
16/06/2007
Ano 11 - Número 533 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
BRASIL, EDUCAÇÃO
E FUTURO
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"Brasil,
iluminai as escolas, que nós queremos estudar".
Iluminá-las é abri-las ao novo. Desde que ele seja original e contribua com a
elevação intelectual e moral das gerações que nela se encontram.
Isso é possível com a radical sintonia entre a prática e a vontade
sensibilizada por diversas teorias, das quais devam ser extraídas as
diretrizes norteadoras da docência.
Assim como a cultura ancestral e o desenvolvimento do pensamento desde os seus
primórdios, a história da pedagogia não pode ser menosprezada pelas gerações
contemporâneas que ao ofício de professorar se dedicam.
Dessa forma, o professor necessita de pensamento que ampara: Montessori,
Freinet, Henri Wallon e outros espíritos empreendedores que contribuíram para
que o ser pudesse encontrar o local amoroso de formação integral na escola,
onde se encontram as gerações que convivem em nome de um futuro não como
quimera, mas como algo papável e concreto.
A informática, parceira do professor, convive com a ampliação semântica do
conceito que nomeia como educadores não apenas os que estão em docência nos
espaços retangulares, mas todos os que atuam nos prédios protegidos por altos
muros.
Simbolicamente o passado e o presente estão na convivência do atraente
labirinto da infinita biblioteca virtual com lousas, gizes e mimeógrafos a
álcool.
Olhar para o futuro é buscar na generosidade do fazer educativo as condições
para que o outro floresça. Desenvolvimento e aprendizagem do ser. Eis a força
motriz da ação escolar que norteará os que crescem. O ser adolesce na escola e
um quinto de uma vida de seis décadas desenvolve-se no ambiente da organização
do saber.
Como então agregar ao desenvolvimento das múltiplas facilidades proporcionadas
pela tecnologia a necessidade de uma educação poética?
Eis um ponto de partida, uma chave que pode abrir as portas ao professor
sintonizado com o olhar banhado pelas águas da novidade. O que seria uma
educação poética que pudesse ultrapassar as barreiras das circunstâncias
sociais do aluno e dos investimentos insuficientes na Educação?
Obras da literatura infanto-juvenil, livros didáticos, o zelo pelo livro.
Poderia tal objeto voltar a ser cultuado numa época em que o descartável
atinge quase todos os setores da vida? Eis um passo: o retorno do cuidado com
o livro significa resgatar o apego. Isso poderia desencadear a necessidade de
uma educação poética. O que vem a ser tal coisa?
Como resgatar a idéia de que livro é objeto de culto que deve em nossas vidas
ser preservado? Amá-lo seria conhecê-lo. O que ele tem sido para nós desde a
edificação da biblioteca de Alexandria até o armazenamento do conhecimento
numa rede virtual?
Poderá a reeducação dos sentidos facilitar a passagem de uma educação ancorada
nos benefícios tecnológicos, todavia sem compromisso poético, para uma ação
educativa na qual possa o seu manto a poesia descer?
Não se trata de exclusão de uma coisa pela outra, mas de junção, convivência
salutar. Reeducação dos sentidos e o auxílio de instrumentos científicos no
poetizar.
Maravilhosos acontecimentos, como a exploração do universo, não são alvos do
espanto lúcido - típico do olhar menino poeta da criança-, e caem na
fugacidade da informação em emoções ligeiras e descartáveis. Poderíamos, ao se
reeducar os sentidos, oferecer um favo de leques que ajudaria no crescimento
pedagógico de uma vida?
Por que reeducar os sentidos?
Talvez por estarmos a ouvir música em alto volume e em todos os lugares, e as
crianças em vez de falar estejam gritando? Quiçá precisaríamos do silêncio
para voltar a ouvir a suavidade dos timbres humanos, que nos acaricia desde as
cantigas até a música dos ventos.
Estaríamos batendo as portas bruscamente? Em vez de abraçar fortemente
estaríamos abraçando, não com leveza, mas de forma descartável?
Então se trata do uso inadequado de um dos sentidos quando o espírito da época
exige leveza e delicadeza (não é assim o ato de teclar?).
Garimpar motivos para a ação educativa nas origens, nos discursos fundadores,
nas histórias que não morrem, na oralidade, não seria também uma trilha para o
porvir de uma nação? Educando portador da consciência histórica do ser não
estaria mais apto para o exercício da cidadania?
Resgatar e preservar o tesouro acumulado nos livros infantis, nas obras
juvenis clássicas, aprofundar o interesse do aluno pelo novo (a sua
originalidade não tem vínculo com o calendário, mas sim com a condição de
fornecer crescimento), quando o seu olhar ainda está imbuído da capacidade do
espanto: eis a educação do futuro não como "um relâmpago puxado por um carro
de boi", mas como uma embarcação de felicidade.
Sendo assim, manter a lisura do olhar nos tesouros do pensamento pedagógico
acumulado através de gerações, unificar esse olhar no privilégio de se
usufruir a generosidade científica com a necessidade do transporte de uma
educação excessivamente utilitária e pragmática para um fazer educativo
poético.
Eis um caminho sincero, numa profusão de linguagens, entre as quais a da
poesia. Talvez estejamos diante da possibilidade de que deveremos escapar do
ponto de vista único, fugir do ciclope. Provavelmente a educação e o futuro
encontrem-se nos diversos caminhos ofertados pelo presente, e dessa colisão
possa surgir o nutriente básico: a múltipla vontade de questionar-se
incessantemente.
(16 de junho/2007)
CooJornal no 533
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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