18/11/2006
Ano 10  -  Número 503
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ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques

 

EIS O ESPÍRITO
 

 

 

Fui alfabetizado pelo método fonético. Minha cartilha foi a "Caminho Suave" da Branca Alves de Lima. Sempre recordo de uma cena curiosa. Num evento de educadores, uma senhora bem idosa se levantou no meio de uma discussão raivosa que criticava a sua cartilha, e disse: Se eu soubesse que ia causar tanto aborrecimento, não a teria escrito.

Outra coisa da infância na sala de aula que me lembro, pois me marcou profundamente, foi o ensino que me passavam sobre os bandeirantes. Eram modelos de heróis brasileiros. É assim que nos ensinavam, a nós, os pequenos. Que devíamos admirar profundamente aqueles homens. Um dos nomes que me fincaram na memória foi o de Domingos Jorge Velho. Considerava um nome imponente e profundamente respeitoso, fácil de decorar, pelo menos para mim, que adorava os domingos, meu irmão se chama Jorge e Velho impunha respeito.

Lembro-me de vários exemplos dos heróis bandeirantes. Um deles, o desbravador Bartolomeu Bueno da Silva, impressionou e assustou os indígenas da região de Goiás, com o truque da aguardente que tocava fogo na água. Eu imaginava os nativos apavorados gritando: Anhangüera! Anhangüera!

Aquelas mulheres ornamentadas com ouro, a gritar e submetendo-se ao forasteiro. Uma tolice que nos ensinavam, com a agravante de ser uma louvação à ignorância, ou melhor, à esperteza. Você domina pelo medo, pela superstição. Hoje tem coisa assim acontecendo.

Mas o tal Domingos Jorge Velho era um herói.

Acontece que bem depois fui saber que ele, além de ser um sanguinário caçador e exterminador de índios e violentador de índias, ter participado ativamente de uma sangrenta repressão a uma confederação indígena e ter assassinado incontáveis filhos da terra e ter sido um dos primeiros latifundiários do país, em 1694 comandou o ataque derradeiro contra a principal comunidade de Palmares.

Com a destruição do mocambo que era a capital de Palmares e a fuga de Zumbi ferido, Domingos Jorge Velho cumpria parcialmente a sua missão, pois o inesquecível líder de Palmares seria morto dois anos depois. Sua cabeça foi exposta em praça pública, como era costume se fazer com os revolucionários e todos os que de uma forma ou de outra incomodavam a "ordem".

Assim foi com Tiradentes, outro vitimado pela crueldade colonizadora, assim foi no século XX com Lampião e Maria Bonita. A mentalidade colonizadora adorava expor cabeças. Mas não podia contar com o fato de que as idéias não morrem. Cabeças expostas, corpos esquartejados. Brasil histórico.

Neto de uma princesa chamada Aqualtune, o herói ausente da minha infância escolar viveu boa parte da vida no quilombo dos Palmares, em Alagoas. Ocupando um território equivalente a Portugal, a republica fundada em 1600 se auto-sustentava e resistiu por um século. Zumbi foi seu maior herói.

Conhecer um pouco sobre o quilombo dos Palmares é desfazer-se da idéia pregada durante décadas nos livros didáticos e na "cultura política oficial", de que o negro era passivo e aceitava a escravidão com resignação e sofrimento.

Sabe-se que muitos se suicidavam, fala-se no sofrimento e na saudade que o negro sentia da sua terra distante, mas não se fala tanto quanto se deveria de Zumbi e seu povo, que criou um outro país dentro do Brasil, com seus povoados, seus mocambos. Se não tivesse havido traição, se ele não tivesse sido assassinado, se o quilombo não tivesse sido destruído, se não tivesse acontecido a tragédia da covardia no Brasil, hoje teríamos municípios com nomes diferentes, como Osenga, Tabocas, Zumbi, Andalaquituche, Acotirene e Sucupira.

Não adianta apenas pedir para a criançada fazer um trabalho em cartolina ou em pesquisas na Internet, é preciso incorporar, fazer com que nossa cabeça pense sobre Zumbi, sobre esse significado.

A criança precisa saber melhor, ser aprofundada, compreender o que é lutar por um ideal. Saber que a trajetória do herói não é solitária. Assim Zumbi, o espírito de um povo, encarna e representa a sua própria gente.

Quanto sofrimento, mas também, quanta luta!

Quando uma tropa portuguesa depois de tanto sangue derramado invade e ocupa um mocambo com mais de mil choupanas, não pode imaginar que depois de alguns meses o povo negro voltaria a atacar, para reconquistar o que por direito a ele pertencia. E na frente da batalha, Zumbi.

Diversos mocambos formavam uma república. Nela vivia Zumbi, aquele que queria a libertação de todos os negros e a preservação de sua cultura.

Outro dia um estrangeiro comentou que nunca viu tantos feriados como aqui, considera um exagero, chegou até a se pronunciar de forma infeliz, atribuindo a políticos com índole vagabunda o calendário abusivo de feriados. Que bobagem. O Brasil é único no mundo e merecedor de todos os feriados históricos. Tem também os religiosos, da igreja católica, importantes para os católicos, mas os históricos são todos fundamentais para todos os brasileiros, são oportunidades para o povo rememorar a história da sua gente. O que significa, por exemplo, proclamar uma República? O que significa "Dia da Consciência Negra"?

Seria maravilhoso se Zumbi invadisse as bancas como personagem herói de quadrinhos, mas vamos por enquanto de Homem Aranha. Seria bom se ele estivesse na consciência de todos, para que pudéssemos finalmente compreender que o valor de uma gente não será jamais apagado pela truculência bandeirante.

Eis o espírito.





(18 de novembro/2006)
CooJornal no 503
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-  poetas/expoentes-  023.htm
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