15/01/2018
Ano 21 - Número 1.061



 

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W.J. Solha

 



 
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W.J. Solha



ARIANO E BRÁULIO EM MÁXIMO DE SER

W.J.Solha - CooJornal

 

Com o toque de Midas de Bráulio Tavares e do autor de O Auto da Compadecida, eis aí o ABC de Ariano Suassuna.
 
Esse livro de nosso conterrâneo - lançado pela José Olympio Editora – está entre algumas preciosidades de minha estante mental, como O Escorpião Encalacrado, de Davi Arrigucci Jr.( sobre a obra de Cortazar); Hamlet e o Complexo de Édipo, de Ernest Jones ( que aplica a teoria freudiana no Príncipe da Dinamarca e no próprio Shakespeare); Como se Faz um Filme, de Eisenstein (em que ele conta como criou O Couraçado Potenkin); A Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe ( sobre o surgimento e evolução de seu célebre poema O Corvo) e, daqui da Paraíba, Signo e imagem em Castro Pinto, de João Batista B. de Brito.

Como intelectual enciplopédico que é, tão fissurado pelas artes quanto pela ciência e tecnologia, avesso a todo mistério e segredo - se desvendável -, Bráulio revela que foi buscar a ideia estrutural desse perfil biográfico em obras como o ABC de Castro Alves, de Jorge Amado, e o ABC de Jesuíno Brilhante, de autor anônimo (reproduzido em Heróis e Bandidos, de Rodrigues de Carvalho). Mas esse seu livro me remete diretamente, também, ao Dicionário Khazar, de Milorad Pavić, um romance sérvio que marcou época nos anos 80, e o resultado de sua influência é o retrato cubista, por sua fragmentação temporal, espacial e temática, de um personagem fascinante, que nasceu num palácio, o da Redenção, teve o pai assassinado no Rio, tornou-se criança e adolescente sertanejos em Taperoá, estudou Direito e Filosofia no Recife, ficou famoso por suas aulas-espetáculos, por seus ensaios, por uma peça de teatro – O Auto da Compadecida -, por um romance estranho – A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, por suas incursões nas artes plásticas e na poesia, por ter fundado o Movimento Armorial, etc, etc, e bote etc nisso. Aí entrou na Academia Brasileira de Letras, foi tema, no carnaval carioca, do samba-enredo Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino, foi assunto do documentário O Senhor do Castelo, de Marcus Vilar, foi nomeado – aos oitenta anos – secretário de cultura do governo do estado de Pernambuco, e – consagrado – seguiu de rota batida para a imortalidade, devidamente coroado pelos louros do plim-plim.

Claro que na ficha catalográfica do ABC consta Biografia. Claro que nem na d'Os Sertões nem na de Dom Sertão, Dona Seca há registro de romance. Mas é como eu li todos três. Com mais ou menos apego à realidade nua e crua, tem surgido toda uma série de famosos romances-verdade, nonfiction novels ou romans-a-clé, como A Sangue Frio, de Truman Capote, Pé na Estrada, de Jack Kerouac, e Coração das Trevas, de Conrad, e até eu parti para a mesma senda na parte intitulada A Gigantesca Morgue, de minha História Universal da Angústia, ao juntar - numa série de contos de extrema violência -, a condensação de 126 reportagens nessa linha, colhidas num período de dez anos. Esse artifício leva o leitor a receber a experiência da realidade com uma força extraordinária. No ABC, a densa conjunção de solidez, argúcia, clareza... e beleza, faz com que o livro... salte – no meu entender – do terreno simplesmente biográfico para o romanesco. Há um momento em que o próprio Bráulio diz, nesse seu trabalho:

- Quanto mais verdadeira uma coisa, mais bela.

Cita Keats:

- Beauty is truth, truth Beauty. Beleza é verdade, verdade, Beleza.

- E a Beleza, segundo Plotino (citado por Ariano, idem por Bráulio), é… os seres em máximo de ser.

O livro mostra como Suassuna, que diz ser feio desde menino, mas apaixonado pela beleza, tornou-se, com o tempo, alguém em máximo de ser, dotado, portanto, de enorme beleza, pelo que passou a ser intensamente amado por todo o país. A década de 1990 – diz Bráulio – trouxe-lhe notoriedade pessoal de um modo que ninguém seria capaz de supor. A tal ponto, anota, que surgiu um grau de impaciência do autor com a quantidade de compromissos a que é submetido. De fato, ele tem vivido numa roda-viva de aulas, feiras-de-ciência, artigos, mesas-redondas, programas de televisão, homenagens, semanas culturais, entrevistas para jornais, orelhas de livros, depoimentos para vídeos e filmes ou revistas, cartas de recomendação para instituições culturais, apresentação em catálogos de exposições, e a lista prossegue, interminável.

Como diz a raposa ao nosso distante Pequeno Príncipe: Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.”

- O que é apprivoisé?, pergunta-lhe ele várias vezes.

Apprivoiser é “domesticar, “domar”, “amansar”, diz o dicionário francês-português. Mas a tradução corrente da frase, é Tu te tornas responsável para sempre daquilo que cativaste. E o eco responde “domesticaste”, “dominaste”, “amansaste”. Parece que Ariano está conseguindo, na verdade, em sua luta pela preservação de nossa cultura burro-xucra, domá-la, dominá-la, monopolizá-la – apesar do massacre alienígena. Não só pelo seu trabalho de autor, como pelas influências que exerce.

O ABC de Ariano Suassuna foi dado à luz ao sol da onça caetana. Louvado seja ele, além de seu autor e de seu tema.



Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, em wjsolha@superig.com.br
 


(15 de janeiro, 2018)
CooJornal nº 1.061


Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Recentemente, trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho  e em “Era uma vez eu, Verônica”.
wjsolha@superig.com.br 




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