
21/07/2007
Ano 11 - Número 538 -
ARQUIVO VASQUES
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Marciano Vasques
Amargura demais enjoa
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Bom escolher o grau de amargura
para a sua vida e para o seu momento. Isso não se aplica nos casos de
tragédias e perdas de pessoas queridas. A morte sempre traz consigo uma dor
inevitável. A única certeza da vida é a que mais sofrimento traz.
Porém, nos outros casos a amargura pode ser dimensionada, pode ser planejada,
quantificada, colocada e medida em graus. Eis o primeiro passo. Conheça bem as
medidas da sua amargura. É com ela que irá lidar, é ela que enfrentará.
Pode escolher como grau primeiro a amargura do jiló.
É uma amargura interessante, pois é quase lendária, e a que existe de fato,
pode ser resolvida com um simples tempero e um simples refogado. Jiló que se
preze é consumido com prazer pelos amantes da boa culinária.
Um segundo grau da amargura é a do boldo.
Aí é mais complicado, mais forte, mais grave, mais difícil de se lidar. Tendo
escolhido a do boldo, a etapa seguinte é a do equacionamento, de como lidar
com ela, como conviver com essa amargura, e em certos casos como fazê-la
funcionar- como se fosse uma auxiliar, uma ferramenta, e, mais adiante, uma
companheira, e até excelente, pois pode desempenhar o papel coadjuvante ou
protagonista de muleta ou cadeira de rodas, e em casos mais graves, de
imobilidade total.
Feito isso poderá permanecer para sempre com ela se quiser, a vida é sua.
O terceiro caso, também profundamente gravíssimo, é a amargura da losna, que,
dizem, é mais amarga do que boldo.
Tendo escolhido a sua amargura, e tendo enquadrado-a em graus, resta seguir em
frente e dela fazer bom uso, aproveitando da sua nova condição para ser
beneficiado pela camaradagem. Não poderão molestá-lo, nem deverão incomodá-lo
exigindo atitudes, mobilidade e decisões. Não será chamado por ninguém de Sr.
Decisão. A maioria dos amigos não será exigente com você. Para que incomodar
um amargo? Para que atormentar quem em amargura vive? Ninguém chuta cachorro
morto. E como tristeza costuma dar ibope, poderá se tornar muito apreciado por
alguns amigos, que provavelmente adoram ver gente triste.
Ora, que importam os motivos? Se não forem os citados no primeiro parágrafo,
então para que o incômodo da sacudidela? Para quê? Melhor permanecer com a
tristeza, com o amargo, e evitar ao máximo o sacolejo. Afinal não é uma
amargura brotada da mais autêntica dor, é uma que nasceu de um problema
qualquer, de uma aflição cotidiana.
Melhor permanecer na tranqüilidade que só uma amargura assim pode
proporcionar.
Será?
É uma injustiça medonha incomodar um amargurado, exigindo dele uma atuação
diante de um problema.
Deixe-o em paz, deixe-o curtir a sua amargura, ele afinal a mereceu. As coisas
não estavam bem, um namoro que se findou, um negócio que não deu certo, a
reprovação em um concurso, dívidas intermináveis, um carrossel de dívidas
insolúveis, patrão, mulher, trânsito, insatisfações pessoais, governo. Tantas
são as causas, que toda amargura pode e deve ser justificada. Ser amargo é
como ser triste. Tem as suas vantagens.
Um ídolo musical de juventude pode ser engendrado pela indústria cultural
tendo como suporte maior a sua tristeza, ou pelo menos, os olhos tristes.
Sempre dará certo. A tristeza desencadeará sentimentos maternais, sempre
adormecidos em cada um de nós, pois a natureza primeira do ser é a de mãe. É a
própria natureza da terra.
Se você falar para uma criança que ela é tímida, estará dando a sua
contribuição para a construção de um adulto tímido, e assim é com a tristeza,
basta comentar que fulano é triste, e ele certamente gostará, embora não o
revele, mas lá no esconderijo, lá no mais íntimo do ser, é bom ser saudado
como triste.
Alguém triste é praticamente intocável.
É digno e merecedor de todos os cuidados. Generalizando, a maioria gosta mais
do triste. Geralmente ele não incomoda, fica no seu canto, e dele não se
exigirá uma ação enérgica, uma ação para a luta e para a mudança das coisas.
Ele pode até estragar uma festa ao tentar contagiar a todos, mas é só deixá-lo
de lado curtindo a sua tristeza, que é o que ele mais gosta, embora não
confessadamente, e com exceções.
Um triste, um melancólico, um amargurado, é quase um ídolo.
Para a sociedade, um triste faz mais efeito, um amargurado é mais
interessante. A idolatria do triste começa na inspiração dos cuidados
excessivos. Ninguém gosta de burilar a "paz" de um triste. Um triste pode ir a
um parque de diversões, mas continuará triste, pois esse é o seu maior
alimento.
O portador de alegrias não é tanto apreciado, pois ele tem o péssimo hábito de
incomodar. Já pensou um sujeito muito alegre em uma roda religiosa? Seria uma
blasfêmia, uma arrogância, um desatino, uma profanação, pois a maioria das
religiões ergueu-se sobre o sofrimento, e estendeu o véu da tristeza nos
seres-de-oração. Os fundadores das religiões não agiram em estado de festa,
dançando, cantando em profusão de alegria. Para que uma religião fosse
fundada, deve sempre ter havido a condição primeira. Deve ter havido a
tristeza. Ela pode ter sido um dos motivos responsáveis pelo "impulso natural
do ser" para a religião. Tristeza com sua força de escravizar, com seu
estatuto de escravocrata. Escravidões do mundo jamais desprezaram a tristeza.
Nem as religiões.
A tristeza atrai mais adeptos. Uma religião de gente feliz, alegre, que dança,
que explode em risos, que festeja, com o vinho da alegria, a vida, com certeza
será banida, confinada, ou evitada ao máximo, dependendo da fase histórica da
humanidade.
Como é bom ser triste! Como é reconfortante ser amargo, viver em condições de
amargura. Como isso é paralisante! Como é bom ficar em seu próprio canto,
remoendo, cabisbaixo, vendo a caravana passar. Amargura, como eu a quero!
Assim terei a atenção de todos, dos amigos, dos parentes, dos psicólogos,
todos estarão pré-ocupados demais com as causas e as soluções da minha
amargura, da minha tristeza, e ninguém irá me chatear nem me incomodar,
exigindo que eu vá à luta.
Ir à luta por quê? Amargurado é já um perdedor. Então melhor se recolher, se
encostar, melhor ficar num canto qualquer se rastejando, andando
onduladamente, deixando um rastro amargo no caminho. Amargurado e triste, a se
rastejar, a se curvar, mas ficando em paz com os seus motivos, tendo
conquistado o direito de ficar em um cantinho lendo o jornal, assistindo a um
filme, tomando um sorvete, comendo pizza e mais pizza, ou simplesmente ligando
a TV...
Tem um detalhe: amargura demais enjoa. Isso mesmo. Se os motivos não é a perda
de um ente querido, não é uma tragédia, então a amargura vai incomodar depois
de um certo tempo.
Como ela é, a exemplo da tristeza, um sentimento paralisante, uma forma de
imobilização do ser, um acomodamento das forças produtivas, uma redução na
potência original de cada um, pode ser reconfortante e gratificante por um
determinado tempo, por conta dos benefícios de uma atenção alheia nada
exigente. Considerando que vivemos a maior porcentagem de nossa vida em função
da atenção alheia, -por isso nos exibimos-, é notável o fato de que sempre
damos uma importância exagerada ao que pensam de nós, e a forma com que nos
apreciam, nos examinam, nos medem, nos moldam, e quase sempre são tão
generosos com a nossa imobilidade!
Se durante um determinado tempo a amargura é benéfica, depois ela começa a se
esgotar, a murchar, começa a perder o sentido, e começa a incomodar, a querer
e a clamar pela sua própria expulsão, a solicitar o seu próprio esmagamento,
por causa da sua natureza primordial, que é a sua condição de improdutividade,
que não combina, em hipótese alguma, com o ser, que é produtivo por
excelência, por isso nasceu, por isso foi colocado diante do mundo.
Há uma grave incompatibilidade entre a amargura e o ser. Com a produtividade,
retorna a força da potência original, e então acontece o inevitável. O ser
torna-se colorido, festivo, alegre, radiante. Assim ele é. Forças
incompatíveis não convivem. A tendência natural é que uma anule a outra. Sendo
assim, ou o ser expulsa a amargura ou ela acabará com ele.
Não há uma batalha de incompatíveis no ser, há sim a força bruta de um
anulando de vez a fraqueza do outro, consumindo as energias restantes.
O curioso é que um fornece o combustível para o outro, um fornece o alimento,
um fortalece o outro, é como o processo do ídolo. Uma vida sem autenticidade,
de fraquezas e de falta de viço leva fatalmente à necessidade de ídolos.
Quanto mais ídolos, mais sentido para a vida, par a pseudo-vida, ou seja,
ídolo deixa de ser algo saudável, alguém digno de admiração. No universo
musical, por exemplo, a adoração (estimulada pela indústria) por alguém supera
de longe o gosto pela música, o criador supera a criação, a obra, e se torna
objeto de culto.
Após a expulsão da amargura, a vida retorna com a sua presença princesial, de
princesa mesmo, rica e farta, humana e bela, bela por isso, por sua própria
humanidade,
Com o retorno da alegria, da festa, do colorido, retorna a vontade de viver, e
com ela a vontade festiva e sorridente de produzir coisas, de fazer e refazer,
de começar e de recomeçar, de recondução do ser à sua condição primeira.
Alegria. É para isso que o ser é, é para ela, para a alegria contagiante que
anunciará a felicidade, é para isso que o ser quer estar no mundo. Tristeza e
amargura são sintomas de um não-ser, uma coisa que se foi, algo que não está,
que não é.
Em vez de compensar a "infinita" tristeza causada pelos inúmeros dissabores, o
ser recupera-se e vai à luta, ergue-se, vai ser feliz, e cumprir o seu destino
único, o de viver para a felicidade, isso significa: viver para a
produtividade, fazer uma festa com a sua alegria, com a sua potência original.
Viva o ser-em-alegria! Façamos festas para recebê-lo. Ele é o maior, o que
merece todos os risos e todos os riscos, ele está em estado de felicidade, ele
não precisa da amargura e afastou a coisa do jiló, do boldo ou da losna. Viva
o ser que sorri!
Sorrir não é um slogan, um mote, um imperativo publicitário, sorrir não tem
nada a ver com gestos artificiais, não é sorrir para a foto, não é sorriso de
creme dental, sorrir é abrir a alma, é permitir que a festa de viver penetre
velozmente em seu ser, em sua vida, corcel maravilhoso num campo florido, a
correr infinitamente.
Permita-se, enquanto ser, tornar-se um fornecedor das condições para que a
energia maravilhosa do sorrir em você escoe. Sorri está além da face. Está nas
células, lá dentro, no íntimo, no início do ser, no ponto de partida.
Só porque é difícil será fácil. Será esse o caminho condutor. Livrar-se da
amargura, deixá-la impotente, sem forças, fraca, rastejante. Assim ela ficará.
Nem vale a pena mais alimentá-la, reconfortando o corpo com excesso de
alimentação, comendo doces e doces, todos de efeitos neutralizantes, pois
amargura da alma não se cura com doces para o corpo. É puramente ilusório.
Adiante, com a amargura nocauteada, pisoteada, esmagada, o ser renasce em
girassóis, em cores e sóis, em festas, em risos e em alegria incontida. Isso
não é utópico, nem palavreado desconexo com a vida. É o ser com vontade de
abraçar que ressurge.
É que existe um fator arrasador, um fator decisivo para a substituição da
amargura pela alegria feliz. É o fator EU. Com ele ninguém pode.
Chegamos ao eixo central de nossa "teoria". Só ele poderá resolver isso, só
ele decidirá tudo, ele é EU. Eis o fator. Bobagem os livros de auto-ajuda,
venham eles até disfarçados de romances, venham a ser escritos por psicólogos,
por filósofos ou por magos, nada disso interessa, e não produzirão nenhum
efeito, se você desprezar o fator EU.
É ele o grande temor da amargura. Que atemoriza e escandaliza de medo a
tristeza, pois quando resolve agir, se impõe. Só ele, o Eu, Então esse EU,
esse fator, é você. Sim, você nesse exato momento. Pois não existe outro
momento. Nenhum outro momento supera o vivido exatamente agora. Ele absoluto,
o único capaz de produzir a grande revolução interior. Ele é o agora, o
momento vivido por você. Não o que virá ou o que já passou, esses não importam
no instante presente. Só ele, o exato momento atual, poderá desencadear as
decisões que modificarão o estado do ser. Só ele tem as condições de expulsar
a amargura, a tristeza, o enfraquecimento. Ele, o exato momento que se vive, e
você, único portador do fator EU.
Se adiar, dançou. Nada deve ser adiado. Nenhuma decisão de caráter interior
deve ser adiada, pois não existe o momento seguinte, para isso não.
Decisões materiais, como uma poupança, a compra de um imóvel, a construção de
um projeto comercial, um carro novo: essas coisas podem ser adiadas,
planejadas, ou seja, as condições deverão ser criadas para que elas aconteçam,
mas uma decisão tão profunda, tão gigantesca como a de expulsar a amargura do
ser para abrir as porteiras para a passagem da vida, uma decisão assim não
pode ser adiada, pois isso não combina com a vontade do ser, que é a vontade
manifestada da vida.
Então o primeiro passo é, através de uma varredura nos porões da mente, de uma
limpeza, uma remoção de entulhos e resíduos, justamente verificar o grau da
sua amargura, e iniciar o processo de expulsão.
Como o que é difícil sempre será fácil, então você deverá recolher o que tem a
seu favor e decretar a expulsão da tristeza.
E o que tem a seu favor? Vamos rever. Primeiro o fator EU. Isso o torna mais
importante do que já é. Você, e só você é portador desse fator único e
radiante. Segundo, o Momento Exato, o único que existe e que tem a seu dispor.
É pegar ou largar. EU, e o Momento Exato. Nada mais. O restante é compreender
que não está fazendo nenhuma injustiça em expulsar a amargura, está fazendo
algo benéfico, algo grandioso e que já demorou muito.
Está expulsando algo enjoativo, que só atrapalha, que só prejudica, que só
reduz a força.
Amargura? Nem um pouquinho que seja, quanto mais assim em grande quantidade,
pois se um pouco incomoda, demais enjoa.
(21 de julho/2007)
CooJornal no 538
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores- poetas/expoentes- 023.htm
www.marcianovasques.hpg.ig.com.br
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