
19/05/2007
Ano 10 - Número 529 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
ARTESÃO DOS TECIDOS HISTÓRICOS
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A inspiração que vem do cotidiano
é feita de pessoas que embalam cigarros nas indústrias de fumo, que permanecem
em pé durante horas seguidas atrás de um balcão, que vendem balas nos vagões
do metrô, água de coco nas praias brasileiras, que lêem os jornais pendurados
nas bancas da cidade, que sentam nas escadarias do Teatro Municipal e que
infestam o Viaduto do Chá lendo o futuro.
As pessoas apressadas que fingem que almoçam, que atravessam avenidas fora da
faixa, que ainda engraxam sapatos na Praça da República, que trabalham em
funilarias, em olarias e nas feiras.
Pessoas bondosas e ingênuas que estendem moedas para a mulher que distribui no
metrô a foto de uma criança com um texto no verso afirmando que a pequena está
com uma doença grave e necessitando de um determinado medicamento ou uma
transfusão. A mulher que mostra a foto olha para todos com o olhar estacionado
em uma aparente dor distante. Depois, ao sair do metrô encontra-se com as
colegas, todas sorridentes e felizes por terem desempenhado cada qual bem o
seu papel, algumas com crianças no colo. Crianças emprestadas, que, da mesma
forma que a foto possivelmente retirada da internet, comovem os passageiros.
O passageiro que inocentemente dá moedas para a "pobre mãe" ajuda a enriquecer
uma quadrilha, mas ele é motriz da história, com a sua força de trabalho.
Construindo coisas sem conhecer o todo, falando estilhaços do que sobrou de
sua alma no bar com a mesma convicção de um evangélico diante de uma platéia.
Artesão, como os homens sem recursos no sistema financeiro, como os
vidraceiros, os serralheiros, os que mostram receitas aos farmacêuticos...
Passeatas que cortavam cidades ao meio, gente que ocuparam terrenos, que
ergueram acampamentos, que gritaram por postos de saúde, que assinaram
manifestos, que lecionaram, intoxicaram a alma com o giz da ternura, com a cal
da revolta, gente humilhada nas favelas, sangrando nas sessões de tortura,
morrendo aos poucos nas filas hospitalares do sistema nacional de saúde.
Pessoas que timidamente procuraram as escolas para freqüentarem um curso de
EJA, mulheres dançando forró nos bailes da periferia de São Paulo, nos bailes
funks do Rio, nas gafieiras e no sambódromo.
Com um lápis entre os dedos, uma enxada nas mãos, recolhendo papelão e
latinhas, respirando fumaça, alcoolizando o coração, acendendo velas e
desfiando rezas e temores.
Em todos os lugares, nos centros educacionais unificados e nas escolas de
lata, nas feiras e nos mercados, nos terminais de ônibus, nos portos e nas
estações ferroviárias. Onde quer que seja, lá estão eles, cada qual
contribuindo com a sua parte, com a sua reserva de forças, cada qual se
proclamando um artesão dos tecidos históricos.
(19 de maio/2007)
CooJornal no 529
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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