16/05/2019
Ano 22 - Número 1.125



 

ARQUIVO
W.J. Solha

 



 
 Venha nos
 visitar no Facebook

 


 

W.J. Solha



 CLÁUDIO JOSÉ LOPES RODRIGUES

W.J.Solha - CooJornal

 
O ser humano é todo contradições: Dante diz, na Divina Comédia, que nenhuma dor é maior do que a de recordar o tempo feliz na miséria (Isto, no original é belíssimo: Nessun maggior dolore Che ricordarsi del tempo felice Nella miséria). Já Virgílio, na Eneida, ao se lembrar – pelo contrário – das angústias da guerra de Tróia, filosofa: “Talvez algum dia nos seja agradável rememorar estas coisas”. Puro prazer ou duro sofrer, todo escritor está sempre à la recherche du temps perdu. Cláudio José Lopes Rodrigues também faz isso, mas sempre com bom humor. Li dois de seus volumes publicados pela editora Idéia em 2000 e 2004: “Alienados e Subversivos” - onde ele conta o que foi a ascensão e queda da agitação estudantil paraibana. de 1950 a 1999 – e “Diário não diário.1”. no qual se detém noutras vivências suas na “cidade das acácias” e fora dela.

Há dois momentos notáveis, neste segundo livro: “O troféu de Maria Adete Wanderley, a Rainha dos Tabajaras”, e o imensamente irônico relato “Doces tardes de sábado na Academia Paraibana de Poesia, o Templo do Saber Poético”. Lembro-me de que nos anos 60, quando eu morava em Pombal, enviei para uma correspondente da Índia uma foto minha tirada no Esporte Clube Cabo Branco – que eu conhecera só de passagem - e me surpreendi com o que a moça de sári me respondeu: ”A sua casa é linda!” O ECCB era, realmente, um monumento, e Cláudio José Lopes Rodrigues viveu essa época áurea. Fala das grandes partidas de tênis e voleibol, dos bailes com grandes orquestras como a de Severino Araújo e Ruy Rey, e nos mostra o que é agora a entidade, já sem glamour. Para tanto, serve-se de um recurso cinematográfico de angulação expressiva, o plongée - a tomada de cena feita do alto:

Vizinho do sodalício, da varanda de meu apartamento diviso hoje o cerco que grandes edifícios lhe vão fazendo. Da perspectiva de um décimo sexto pavimento, o clube já não se mostra como o presunçoso Colosso de Miramar.

Essa atitude marca a obra de Cláudio Rodrigues. Ao contrário de Dante e Virgílio, que “filmavam” suas criaturas de baixo para cima – em contre-plongée - como fazem os historiadores de um modo geral e os artistas encarregados de levantar megálitos que engrandeçam Ramsés em Abu Simbel, os presidentes americanos no Monte Rushmore, o Cristo Redentor no Rio, o Buda em Kamakura, ele põe em tudo que relata – principalmente em “Alienados e Subversivos” - essa visão “de décimo sexto pavimento”, adquirida certamente ao fazer seu mestrado e doutorado em Sociologia na USP. Passeatas, ídolos, líderes, comícios, bombas, polícia, exército, exílios, paixões, prisões, o tema é sempre abordado com um bom humor que atinge seu ponto máximo no capítulo “A Emissora do Bom Gosto e seus Prezados Ouvintes”, numa época em que a estudantada – como todo mundo na capital paraibana – era ligada nas rádios Arapuan e Tabajara.

Pascoal Carrilho anunciava de forma personalíssima a hora certa: ´São dez horas, trinta e um minutos, dezessete segundos e dois décimos. (...) Às 13 horas tocava-se um gongo e o locutor anunciava: ´Senhoras e senhores, vamos fazer uma pausa em nossa programação. Voltaremos logo mais às 5 da tarde. (...) Otinaldo Lourenço foi muitas vezes convocado a prestar esclarecimentos ao Grupamento de Engenharia. Numa delas, o motivo foi o horóscopo copiado do Almanaque do Pensamento: ´Hoje não é dia bom para tratar com militares.

São pequenas preciosidades com que – sem tirar a seriedade do que conta – Cláudio José Lopes Rodrigues enche de vida seus depoimentos, sempre bastante pessoais, importantíssimos para quem quer conhecer ainda mais a fundo a sua própria cidade.


Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, em wjsolha@superig.com.br
 


Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Recentemente, trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho  e em “Era uma vez eu, Verônica”.
wjsolha@superig.com.br 




Direitos Reservados