãe em nos obrigar a usar roupas passadas, mas ela insistia em nos embonecar e não adiantava discutir. Fazíamos o que ela queria, era sempre assim. Lembro-me de quando minha irmã teve que tomar um montão de antibióticos, aquelas cápsulas que engolimos com um copo de água. Isso durou vários dias, até que ela sarou, mas lembro-me da braveza do pai quando num dia de faxina a mãe encontrou embaixo da cama todas as cápsulas. Ele esbravejou muito e quase minha irmã apanhou, só não aconteceu isso por dois motivos: naquela casa não se batia em crianças e minha irmã havia sarado.

Lá descíamos a ladeira. Tão arrumados, que para a vizinhança poderia parecer que íamos tomar o trem, se todos não soubessem que íamos pagar a caderneta.

A mãe colocava a toalha sobre a mesa e varria a casa, a varanda e o quintal. Ainda tomava banho na enorme bacia de alumínio, tudo enquanto estávamos na venda. Era uma festa pagar a caderneta. Meu pai se empinava todo na volta, cumprimentava a cada um com um sorriso mais largo do que a rua, e trazíamos a sacola repleta dos presentes.

Era assim mesmo: ao pagar a caderneta o pai ganhava um litro de vinho, e nós ganhávamos doces. Entanto o Português ia somando, nossos olhos permaneciam grudados de uma tal forma na vitrine dos doces que ficava até marca no nariz. Podíamos escolher todos os doces, escolhíamos aqueles suspiros enormes em formato de flor, uns rosas, outros amarelos, e os copinhos de casquinha de maria mole, os de abóbora e os de batata doce em formato de coração.

Alegria maior só no Natal quando o pai abria a cesta que havia sido paga em doze prestações durante o ano.

Uma festa. Assim era pagar a caderneta, e o odor de massa de tomate espalhando-se pelo ar, a tigela de macarronada, o enorme rádio de quatro pés, na sala, com a voz mais alta do que costume... Por quê o pai sempre escolhia o domingo para pagar a caderneta?



(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-  poetas/expoentes-  023.htm
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