16/11/2019
Ano 22 - Número 1.149



 

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W.J. Solha

 



 
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W.J. Solha



SE JESUS FOI A LUZ DO MUNDO, VIRGULINO ERA LAMPIÃO

W.J.Solha - CooJornal

 

Virgulino dizia que cruzar com raposa pela caatinga era sinal de más notícias. Se um cachorro uivava, ou um bando deles fazia uma latideira agoniada, a coisa seria pior ainda.

Certa vez um sabiá desceu bem perto dele e levantou cisco, alvoroçando-se, todo “arrupiado”, e isso bastou pra que reunisse os capangas e fugisse, minutos antes de que a polícia fechasse o lugar.

Foi graças a essas coisas que ele chegou a chefe. Quando o bando entrou numa casa da fazenda Forquilha, Nhô Sebastião Pereira, então no comando da corriola, mal chegou foi logo se esparramando numa rede, mas Virgulino deu o aviso:

- Compadre, beba água e vamos furar pra diante, que os ‘macacos’ vêm aí!

Pereira tomou o rapaz por nervoso, ao que Lampião disse: - Pois então se prepare que vamos levar tiro já e já.

E foi só no que deu.

Já em Souza do Ceará, o grupo desceu pra uma fazenda onde só havia milho para comer, Virgulino cismou:

-A gente vai comer é pipoco de bala e muito, se ficar aqui mais cinco minutos.

Dito e feito. Daí por diante, com fama de adivinho, mandingueiro, e capaz até de ficar invisível, passou a decidir onde e quando se devia ficar, fugir ou atacar. E de pajé a cacique passou, sem que ninguém sentisse.

Mas, depois de passar a perna na polícia de sete estados, durante cerca de vinte anos, foi esconder-se num beco sem saída, como a Grota dos Angicos, talvez porque sentisse que a sua hora estava chegando, e a danada da Grota parecesse o Horto em que Jesus teria suado sangue e fora preso.

Tudo, no fim dele, foi muito esquisito. E no começo também. Nertan Macedo cita o “Cancioneiro de Lampião”, de autor não identificado:

           Não era ele rebento
           De Maria e de José?
           Não foi criança inocente
           Nos campos de Nazaré?

De fato, Virgulino era filho de José Ferreira da Silva e de Maria Selene da Purificação.

No meu romance A BATALHA DE OLIVEIROS, versifico isso:

          Nunca botaste teu tino
          na família a fugir sem destino,
          levando de tudo – até os bodes –
          que só se tivesse nos mocotós outro Herodes,
          mudando,
          que coincidência,
          pra Vila de Nazaré?

          No entanto, é tudo verdade
          e dou fé.

          O mais danado, entretanto
          é que o povo desse lugar
          tinha fama de tão valente,
          que o meu Capitão Virgulino,
          por derradeiro inocente,
          dizia, já em pequeno:
           “Procedo de Vila Bela
          mas não digo mais que sou dela,
          porém que sou Nazareno!”

No final, aconteceu muita coisa estranha, também. Pra começo de conversa, Zé Sereno bem que insistiu no dito de Corisco de que coito de uma só saída – a Grota, no caso – era cova de defunto, e insistiu no fato de que tinha visto nas rolhas das garrafas de cachaça, fornecidas pelo coiteiro, furos de agulhas de injeção, sinal de que as bebidas trazidas por ele estavam envenenadas. E Mané Félix chegara de Piranhas dizendo que o sargento Aniceto tinha botado o vaqueiro Joca Bernardes no canto da parede, e conseguido, dele, a informação de que Pedro de Cândido sabia de Lampião! Por que não fugir, escapar de uma vez?

Alguns dias antes de morrer, Lampião chegara muito abalado junto de seus cabras, e contara que estava na margem do grande rio, quando o Nêgo do São Francisco lhe apareceu e ficou parado, olhando pra ele, coisa de fazer medo. Eu me arriscaria a dizer que essa visão foi o que Jung chamaria de "Sombra", o eu-obscuro de cada um. Isso lembra a visão do anjo no Jardim das Oliveiras.
Depois , dizem que Virgulino ficou parecendo tísico. Mofino o tempo todo, falando que precisava de um retraimento, pra ver se podia viver mais uns dias.

- Tô morto – resmungava. – Não sou mais homem pra essa vida.

Há uns versos dele que dizem assim:

          Estou bem perto do fim
          que ele bom não pode ser.
          Mato João, Pedro e Martim
          e onde vou comparecer?
          Já fiz tudo que queria
          que me importa viver?

Lampião morreu em 38, o mundo, lá fora, à beira da grande guerra, gerava um grande progresso da ciência e da tecnologia, que Virgulino acompanhava pelas revistas O Cruzeiro,... Fon-Fon, ... A Noite Ilustrada.... Vai daí que, quando o bando cruza o São Francisco pra chegar à Grota, dá com um jazz-band que, noutra barcaça, viaja de Traipu para Pão de Açúcar. Virgulino paga cinquenta mil réis pra cada músico e eles tocam... fox-blues de Cole Porter; e, de Louis Armstrong, o repertório do Mahogany Hall Stomp, disco da Polydor, que o fanático Júlio Cortázar citaria em Rayuela e Jazzuela, e que diria ter comprado em Buenos Aires, em 1935.

Maria Bonita estava ranzinza, bruta com Virgulino que, macambúzio, atinava que o tempo dele tinha passado: usava uma arma de 1908, recebida do Padrim Ciço em 1926 com a patente de capitão, um fuzil transformado em mosquetão-máuser pelo amigo Mestre Né, mas assim mesmo capenga, em vista das metralhadoras belgas de vinte tiros, Hotchkiss de trinta disparos, com que a polícia vinha.

Aí, no France Soir saiu, no dia seguinte ao da morte de Virgulino, estampado na primeira página: Morreu o Rei Vesgo do Sertão. Em Nova Iorque o fato também foi manchete, e na Alemanha, quando se tomou conhecimento da degola do cadáver, pediu-se ao Brasil a cabeça do cangaceiro, para lhe estudar o gênio! Isso me lembra a placa escrita em três línguas, no alto da cruz, que aquele era o rei dos judeus.

E esse homem, esgotado, com mil contos de réis, ouro que dava para encher com gosto duas bacias de rosto, não só não deixa o cangaço, como teima em não sair da Grota. Por quê? O sertanejo sempre foi místico, esquisito, capaz de associações mentais quase inacreditáveis. A Juazeiro dos tempos do Padre Cícero repetia o episódio da adoração do Boi Ápis, nas rezas e bajulações em torno do Boi Mansinho, do Beato Zé Lourenço, por causa da mentalidade do homem num meio semelhante. Os flagícios a que os penitentes se impunham não passavam de repetição de cenas da Idade Média na Europa, provocadas pelo ambiente do Cariri, semelhantemente medieval. Mas tudo isso é bem menos esdrúxulo do que mais de seiscentos penitentes cantando e se disciplinando na Serra do Horto, perto daquela cidade – ainda nos seus primórdios – certos de que ali se encontravam os chamados Lugares Santos do Evangelho. A um quilômetro dali, no lugar conhecido como Veado Frio, havia umas pedras onde se dizia estar a sepultura de Jesus. O fenômeno se devia a uma litografia, nos diplomas da Irmandade do Santo Sepulcro, onde se via a semelhança entre o Juazeiro, Rio Salgadinho e a Serra do Horto, com Jerusalém, o Rio Jordão e Monte Calvário. Dizem que um doente, ao se banhar no Salgadinho, tomando-o pelo Jordão, ficara curado.

Lampião ganhou, certa vez, a História de Cristo, de Giovanni Papini. Talvez ali estivesse a razão de seu companheiro dileto se chamar Luiz Pedro, cabra que, numa brincadeira, sem querer, matara-lhe Ferreirinha, irmão muito querido, o da Mulé Rendera. O perdão do chefe calara tão fundo no assassino involuntário, que ele nunca mais cortaria os cabelos nem as unhas, além do que juraria que morreria aos pés do seu comandante, o que, de fato, cumpre na Grota. Luís Pedro, na hora H, bem no meio do fuzuê... se mandou!, mas logo caiu em si e... acabou por morrer cheio de balas, aos pés de Virgulino, o que lembra São Pedro fugindo de Roma, quando tem uma visão em que Jesus arrasta a cruz, pelo que o apóstolo lhe pergunta Quo vais?, Pra onde, danado, Tu já vai com essa cruz outra vez, Senhor?

O outro Pedro, esse de Cândido, trai o chefe! Veja que ele é o coiteiro fiel, o que faz todas as compras de munição de boca e de armas pro bando. Um tesoureiro, tal e qual Judas! Não foi à toa que Zabelê versejou depois:

          Ninguém no mundo se livra
          do golpe duma traição.
          Até Jesus foi traído
          por um judeu sem ação
          e morreu crucificado
          sexta-feira da paixão.

          Lá na Grota dos Angicos
          no meio da escuridão
          cercado de todo lado
          ferido de supetão
          foi pego, foi traído
          o gigante do sertão.

Quando Mané Félix chega na Grota, nota logo uma coisa estranha no bando e pergunta se tinham dançado, viajado toda a noite e o dia, para estarem daquele jeito, mal sentando e já dormindo.É a cena exata do Horto das Oliveiras!

Assombra ler, no livro de Papini, que os apóstolos tinham-se deixado vencer pelo sono. Os temores dos últimos dias, a torturante melancolia de um jantar que terminara com palavras tão graves e com tão lúgubres pressentimentos, tantas emoções repetidas, fizeram com que caíssem numa espécie de sonolência mais parecida com torpor do que com o sono natural.

Zé Sereno achou que aquela sonolência vinha de bebidas batizadas e que a polícia só conseguiu apanhar Lampião porque ele estava envenenado ou grogue.

Papini:
“Lá embaixo, através dos arbustos que margeiam o caminho, luzes vermelhas aparecem e desaparecem na noite. São homens de Caifás, que sobem atrás de Judas.”

Pedro de Cândido chega no escuro, trazendo a volante. O Tenente João Bezerra, sem poder enxergar o caminho, acende sua lanterna, que é vermelha, pelo que leva uma bronca do coiteiro:
- “Hóm: tu quer que Lampião veja a gente de longe, é?”

Veja o arremate no cordel de Rodolfo Coelho Cavalcante:

          Lampião foi no inferno
          Ao depois no céu chegou.
          São Pedro estava na porta,
          Lampião então falou:
          Meu velho, não tenha medo,
          Me diga quem é São Pedro
          E logo o rifle puxou.


(Este texto - com variações - publiquei-o num dos jornais de João Pessoa, nos anos 70. No final da década, trabalhando na Direção Geral do Banco do Brasil, o ensaio saiu de novo, com o título de "Capitão Virgulino Ferreira no Cerco da Sincronicidade", como colaboração no último número da revista DESED, do BB. Em 12 de julho de 92, a matéria ocupou as duas páginas centrais do Correio da Paraíba. Por fim, em 2009, entra na narrativa de meu romance Relato de Prócula ).



Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, em waldemarsolha@gmail.com
 


Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Recentemente, trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho  e em “Era uma vez eu, Verônica”.
wjsolha@superig.com.br 




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