
10/03/2007
Ano 10 - Número 519 -
ARQUIVO VASQUES
|
|
Marciano Vasques
A NECESSIDADE DA
CONSULTA POPULAR
|
|
Não sou um defensor da greve por
si só e menos ainda da greve política, que, aliás, é tão desrespeitosa para
com o cidadão quanto um decreto baixando uma lei proibindo greve.
A greve política atende a interesses obscuros, partidários, eleitoreiros; é o
pior exemplo de sindicalismo que no país se pode ter. Além de que ela
prejudica o cidadão inocente, que nada tem a ver com interesses
inconfessáveis.
O cidadão, principalmente o pobre, depende exclusivamente dos serviços
públicos, que pelo fato de serem públicos, não podem sofrer paralisações,
principalmente em setores essenciais, como saúde e transporte.
O que é inadmissível é um governo, outrora pretensamente de esquerda, acionar
a idéia de um decreto que passe por cima do texto constitucional, e baixe uma
lei proibindo greves, mesmo que no serviço público.
Se o governo quer acabar com a greve para resolver um problema real que é o
desgaste e o sofrimento da população, que não o faça por decreto-lei, mas sim
através de um plebiscito, de uma consulta popular nacional.
Que mobilize a população utilizando recursos orçamentários destinados à
publicidade –isso sempre tem, em qualquer governo - e também os meios de
comunicação. Que a mobilize através de suas associações, suas entidades de
classe, suas organizações não governamentais. A mobilização teria como
objetivo um amplo debate nacional, tal como ocorreu quando da questão do
desarmamento.
A população brasileira ao se manifestar, quando faz quando vai à urna,
consolidaria uma decisão e daria aval ao governo.
O que constrange é justamente a idéia de um decreto-lei, de uma proibição
oficial, isso isolaria o governo numa posição antipática e ao mesmo tempo
reveladora. Afinal a tal mancha a que me referi reside justamente no fato de o
governo ter um histórico de luta sindical. Afinal a sua carreira foi edificada
em greves, algumas históricas. Isso é o que daria autoridade para que ele
possa decretar a sua proibição.
Se é incômoda e causadora de dissabores e prejuízos quando se trata de
serviços públicos essenciais, é no íntimo e na sua origem, na sua essência e
razão de ser, um inquestionável direito do trabalhador, que deve ser acionado
e responsavelmente exercido quando os recursos e o diálogo se esgotaram. Não
custa mencionar que caso o governo consiga vitória na sua decisão de proibir
greves nos setores públicos, estará com a faca e o queijo não mão, pois
poderá, se quiser, abusar no arrocho salarial e apertar mais o cinto do
trabalhador.
Se o governo quer reformar o "estatuto" da greve, que consulte a população,
que realize no Brasil um belo plebiscito, que permita a todos se manifestarem,
e que a voz e a vontade do povo seja ouvida. Provavelmente sairá vitorioso e
contará com o apoio popular, visto que afinal o povo não é de um modo geral
favorável a movimentos grevistas. Mas é necessária tal consulta. Assim não
estaremos diante de um gesto autoritário.
Que a questão seja repensada e reorientada pelo planalto. Acabar com o direito
irrestrito de greve? Que seja, mas de uma forma democrática, através do
diálogo com o povo do Brasil e propiciando ao cidadão o direito de se
manifestar, e não simplesmente através de um decreto.
Não creio sinceramente que currículo possa autorizar desrespeito à
constituição, que se por acaso perfeita não é, então que se promova um novo
1988, uma nova Assembléia Constituinte. Isso ninguém cogita. Pelo que nos
consta, a Carta Magna do Brasil é avançada. Se não é totalmente cumprida, é
outra questão. Desrespeitá-la, mesmo que por justa motivação, não é aceitável.
(10 de março/2007)
CooJornal no 519
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
|
|