15/02/2017
Ano 20 - Número1.017
 


 

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W.J. Solha

 


 
 
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EVERARDO NORÕES

Isto é sobre seu conto O Cego (páginas 45)

 



 

Reparo no texto abaixo, sobre seu Entre Moscas:

 

Escrito por Marco Polo   

Foto por Heudes Régis/Arquivo

Ernest Hemingway dizia que a escrita deveria ser como um iceberg, do qual só se via uma mínima ponta, enquanto toda sua potência teria que ser adivinhada sob as águas. Já Ricardo Piglia diz que todo bom conto tem, sob o texto aparente, um subtexto que flui como um rio subterrâneo. Esse tipo de qualidade, que obriga o leitor a ser um leitor ativo, mergulhador, escavador, em busca do ouro real, é uma das qualidades do livro de contos Entre moscas, do cearense radicado no Recife Everardo Norões

 

 

 

 

Bem, e o conto O Cego me parece um perfeito exemplo disso. A começar pelo fato de que é impossível, sendo você “borgiano nas citações”, cf

Ronaldo Correia de Brito, não pensar em Borges. 

 

http://www2.ups.edu/faculty/velez/FL380/borges.jpg 

Não só pela cegueira, mas – em alguns pontos – pelo estilo. Você, como Borges, é poeta. Por sinal, Hamid já aparece com sua cegueira no poema O Anúncio dos Bárbaros. Mas aqui isto é explícito:

 Marcamos nosso primeiro encontro num café, o da esquina de uma das principais avenidas da cidade, junto a uma praça que tem a atmosfera da confluência  de rios ocultos.

“Rios ocultos”, no caso, são evidentemente, os personagens Hamid e o narrador. “Rios ocultos”. O conto mostra o quanto.

 (Hamid) Sabe as razões de minha estada na cidade, quem são meus contatos, de onde venho.

Nós, não.

Indago como ele, cego, conseguira doutorar-se em lógica matemática pela Sorbonne. (..)

- O olho, disse o cego, é simples circunstância do real.

(...)

 

Reveja isto, depois de ler todo este meu texto:

(às vezes me pergunto se ele é de fato cego), temo que escute meus passos, sinta o cheiro de meu corpo, descubra alguma partícula secreta de meu nome.

Umberto Eco presta uma grande homenagem a Jorge Luís Borges, em O Nome da Rosa. No livro há uma biblioteca labiríntica, secreta, dentro do convento comandado pelo misterioso, severo... e cego “Venerável Jorge”:

 

http://3.bp.blogspot.com/_zFTeI7dLEyM/S7odE0jLJbI/AAAAAAAAByw/rV7sdg9xsPw/s1600/Nome+da+Rosa+10.jpg

 

 

 

 

 


(às vezes me pergunto se ele é de fato cego).

 

Claro:

 

quando me pediu para conduzi-lo de automóvel, descreveu as ruas por onde passamos, confirmando que “via” tão bem quanto eu.

 http://cinemaedebate.files.wordpress.com/2011/03/frank-dirige-uma-ferrari.jpg

 

 

 

 

Al Pacino faz mais do que isso quando dança tango e dirige à toda, no papel de cego de Perfume de Mulher...

 

 

 

Hamid chega ao ponto de opinar sobre um desenho retratando uma ex-noiva:

A ligeira sombra abaixo dos olhos a torna um pouco mais velha mas, no geral, considero que é um bom trabalho

... o que não é nada absurdo, ante o fotógrafo cego Evgen Bavcar, do documentário Janela da Alma, sobre escritores e cineastas deficientes visuais,

 

http://i.ytimg.com/vi/56Lsyci_gwg/0.jpg

 

... ou ante o Demolidor, super-herói cego vivido por Bem Affleck.

 

http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/foto/0,,42901481,00.jpg

 

Claro que isso tudo remete a Tirésias, o... vidente cego do Édipo Rei, de Sófocles, que diz ao soberano (que terminará, literalmente, por cegar-se):

 

http://photos1.blogger.com/blogger/5732/1644/320/Tiresias%5B1%5D.jpg

 

- ... Digo-te, Édipo, já que ofendestes a minha cegueira, que tens olhos abertos à luz, mas não vês teus males.

Hm. Isso tudo talvez tenha a ver com a escolha do nome Hamid – “louvado” ou “digno de louvor”.

Mas...

 

Com Hamid aprendi a detestar os cegos.

Como Buñuel. Em Viridiana,  um dos mendigos, o cego, é mau – diz Roberto Acioli de Oliveira, em A Religião no C inema de Luis Buñuel.-  Para o cineasta... todos os cegos são maus!

 

 

http://wp.arte.tv/olivierpere/files/2013/07/bunuel-dali-un-chien-andalou.jpg

 

E voltamos a Borges, que tem o xadrez como tema de um dos cumes de sua poesia.

 

http://3.bp.blogspot.com/-k-DuRVdW8Yc/Tce3YZkJsyI/AAAAAAAAAC8/Ge1Dr6rbwJg/s400/Borges-y-Sabato-2.jpg

 

Como explicar a facilidade com que Hamid age?

(Era) Como se tivesse no cérebro um modelo matemático , um jogo no qual sempre tivesse a possibilidade de ganhar ou, no mínimo de empatar a partida, Kasparov jogando contra o Deep Blue, ou no conto/ensaio de Poe O jogador de xadrez de Maelzel.

Bem borgiana a menção desse computador enfrentando Kasparov e desse estranho enxadrista, um autômato... na verdade, segundo Poe, uma farsa, pois manobrado  por um anão.

Hamid também é matreiro:

 

...pede que o deixe junto às escadarias da universidade. Pego seu braço, abro caminho entre mesas.

Mas quem é o narrador? E quem, Hamid? O final do conto... me lembra o  de meu romanceamento do Édipo Rei, de Sófocles, constante de minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005). Meu título, por sinal,  deriva da História Universal da Infâmia, do argentino.

 

http://mlb-s2-p.mlstatic.com/historia-universal-da-angustia-wjsolha-9018-MLB20011229626_112013-O.jpg 

O meu tebano, ao fim de tudo, lembra-se de que Tirésias lhe dissera:

 “Se agora não vês, olhando tudo, breve tudo verás, embora cego!”

 

Daí que ele mete os ferrões dos colchetes nos olhos.

Foi quando ouvi minha voz fora deste centro do universo que eu sou, dizendo-me de longe: “Tirésias!” Senti minhas mãos maiores do que as sabia e que o côncavo de suas palmas estavam ... nos ombros nus de dois rapazes – “Os kúroi!” – percebi. “Os guias!” – e, a seguir -  “Degraus!”-  percebi sob meus pés. Procurei controlar os passos para não cair.

 E temos Édipo transformado no vidente, no exato momento em que chega, intimado por sua majestade – ele mesmo - a dizer o que sabe de tudo que está acontecendo. E ouve-se a si mesmo:

 

- “Zeus!... Saber é terrível, quando inútil!...

 

E aí... tenho o Everardo Norões como irmão numa mesma caminhada. As coisas estão no ar, lemos e vimos as mesmas coisas, tivemos as mesmas influências... e por isso compreendo perfeitamente o que seu narrador diz, enigmaticamente, encerrando o conto:

 

Não tenho escolha. (...) tornar-me-ei um pouco ele. Até fecharei os olhos. Serei um cego subindo escadarias, adentrando becos . Feito um cão policial, que se rege pelo faro, prestes a cravar suas mandíbulas na carne de algum infiel.

 



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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email wjsolha@superig.com.br 
 

 


(15 de fevereiro/2017)
CooJornal nº 1.017


Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Recentemente, trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho  e em “Era uma vez eu, Verônica”.
wjsolha@superig.com.br 


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