
21/04/2007
Ano 10 - Número 525 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
A REFORMA DO INDIVÍDUO
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O espírito da época arrasta o
cidadão pela ladeira abaixo, e ele nem se dá conta. Embora possa ser
argumentado que cada época vive os seus males, ainda assim poderíamos afirmar
com tranqüilidade que estamos vivendo momentos cruciais para todos.
São inegáveis a comodidade, a praticidade e o conforto propiciados pelas
conquistas científicas. Vive-se melhor hoje com o avanço da tecnologia, embora
as filas bancárias ainda permaneçam apesar das altas e cruéis taxas cobradas
pelo sistema financeiro, que realiza empréstimos calculados com o objetivo
inconfessável de manter o cidadão em situação de submissão irreversível.
Vivemos confortavelmente? Sim, de fato a ciência tem contribuindo em larga
escala com a melhoria de vida do cidadão, desde que ele tenha dinheiro. Hoje
tudo é facilmente acessado, basta que se aperte um botão ou que se passe a
tarjeta de um cartão magnético numa leitura ótica. Porém convivemos com um
Estado portador de múltipla falência, incapaz de garantir um mínimo de
segurança e confiança. Qualquer um pode ser vítima de uma violência insensata
a qualquer momento e em qualquer lugar, incluindo aí os Shoppings.
A ética e a política separaram-se definitivamente e só o recolhimento dos
destroços mentais e a reconstrução do entendimento poderiam fornecer as bases
e o fio condutor para a edificação de um amplo movimento político com o
objetivo de resgatar a arte de administrar os interesses e as necessidades
populares.
A violência invade todos os poros e todos os canais. Apenar do desmoronamento
do reino do coronel, ainda assim podemos facilmente observar a escravidão de
milhares de trabalhadores que se submetem às piores condições de trabalho em
troca de um salário que sinceramente serviria apenas para se fazer uma compra
mensal digna no supermercado, visto que a sobrevivência tornou-se mais difícil
com o desaparecimento dos quintais nas metrópoles e a impossibilidade de se
plantar couve para o sustento familiar. Além da violência nacional, há também
a violência doméstica que não foi erradicada, mesmo com o avanço da
consciência em uma sociedade feita de comunicações. Violência domestica,
sobretudo contra mulheres e crianças, que reproduz as necessidades tirânicas
que resistem como resíduos aparentemente irremovíveis na alma.
A academia erguida em torno de totens sagrados revela aos poucos a sua face
através de seus maiores expoentes e mostra que o debate pede passagem, mas
fica truncado nos interesses da preservação de ícones.
Alguns textos acadêmicos publicados pela grande imprensa são transformados em
debates calorosos nos suplementos culturais apenas por causa do nome de seus
autores, pois se assim não fosse não seriam merecedores de maior atenção. E
abordam questões duvidosas com argumentos retóricos e frágeis, o que é
altamente decepcionante considerando entre outras coisas os valores cobrados
pelas palestras, por exemplo.
A América está se armando. De um lado a Venezuela, de outro a Colômbia. E os
Estados Unidos, a grande potencia mundial que sempre exerceu seu poder na
região transformando países americanos em seu próprio pasto e quintal, seja
financiando ditadores, seja interferindo e mandando na política econômica,
está tranqüilo, pois não precisará invadir um país que seja, basta transformar
qualquer outro do continente em potência militar, e o país que receber a sua
ajuda financeira e militar, cuidará da ação bélica para conter qualquer
revolução que possa comprometer o bom andamento do continente. E assim o EUA
agirá "de fora" com uma hipócrita e aparente neutralidade.
Quem tiver olhos de observador, há de reparar o que afinal anda tomando forma.
Aqui no Brasil o planalto decepciona profundamente os que mantinham a alma
acesa de esperanças e enquanto paralisa o país revela a face mais triste da
política que é a partilha de poder pelas pressões partidárias em detrimento
dos autênticos interesses coletivos, que deveriam recompor-se como força
motriz do fazer político e direcionar os homens de Brasília.
O presidente da nação ensaia a mancha definitiva em sua história política e
propaga a sua intenção de restringir o direito de greve, mostrando que agredir
a constituição nada representa quando se tem a "autoridade para se baixar um
decreto proibindo as greves no setor público". Não custa lembrar que a
"autoridade" do governo vem do seu passado de líder sindical. Por isso ele
pode decretar a proibição de greves. Certamente contará com o benefício do
constrangedor silêncio da militância intelectualmente abobalhada, e também com
a cumplicidade dos cargueiros, que são aqueles que se apegam a todo custo aos
cargos e por eles sacrificam despudoradamente o intelecto.
O compositor baiano injetou com suas músicas algumas preciosidades para a
formação cultural do povo do Brasil, quando falava sobre "A força da grana que
ergue e destrói coisas belas". Também nos alertou que "É proibido proibir". Se
a greve é uma anomalia social, é preciso então verificar a extensão dos
estragos causados pela situação de opressão e insatisfação que a faz surgir e
resolver a causa, não ferir a constituição.
Claro que há bons políticos, homens sérios que se realizam intelectualmente na
ação do bem público, regida pela retidão, mas estão aprisionados na
nebulosidade dos emaranhados dos interesses inconfessáveis, porém escancarados
no noticiário nacional.
Em Itaim Paulista, região do extremo leste do município de São Paulo, espaço
de pobreza e de gente sem recursos financeiros, uma jovem de dezessete anos,
grávida, baleada e morta em praça pública, mereceu uma notinha em alguns
jornais da grande imprensa de São Paulo. Outra jovem, também baleada, porém
numa região nobre e com poder aquisitivo, mereceu amplo destaque na mesma
imprensa. Tudo é direcionado para o poder financeiro, porém qualquer dor é a
mesma em qualquer lugar.
É preciso equacionar o espírito da época. Uma das formas de se fazer isso
talvez esteja na disposição individual do retorno aos valores sagrados da
justiça e do amor, e isso só poderá ser possível com uma revolução no
individuo, o que pode significar um investimento descomunal, um empreendimento
extenuante, mas não impossível.
Só com a reforma individual do pensamento e do entendimento será possível
atingir e se educar o coletivo. Para que então os homens públicos e os grandes
poderes possam ser sacudidos.
Paradoxalmente todos os pilares precisam ser abalados, e alguns derrubados,
para então no assentamento da poeira, poder-se erguer uma educação com alma de
fênix.
Todas as pedagogias do espírito que apostaram e investiram na construção da
consciência coletiva precisam ser revistas, e o retorno ao individuo deverá
pautar as novas ações. Que o individuo possa ser preparado para dar a sua
contribuição ao coletivo tal como o pássaro fabuloso que tenta apagar o
incêndio da floresta com a gotinha de água no bico, porém que ele seja
preparado sem desvios para o pensamento mágico, melhor me expressando, para o
pensamento supersticioso, que em nada contribuiria, muito pelo contrário.
Tal proposta de ação desemboca e encontra o seu seguro cais na leitura. Ela
ainda é o maior investimento que qualquer governo deve fazer para o povo de
sua nação, se quiser passar para a história como alguém que contribuiu para o
avanço.
(21 de abril/2007)
CooJornal no 525
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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