
23/06/2007
Ano 11 - Número 534 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
AQUI
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Escuta.
Meu coração se dói e minha alma se arrebenta no precipício confuso dos dias
claros que ainda nos restam.
Quisera poder retornar para a doçura da voz dos ventos proclamando a república
das minhas manhãs, nas quais eu corria em busca de um lugar de vozes que se
iriam. Estaria na felicidade isenta o que eu tanto protegia na minha inocência
de homem com olhos purificados pela voz da poesia? Estaria eu no prazer da
busca?
Quando me vejo numa idade em que a brevidade da vida se torna a mais
deselegante forma de se abandonar as doces ilusões forjadas pelo maravilhoso
espírito, eis que o menino parece tão perto a correr entre as folhagens.
Basta uma palavra para levar-me ao doce sabor da ventania da juventude. Eis-la,
a palavra AQUI, basta que eu a encontre na distração do tempo das coisas que
passam. Aqui, aqui, aqui, como se ainda nos restasse aquela voz a nos moldar a
alma e o nosso belo coração de adolescente, adolescendo nas dores necessárias
para a edificação da urgência poética.
Onde eu estava e o que fazia? E o que veio como um terremoto nos lançando num
turbilhão que já nos revelava a face para a multidão? O que nos arrancou a
juventude, assim, sem perdão, a juventude, como era e como sempre foi doce...
Como queríamos nos agarrar ao que podíamos modificar! Como fomos felizes, e
tudo veio e tudo se foi, e a morte do criador da Graúna, e a ida do Caetano
Veloso, que também se foi, por que não é só de morrer que se vai. O que se foi
não estava no Caetano, mas ele que se pôs nas coisas que estão, no tempo sem
azuis sinceros, sem lilases acanhados que sejam, e a deselegância de se
proibir um livro, e então isso nunca foi realeza, isso do livro que não pode
mais circular, tudo nos beirando ao caos, ao desperdício, tudo nos remetendo
ao mundo insensato das perdas.
Aqui, aqui, aqui, para onde fomos? Para onde foi aquele teclado feliz?
Nossos ídolos, nossas confissões, nossa energia de jovem, tudo e tudo e
tudo...
Como eu prometi, te esperando eu estou, e estou aqui, neste nosso vasto caos
deitado eternamente no berço esplêndido das retóricas palavras que enganam,
que persistem... E só o verbo nos salvaria, o verbo límpido, claro, o verbo
sem medo, o verbo sincero. Sabe a palavra que é bonita por si? Sabe a voz que
nos alivia da dor? Os lábios adolescente pronunciariam jamais o vocábulo da
mulher sábia, mas os lábios úmidos da adolescência deveriam ter sido
preservados, e as canções têm, como sempre tiveram, uma imensa
responsabilidade.
Aqui, aqui, aqui... Bastaria o verbo transparente, pronunciado entre
gargalhadas, entre festas que não morreram?
Talvez eu tenha que ir embora.
(23 de junho/2007)
CooJornal no 534
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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