16/03/2019
Ano 22 - Número 1.117



 

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W.J. Solha

 



 
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W.J. Solha



O FENÔMENO ZÉ BEZERRA

W.J.Solha - CooJornal

 
O menino Zito volta à literatura, devido à sua paixão pelo cinema, quase quarenta anos depois de publicar o romance Fogo e de produzir o filme O Salário da Morte.


PRIMEIRO ATO

Quando decidiu transformar seu primeiro livro no primeiro longa-metragem de ficção em 35mm da Paraíba, isso em 1969 e em Pombal, no agora chamado sertão profundo (a quatrocentos quilômetros da capital e centro cultural e econômico do estado), José Bezerra Filho revelou-se um líder nato. Irreverente, alegre, versátil, furão, além de trabalhador incansável, não só convenceu Linduarte Noronha, o famosíssimo diretor do celebérrimo documentário Aruanda, a dirigir o filme, envolvendo também o maestro Pedro Santos para lhe criar a trilha sonora, como me convenceu de que eu seria um de seus atores – apesar de um teste horroroso – e, principalmente, conseguiu fundar a Cactus Produções Cinematográficas, vendendo lá mesmo, na terra de Celso Furtado e de Leandro Gomes de Barros, as ações suficientes para a produção da grande aventura. Para se ter uma ideia de seu poder de convencimento, tivemos dezenas de comerciantes e fazendeiros investindo quinhentos cruzeiros cada um, enquanto ele próprio entrava com seis mil e eu com quatro vezes essa importância.


SEGUNDO ATO

Mais difícil do que me levar, com seu entusiasmo, a empregar a grana que eu não tinha – pois tive, para isso, de vender minha casa, meu caminhão, e de assinar alguns papagaios pesados – foi, nos anos anteriores, convencer-me – a mim, um funcionário realizado do Banco do Brasil - de que eu tinha “enorme talento para a literatura”, acabando por me meter, também, no teatro e por me conduzir, pela primeira vez, a um palco – do qual tinha e ainda tenho imenso pavor.


TERCEIRO ATO

Quando a Cactus entrou no vermelho, um ano após o lançamento de O Salário da Morte, Bezerra fez algo ainda mais incrível: pagou todas as contas da empresa cinematográfica... com teatro, vendendo espetáculos e mais espetáculos – todos de boa qualidade e com o melhor elenco de João Pessoa - a prefeituras do interior.


QUARTO ATO

Mas nem só com isso Bezerra fez circular suas peças. Fui testemunha de um acontecimento único, no Santa Roza, poucos anos após o filme: vi a polícia contendo a multidão que queria porque queria entrar no teatro já abarrotado para ver O Mundo Louco de Zé Limeira, escrito, produzido e montado por ele. Acertando em cheio na escolha do tema, acertando em cheio na escolha dos atores – que tinha o Ednaldo do Egipto no papel principal – e acertando em cheio no fato de que não se pode confiar na bilheteria, pois eu mesmo tive noites com meus espetáculos – A Batalha de OL contra o Gígante FERR e A Verdadeira Estória de Jesus – em que havia mais gente no palco do que na plateia. Bezerra simplesmente caiu em campo na venda prévia de ingressos, em grandes lotes, para empresas, escolas e clubes, para passar ao largo de tais angústias.


ÚLTIMA PARTE

E aí Zé Bezerra lançou seu segundo romance, depois de tantos anos – A Paixão Segundo o Metrópole – já com centenas de exemplares previamente reservados por amigos – que ele tem muitos – cada um adquirindo de dez a vinte exemplares dele. Lembro – veja a diferença - que vendi um total vinte e nove exemplares de minha História Universal da Angústia no lançamento, e oito... no do poema longo Trigal com Corvos.

Apesar de tudo, eu e Bezerra temos biografias paralelas: somos, ambos, filhos de carpinteiros, ambos escapamos do miserê em concursos para o Banco do Brasil, ambos fizemos literatura, teatro, cinema e, enquanto eu lançava meu Relato de Prócula, envolvendo Cristo e a Sétima Arte, ele publicava essa Paixão segundo o cine Metrópole.

A tônica de seu romance é justamente a liderança do garoto Zito – apelido de Bezerra na antiga casa de seus pais – demonstrada, principalmente, quando da reconstrução do cinema desmoronado pela chuva, meta para a qual ele teria mobilizado o bairro da Torre em peso. Com maestria, o autor alia o hilariante ao surreal, comenta o Antonio Serafim Rêgo Filho, Professor de Filosofia e personagem da narrativa. Encantados com seu livro ficaram, também, o poeta Sérgio de Castro Pinto e a atriz Eliane Giardini (que começou sua carreira em O Salário da Morte). Hildeberto Barbosa Filho, crítico respeitadíssimo, diz mais, empolgado:

- Revelando a simplicidade do autêntico narrador, armando e conduzindo uma trama leve, agradável, atrativa, tanto pela cadência ritmada da oralidade em termos estilísticos como pelo valor da substância que se enraíza em seu solo temático, José Bezerra Filho funde, na corrente do texto, o patético e o sublime, numa comovente, definitiva e apaixonada homenagem ao cinema.

Acho que não é preciso dizer mais nada.


Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, em wjsolha@superig.com.br
 


Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Recentemente, trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho  e em “Era uma vez eu, Verônica”.
wjsolha@superig.com.br 




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