05/05/2007
Ano 10  -  Número 527
-   

ARQUIVO VASQUES

 

Marciano Vasques



DIRCE E SANTO: VOZES DA PERIFERIA

 

 

 

A última vez em que os vi foi no dia 26 de agosto do ano passado. Liguei para o Santo e o convidei para cantarem na noite do lançamento do livro "A Cidade das Cantigas". Ele aceitou o convite na hora. E ao lado dela abriu a programação cultural.

Cantaram as canções do cancioneiro popular do Brasil, começando por "Menino da Porteira", passando pela "Sereia/Liberdade para o povo/Sereia". Aplaudidos pela platéia desceram do palco, ele apoiando-a pelo ombro, impressionando a todos pelo carinho que demonstrava para com a companheira.

Ninguém reparou que a Dirce estava cega. Isso para mim foi dupla emoção. Ter os dois cantando em um evento da minha vida. E não foi a primeira vez. Em outras oportunidades os dois sempre atenderam aos meus convites. As luzes se apagando para a Dirce e a sua voz cada vez mais bela.

Certa vez quis retribuir o carinho e a dedicação deles e os levei ao programa da Inezita Barroso na Tv Cultura. Foi o dia em que vi os olhos da Dirce brilhando com mais intensidade.

Permanecemos desde o início da tarde até às 22 horas na gravação. Em nenhum momento a Dirce demonstrou cansaço. As cenas que se repetiam às vezes por causa de um pequeno detalhe. Tudo para passar ao telespectador a idéia de que a coisa acontece naturalmente.

Foi nesse dia que surgiu em mim o pensamento de coordenar um projeto de CD dos dois. Bem recentemente comentei diversas vezes com o Santo o quanto eu queria que eles gravassem um CD. Para mim, aliás, sempre foi difícil compreender como nunca tiveram apoio para gravar um disco. E eu agora tenho que ficar cantarolando "Na volta do barco é que sente...".

Desde que os conheci eles sempre participaram dos movimentos populares organizados na região pelo PC do B. A Dirce soltou a sua voz na luta dos favelados, no Movimento contra a Carestia, nos movimentos pela terra. Cantando e encantando, embelezando a alma árdua dos que lutam incessantemente por melhores condições de vida. Tornaram-se artistas populares, e passaram a ser conhecidos como uma espécie de Cascatinha e Inhana. Jamais olvidarei da Dirce cantando "Beijinho doce", "Meu primeiro amor" e até mesmo "Uirapuru".

A Dirce sempre adoentada, começando pela diabete, que lhe tirou muito da energia que tinha, mas jamais a impediu de cantar. O Santo sempre trabalhando como vigia de creche, e nos finais de semana aceitando os convites para cantar com a companheira.

Quando coordenei o evento de um ano da morte do amigo Tom no teatro do Hospital de Ermelino Matarazzo, eu os coloquei na pauta para iniciarem a programação e lá estavam os dois cantando "Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele está doendo em mim..."

Viveram décadas inseparáveis. Certamente tiveram os seus momentos de brigas, principalmente quando o Santo andou bebendo e isso estava interferindo na harmonia do casal. Mas jamais se abandonaram. E ele não se cansa de dizer o quanto deve à Dirce, o quanto ela lhe fez bem.

Serei sempre grato aos dois por terem embelezado os meus momentos. A Noite de "A Cidade das Cantigas" será sempre lembrada também pelo cantar amigo e generoso dos dois.

Dirce se foi. Entrou no quarto e ao sair teve um ataque fulminante do coração. Uma morte repentina e inesperada. Santo iniciou a sua jornada de solidão. Terá que aprender a caminhar sem ela. A sua voz seguirá em frente, sem o canto da companheira tão querida?

Desde que os conheci moram na favela do Jardim Cotinha. E desde que os encontrei os escutei cantando para os movimentos populares, porém jamais ouvi de alguma liderança política alguma palavra de incentivo para que gravassem um CD.




(05 de maio/2007)
CooJornal no 527
 


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-  poetas/expoentes-  023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br