
14/07/2007
Ano 11 - Número 537 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
CANTRIZ
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Fugir quer dizer retornar. O
retorno tornou-se peça rara no rol dos investimentos de lapidação humana.
Humana aqui é redundância, um pleonasmo, visto que aos animais não foi
permitida a condição de auto-lapidação.
Retornar quer dizer ir para dentro, buscar no interior, e é justamente lá que
reside a possibilidade do reencontro, condição primária e soberana para o
reconforto da alma.
Alma quer dizer: aquilo que que nos incomoda e nos guia. A sua construção
depende, no tempo vivido, dos detalhes mais impensáveis como construtores de
uma forma de ser, de uma personalidade, um jeito de se direcionar no mundo. As
coisas permanecem, mesmo que aparentemente adormecidas, mas permanecem em cada
um de nós. Por mais simples e minúsculas que possam ser ou aparentar.
Um paralelepípedo molhado numa tarde chuvosa, um abrigo em uma banca de
jornais, um verde limo, um musgo distraído, uma desatenção, um repentino olhar
para o céu, coisas e seres que preenchem as nossas mais íntimas necessidades
estéticas.
Tudo, desde o prazer absoluto da leitura, foi cultivado ardorosamente e
persistentemente pela e para a coisa que em nós é, em oportunidades únicas.
Nenhuma pessoa é idêntica, ninguém trilha os mesmos caminhos, e isso compõe o
belo e insondável mosaico da vida, o maravilhoso caleidoscópio chamado viver.
Quando consegue se abrigar em si, quando consegue se arraigar, promover o seu
retorno, o homem, o ser, realiza a sua mais profunda revolução, a sua mais
bela edificação. Nada se compara ao prazer indomável e restaurante de um
retorno para si, quando os ouvidos animados estão apurados como conchas
aconchegantes de si.
Quanta felicidade é e foi desperdiçada em cada vida pela impossibilidade do
retorno, o retorno cíclico, infinitamente necessário e rejuvenescedor, visto
que a juventude da alma é o abrigo mais sólido que um homem portador de
memória deve carregar consigo.
Tudo vale na promoção do retorno, do voltar-se para si, do silêncio absoluto e
da música ancestral e universal que atinge em cheio as solicitações da alma. O
grandioso é que ela jamais abandona o ser, mesmo que ele seja forçado pelas
circunstâncias a trilhar os caminhos adversos, espinhosos, de intempéries, de
procelas violentas, de águas em turbilhões a bater bruscamente em rochedos
intransponíveis.
Fala da alma por que ela nos resgata a doçura mais sólida, a ternura que
jamais nos abandona. A receita é simples: o ser necessita de amor, o amor
oferece dimensões para o crescimento inerente. Só ele devolve ao ser a paz
necessária para o aproveitamento do tesouro temporal que o envolve desde a sua
chegada ao mundo.
A placenta amorosa que o acompanhou durante anos, os olhos que o velaram, as
folhas verdes reluzentes de clorofila, o sol, o cascalho, a areia, tudo sempre
esteve e estará na fonte memorialística do ser. E se ele enveredar pela recusa
ou pelo abandono ou ainda pelo desprezo das coisas primordiais que sempre
estiveram no discurso fundador de si, ele se perderá.
Abrir um guarda-chuva azul num dia chuvoso, azular-se em cinzas, e entrar num
cinema, recorrer à lembrança olfativa de tinta impressa em páginas de gibi
lidos, atentar para o burburinho da cidade, para as pessoas simples que
trafegam, para as calçadas, para os prédios, transformar o olhar em
guerrilheiro amoroso da paisagem ofertada fortalece a caminhada. Óbvio. Mas às
vezes o óbvio precisa ser relembrado.
Atualmente a impossibilidade de uma conversa produtora (novamente pleonasmo!)
sobre política clama pelo retorno para si, pela busca incansável do retorno. É
preciso refúgio, para que a alma seja alimentada, e o maravilhoso barco à
deriva da vida encontra um seguro cais.
Que o noticiário político seja naturalmente acompanhado, principalmente para
promover a satisfação da alma, para preencher a necessidade vital do ser de
polir os olhos, de manter a visão em permanente oficina, mas que ela, a
política demolidora que atualmente é exercida pelos homens não tenha o poder,
pois mais ínfimo que seja, de destruir o que é mais caro ao ser. O homem será
livre-em-si. Essa liberdade o transformará na criança que jamais o abandonou.
E o mistério é justamente viver em juventude, respeitando as imposições da
condição biológica, e manter aceso o olhar de criança. Eis o imenso tesouro ao
alcance de todos. Se o ser esquece a sua juventude corre o risco de assumir a
velhice. Juventude quer dizer:manter o vigor do olhar, sempre direcionado pela
rosa-dos-ventos da eterna e inabalável curiosidade do mundo, a infinita
abertura da alma para as novidades e as descobertas do mundo. O olhar de
criança deverá sempre lambuzar de cores o ser em sua enigmática do retorno na
consolidação da alma em juventude.
Assumir a velhice é submeter-se ao aniquilador desconforto de se desprezar a
memória, de recusar-se enquanto portador de juventude, de negar-se ao olhar de
criança. Três condições básicas para que a felicidade se manifeste: a memória,
a juventude, enquanto maravilha-em-si, e a criança, com seu olhar
incomparável.
Três conquistas do ser que devem ser acompanhadas pela experiência, pelo
amadurecimento da mente, e amadurecimento não quer dizer a negação das três
condições, ao contrário, a idéia de se amadurecer está aqui vinculada
exatamente no abrir-se para os girassóis da alma. Em plena força-motriz da
vida, a cantar a sua generosidade e estar no palco.
(14 de julho/2007)
CooJornal no 537
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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